ANALISANDO A OBRA: O CONSOLADOR

O LIVRO SAGRADO DA SEITA NEO-CRISTA QUE TENTA MODIFICAR OS PRINCÍPIOS DA DOUTRINA ESPÍRITA.

Nelson Murilo M. Cardoso

                           

Para quem não conhece o Espiritismo, nem mesmo um pouco da sua história e das suas obras básicas assinadas por Allan Kardec, ao ler o livro O Consolador, do Espírito Emmanuel e psicografado pelo médium Chico Xavier, vai imaginar que o autor desta obra foi quem criou a doutrina dos Espíritos. Na verdade, Emmanuel fundou neste livro os dogmas de uma nova seita cristã plagiando para ela o nome Espiritismo, nome este criado por Allan Kardec.

Um dos campeões de venda da FEB

Para escrever este artigo, reli O Consolador analisando e tentando compreender melhor as ideias do seu autor. O livro, de 1940, é composto de perguntas feitas por integrantes do Grupo Espírita Luiz Gonzaga, de Pedro Leopoldo (MG), que foram posteriormente selecionadas e respondidas por Emmanuel, tendo no total 411 questões. Até o final da obra li apenas uma citação ao codificador do Espiritismo, na questão 369, na qual o autor diz que não aconselha “a evocação direta e pessoal dos espíritos, em caso algum”, afirmando que “Podereis objetar que Allan Kardec se interessou pela evocação direta”; e não pararam por aí as suas discordâncias com o Espiritismo.

Em “Nota a primeira edição”, no final do livro, a Federação Espírita Brasileira fez uma alusão à outra discordância doutrinária de Emmanuel ao este afirmar, na resposta dada a questão 323 da referida obra, que “- No sagrado mistério da vida, cada coração possui no Infinito a alma gêmea da sua, companheira divina para a viagem à gloriosa imortalidade”. Em O Livro dos Espíritos, na pergunta 298, os Espíritos afirmam não haver união particular e fatal entre duas almas. Porém em resposta neste final da edição, Emmanuel reafirma a sua opinião, e a FEB conclui por manter o texto “para que cada qual possa interpretar e decidir de foro íntimo” aquilo que preferir, atribuindo a Emmanuel “veneração e reconhecimento, mais que merecidos, ao emérito e sábio cultor da seara cristã.

Cristo: Um ser acima dos anjos enviado por Deus para construir o nosso planeta, segundo o jesuíta paulino.

O “venerando, emérito e sábio” espírito Emmanuel opina nesta obra sobre todos os assuntos que possamos imaginar, dividindo-os nas categorias: ciência, filosofia e religião, incluindo equivocadamente neste último o Espiritismo. Emmanuel, como fez Paulo de Tarso, diviniza o Jesus Cristo tal qual um anjo e emissário direto de Deus, sendo esse semideus o responsável pela criação de todo o planeta Terra bem como das várias formas de vida nele existentes.  Comparei 15 questões do livro citado com o que explicam os Espíritos nas obras básicas compiladas e ordenadas por Allan Kardec, nas quais encontramos o chamado Controle Universal do Ensinamento dos Espíritos. Muitas das questões feitas na obra psicografada pelo médium mineiro são cópias quase exatas de perguntas de O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e A Gênese. O autor costuma fazer uso de uma linguagem bastante prolixa e de pretensa erudição. Porém o que iremos comparar são as suas afirmações de cunho mitológico, as que são inverossímeis e fruto do achismo pessoal.

Usarei o seguinte método: Primeiro coloco o trecho do livro de Emmanuel que selecionei. Em seguida confronto com as obras básicas do Espiritismo no mesmo tema; e depois faço uma pequena análise, quando necessária. Procurei algumas vezes uma referência cientifica que tivesse sido publicada antes do livro O Consolador, embora me pareça que o venerando autor espiritual não teve preocupações em buscar outras fontes que não a sua própria opinião e desconheça a frase de Victor Hugo: “O sábio sabe que ignora”. (Todos os grifos são nossos):

[1] EMMANUEL. [2] KARDEC . [3] Meus comentários (quando houver).

[1]– Podemos tomar o Espiritismo, simbolizado desse modo, como um triângulo de forças espirituais. A ciência e a filosofia vinculam à terra essa figura simbólica, porém a religião é o ângulo divino que a liga ao céu”. (Kindle, 5134).

[2]O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as consequências morais que decorrem desta relação”. (KARDEC, 1859)

[1] Pergunta 1 – sobre o Espiritismo e a ciência: o Espiritismo não necessita em absoluto da ciência terrestre, mas é esta que tem necessidade do Espiritismo. (5134)

[2]O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal”. (KARDEC, 1859)

[1] 48 –“Somente com a cooperação do Espiritismo poderá a ciência psicológica definir a sede da inteligência humana, não nos complexos nervosos ou glandulares do corpo perecível, mas no Espírito imortal”. (5452).

[2] O EspiritismoPela lei da pluralidade das existências, abre um novo campo à filosofia; dá as próprias leis da Natureza como base dos princípios de solidariedade universal, de fraternidade, de igualdade e de liberdade, que só se assentavam na teoria. Enfim, projeta luz sobre as mais árduas questões da metafísica, da psicologia e da moral”. (REVISTA ESPIRITA, agosto de 1865)

[1] 67 – “A ideologia feminista dos tempos modernos, porém, com as suas diversas bandeiras políticas e sociais, pode ser um veneno para a mulher desavisada dos seus grandes deveres espirituais na face da Terra. Se existe um feminismo legítimo, esse deve ser o da reeducação da mulher para o lar, nunca para uma ação contraproducente fora dele”. Os problemas femininos só podem ser solucionados à luz generosa e divina do Evangelho. (5606).

[2] Questão 822-a – (…) “A lei humana, para ser justa, deve consagrar a igualdade de direitos entre o homem e a mulher; todo privilégio concedido a um ou a outro é contrário à justiça. A emancipação da mulher segue o processo da civilização, sua escravização marcha com a barbárie. Os sexos, aliás, só existem na organização física, pois os Espíritos podem tomar um e outro, não havendo diferenças entre eles a esse respeito. Por conseguinte, devem gozar dos mesmos direitos”. (KARDEC, 1857).

[1] 85 – “Jesus foi o divino escultor da obra geológica do planeta (…) Não podemos afirmar que as formas da natureza, em sua manifestação inicial, obedecessem a um molde preexistente, no sentido de imitação, porque todas elas receberam o influxo sagrado do coração do Cristo”. (5736).

[2] Questão 45 – Onde estavam os elementos orgânicos, antes da formação da Terra?

“Achavam-se, por assim dizer, em estado de fluido no Espaço, no meio dos Espíritos, ou em outros planetas, à espera da criação da Terra para começarem existência nova em novo globo. ” (KARDEC, 1857).

[1] 88 – “As comoções do globo são instrumentos de provações coletivas, ríspidas e penosas. Nesses cataclismos, a multidão resgata igualmente os crimes de outrora e cada elemento integrante da mesma quita-se do pretérito na pauta dos débitos individuais”. (5753).

[2] Questão 738 – Comentário de Kardec: Quer a morte se verifique por um flagelo ou por uma causa ordinária, não se pode escapar a ela quando soa a hora da partida: a única diferença é que no primeiro caso parte um grande número ao mesmo tempo. Se pudéssemos nos elevar pelo pensamento de maneira a abranger toda a Humanidade numa visão única, esses flagelos tão terríveis não nos pareceriam mais do que tempestades passageiras no destino do mundo. (KARDEC, 1857).

[1] 109 – Educação da criança – “Até aos sete anos, o Espírito ainda se encontra em fase de adaptação para a nova existência que lhe compete no mundo. (5877).

[2] Não encontramos nenhuma referência da idade que uma criança completa a adaptação a sua nova encarnação, mas na questão 380, Kardec faz um comentário elucidativo:

 – “Enquanto criança, é natural que os órgãos da inteligência, não estando desenvolvidos, não possam dar-lhe toda a intuição de um adulto, sua inteligência, com efeito, é bastante limitada, até que a idade lhe amadureça a razão. A perturbação que acompanha a encarnação não cessa de súbito com o nascimento e só se dissipa com o desenvolvimento dos órgãos. Uma observação vem em apoio desta resposta: é que os sonhos de uma criança não têm o caráter dos sonhos de um adulto, seu objeto é quase sempre pueril, o que é um indício da natureza das preocupações do Espírito”. (KARDEC, 1857).

[1] 150 – O Espírita e a morte – “ Que o espírita cristão não considere o seu título de aprendiz de Jesus como um simples rótulo, ponderando a exortação evangélica – ‘muito se pedirá de quem muito recebeu’, preparando-se (…) quando a noite do túmulo houver descerrado aos seus olhos espirituais a visão da verdade, em marcha para as realizações da vida imortal”. (6194).

[2] 157. No momento da morte a alma tem às vezes uma aspiração ou êxtase, que lhe faz entrever o mundo para o qual regressa?

“ A alma sente, muitas vezes, que se desatam os liames que a prendem ao corpo, e então emprega todos os seus esforços para os desligar de uma vez. Já parcialmente separado da matéria, vê o futuro desenrolar-se ante ela e goza por antecipação do estado de Espírito”. (KARDEC, 1857).

[3] – A expressão “A noite do túmulo” usada pelo padre jesuíta, é aplicada para manter o medo da morte entre os crentes oferecendo o Cristo da fé como única salvação. No livro “A Crise da Morte” o autor Ernesto Bozzano em sua pesquisa comparativa de diversos casos contados pelos Espíritos logo após as suas mortes, descreve na conclusão doze detalhes fundamentais desses momentos. Reproduzo agora um desses detalhes: “7º)Terem reconhecido que o meio espiritual era um novo mundo objetivo, substancial, real, análogo ao meio terrestre espiritualizado“.

[1] 154 – Suicida – “ A primeira decepção que os aguarda é a realidade da vida que se não extingue com as transições da morte do corpo físico, vida essa agravada por tormentos pavorosos, em virtude de sua decisão tocada de suprema rebeldia”. (6218).

[2] 957. Quais são, em geral, as consequências do suicídio sobre o estado do Espírito?As consequências do suicídio são as mais diversas. Não há penalidades fixadas e em todos os casos elas são sempre relativas às causas que o produziram. Mas uma consequência a que o suicida não pode escapar é o desapontamento. De resto, a sorte não é a mesma para todos, dependendo das circunstâncias. Alguns expiam sua falta imediatamente, outros numa nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam. (KARDEC, 1857).

[1] 269 – Deus falou a Moisés – “(…) Moisés trazia consigo as mais elevadas faculdades mediúnicas.  (…) Estais, porém, habilitados a compreender, agora, que a Lei ou a base da Lei, nos dez mandamentos, foi-lhe ditada pelos emissários de Jesus, porquanto todos os movimentos de evolução material e espiritual do orbe se processaram, como até hoje, sob o seu augusto e misericordioso patrocínio”. ( 7150).

[2] 614. Que se deve entender por lei natural? “A lei natural é a lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer e ele só é infeliz quando dela se afasta. ” (KARDEC, 1857).

[2] 621. Onde está escrita a lei de Deus? “Na consciência. ” (KARDEC, 1857).

[1] 271 – Os três aspectos da “grande Revelação” – “Até agora, a humanidade da era cristã recebeu a grande Revelação em três aspectos essenciais: Moisés trouxe a missão da Justiça; o Evangelho, a revelação insuperável do amor, e o Espiritismo, em sua feição de Cristianismo redivivo, traz, por sua vez, a sublime tarefa da Verdade. (7167)

[3] Essa “grande Revelação em três aspectos essenciais” é um delírio de Emmanuel. O Cristianismo já havia associado em sua teologia o Cristo da fé às profecias dos profetas Hebreus. Porém o padre jesuíta foi muito além anunciando que Jesus Cristo foi quem transmitiu à Moisés as Leis da Torá! E no terceiro aspecto ele incluiu o Espiritismo como a terceira e mais nova das revelações crísticas.

[1] 287 – Jesus – “ De modo algum poderíamos fazer um estudo psicológico de Jesus, estabelecendo dados comparativos entre o Senhor e o homem”. (7285).

[3] A exaltação de Jesus como um anjo paulino ou o semideus emannuelino é registrada praticamente em todas as páginas do livro O Consolador. A sensação que tive foi de estar ouvindo alguém recitando uma ladainha interminável…

[1] 321 – Qual a edição dos Evangelhos que melhor traduz a fonte original? – “A grafia original dos Evangelhos já representa, em si mesma a própria tradução do ensino de Jesus, considerando-se que esta tarefa foi delegada aos seus apóstolos. (7488).

[3] O Evangelho considerado mais antigo foi escrito provavelmente 30 anos após a sua morte. Nenhum dos quatro Evangelhos canônicos (oficiais da Igreja), teria sido escrito pelos apóstolos de Jesus. Os Evangelhos são apenas atribuídos aos apóstolos, não são considerados de suas autorias. Os estudos sobre o Jesus histórico se iniciaram aproximadamente há dois séculos. Em 1863, o filósofo e historiador Ernest Renan publicou o livro “Vida de Jesus”, após ter feito importantes pesquisas nos locais onde Jesus viveu. Renan diz “Que os Evangelhos sejam em parte lendários, é evidente, já que são cheios de milagres e de sobrenatural, mas há lendas e lendas”.

[1] 368 – Espiritismo – “De modo algum se deve provocar as manifestações mediúnicas (…) porque o programa espiritual das sessões está com os mentores que as orientam do plano invisível (…) de acordo com as necessidades e os méritos de cada um”. (7830).

[2] O LIVRO DOS MÉDIUNS – CAP. XXV – DAS EVOCAÇÔES – “269. Os Espíritos podem comunicar-se espontaneamente ou acudir ao nosso chamado, isto é, vir por evocação. Pensam algumas pessoas que todos devem abster-se de evocar tal ou tal Espírito e ser preferível que se espere aquele que queira comunicar-se. Fundam-se em que, chamando determinado Espírito, não podemos ter a certeza de ser ele quem se apresente, ao passo que aquele que vem espontaneamente, de seu moto próprio, melhor prova a sua identidade, pois que manifesta assim o desejo que tem de se entreter conosco. Em nossa opinião, isso é um erro: primeiramente, porque há sempre em torno de nós Espíritos, as mais das vezes de condição inferior, que outra coisa não querem senão comunicar-se; em segundo lugar e mesmo por esta última razão, não chamar a nenhum em particular é abrir a porta a todos os que queiram entrar. Numa assembleia, não dar a palavra a ninguém é deixá-la livre a toda a gente e sabe-se o que daí resulta. A chamada direta de determinado Espírito constitui um laço entre ele e nós; chamamo-lo pelo nosso desejo e opomos assim uma espécie de barreira aos intrusos. Sem uma chamada direta, um Espírito nenhum motivo terá muitas vezes para vir confabular conosco, a menos que seja o nosso Espírito familiar” (KARDEC, 1861).

Encerro este artigo deixando a você, amigo leitor, uma pergunta para a sua reflexão:

A QUEM INTERESSA ALTERAR O ESPIRITISMO CRIADO COMO UMA FILOSOFIA E CIÊNCIA QUE PERMITE O AVANÇO NA BUSCA DE QUESTÕES QUE ATORMENTAM TANTAS PESSOAS, CUJAS RESPOSTAS ELAS NÃO ENCONTRARAM EM SUAS RELIGIÕES OU FORA DELAS, PARA TRANSFORMÁ-LO EM UMA SIMPLES E VULGAR SEITA RELIGIOSA, DOGMÁTICA QUE DESEJA PRENDER O SER HUMANO À CULPA E À IDOLATRIA DA CRENÇA CRISTÃ ?

BIBLIOGRAFIA: O que é o Espiritismo – Allan Kardec

                              O Livro dos Espíritos – Allan Kardec

                              O Livro dos Médiuns – Allan Kardec.

                               Vida de Jesus – Ernest Renan

A Crise da Morte – Ernesto Bozzano

                               O Consolador – Emmanuel/Chico Xavier

OBS. O Kindle é um e-book da Amazon, cuja edição de O Consolador utilizamos. Nele existe uma numeração de quatro números substituindo a página do livro convencional. (ex: 5736).

Trecho da Revista Espírita de dezembro de 1868 com o título: “O Espiritismo é uma religião? :

                             “(…) se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as próprias leis da Natureza.

                            Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da ideia de culto; porque ela desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se quiserem, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; ele não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião pública se levantou.

                           Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral” (…).

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