ENCONTRANDO O SENTIDO DA PRECE E PROCURANDO UM SENTIDO PARA A SEITA ESPÍRITA.

Nelson Murilo M.Cardoso

Encontramos algumas citações sobre a prece nas obras de Kardec, e entre elas uma explicação dos Espíritos sobre o seu uso na questão 660 de O Livro dos Espíritos, segunda parte, quando esses dizem: “O essencial não é orar muito, mas orar bem. Essas pessoas creem que todo o mérito está na extensão da prece e fecham os olhos sobre seus próprios defeitos. A prece para elas é uma ocupação, um emprego de tempo, mas não um estudo delas mesmas. Não é o remédio que é ineficaz, mas a maneira como é empregado”. [O Livro dos Espíritos, 1857, 2012] [Grifos nossos].

             Mais adiante, no mesmo livro, na questão 909, Kardec indaga: “O homem poderia sempre vencer suas más tendências pelos seus esforços?”, obtendo como resposta: “Sim, e algumas vezes, por fracos esforços. É a vontade que lhe falta. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!” Complementando o assunto, na questão seguinte dizem que a oração é eficaz na busca da superação de suas paixões, pois “(…) os bons Espíritos virão certamente em sua ajuda, porque é a sua missão (459)” [*].  

             Analisando as três questões simultaneamente, percebemos a associação entre o possível desejo de autoconhecimento expresso pela vontade sincera de modificar-se e que a sintonia de pensamento nos permitirá receber a ajuda dos bons Espíritos.

             Em outo artigo Kardec contestou a opinião de alguns Espíritas que negavam a eficácia da prece e não a achavam adequada ao Espiritismo como ciência puramente filosófica, quando afirmavam “que toda prece dita nas reuniões tende a manter a superstição e a hipocrisia religiosa”. Neste artigo, Kardec contrapõe: “Abolir a prece é privar o homem de seu mais poderoso apoio moral a adversidade. Pela prece ele eleva a sua alma, entra em comunhão com Deus, identifica-se com o mundo espiritual, desmaterializa-se, condição essencial de sua felicidade futura; sem a prece, seus pensamentos ficam na Terra, ligam-se cada vez mais às coisas materiais”. [Revista Espírita, janeiro de 1866].

             Entretanto no lado oposto desta tese negacionista da eficácia da prece, encontramos aqueles que são dependentes de fórmulas as quais transformam a prece em parte de um culto e de um ritual dogmático proveniente das religiões de onde vieram. Fala-nos sobre isso Kardec, no mesmo texto, que:

 “Nas reuniões espíritas, a prece predispõe ao recolhimento, à gravidade, condição indispensável, como se sabe, para as comunicações sérias. Significa dizer que deveriam ser transformadas em assembleias religiosas? Absolutamente. O sentimento religioso não é sinônimo de sectário de uma religião; deve-se mesmo evitar o que poderia dar às reuniões este último caráter. É com esse objetivo que temos desaprovado constantemente as preces e os símbolos litúrgicos de um culto qualquer. Não se deve esquecer que o Espiritismo tem em vista a aproximação das diversas comunhões; já não é raro ver nessas reuniões confraternizarem com representantes de diferentes cultos, razão por que nenhum deve arrogar-se a supremacia. Que cada um em particular ore como entender; é um direito de consciência; mas numa assembleia fundada sobre o princípio da caridade, deve-se abster de tudo quanto pudesse ferir as susceptibilidades e contribuísse para manter um antagonismo que, ao contrário, é preciso esforçar-se para fazer desaparecer”. [Revista Espírita, janeiro de 1866]. [Grifos nossos].

             Consolidando este sentido de liberdade de escolha para as pessoas que desejam frequentar e adquirir conhecimentos sem vínculos religiosos nos estudos e palestras dentro dos ambientes espíritas, confirma-nos Kardec: “Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis por que simplesmente se diz: Doutrina filosófica e moral”.

             Quando vemos que a prece foi reduzida a um simples ritual obrigatório, insosso, desprovido de profundos sentimentos fraternos dentro de um ambiente também desprovido de respeito e companheirismo, e sem a busca pela autotransformação de cada um, mais uma advertência de Kardec ficou esquecida:

 “Qual é, pois, o laço que deve existir entre os Espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se deve confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos ou, em outras palavras: o amor ao próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos que os mortos sempre fazem parte da Humanidade”. [Revista Espírita, dezembro de 1868]. [Grifos nossos].

             O caminho escolhido por um grupo cristão de encarnados e desencarnados que dominou o Espiritismo no Brasil desde o início do século XX, trouxe a esta doutrina o atraso nos estudos e pesquisas imprescindíveis ao acompanhamento das modernas descobertas da ciência, da história e da arqueologia, estagnados que estão nas ideias milenares do cristianismo. Mitos modernos de médiuns, oradores pomposos e espíritos pseudossábios ombrearam os mitos modernos aos mitos milenares.

             Hoje o Espiritismo brasileiro não tem sequer uma personalidade definida sendo uma seita que não pode ser chamada de cristã, pois não confere ao Cristo a condição de um Deus, como exige o credo cristão; os cristãos, portanto, a rejeitam, os seguidores das demais religiões não encontram ali a liberdade para conhecer os verdadeiros fundamentos espíritas, enfeitados que estão estes fundamentos de crenças, e os demais que procuram respostas a suas questões existenciais se decepcionam com o ambiente de mais uma igreja de religião indefinida e arraigada de dogmas do cristianismo!

             Para muitos fica difícil entender tanto arranjo! Parece-me um ser de alguma mitologia antiga: cabeça de boi, corpo de homem, rabo de cobra e pés de dinossauro.

             É, hoje, o Espiritismo o fruto de um falso sincretismo religioso, inchado de arrogância.

[*] Questão 459 – “Os Espíritos influem sobre os nossos pensamentos e as nossas ações?

A esse respeito sua influência é maior do que credes porque, frequentemente, são eles que vos dirigem”.

BIBLIOGRAFIA:

O Livro dos Espíritos – Allan Kardec.

Revista Espírita – Edições de janeiro de 1866, título do artigo: “Considerações sobre a Prece no Espiritismo” e dezembro de 1868: “O Espiritismo é uma Religião? ”.


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