A PROMESSA QUE NÃO SERÁ CUMPRIDA

Nelson M M Cardoso

 O povo hebreu sempre manteve suas tradições ligadas às leis do seu Iahweh Elohim ditadas a Moisés no deserto, há 3500 anos, quando da saída do povo hebreu do Egito. Toda a longa trajetória desse povo foi narrada de geração em geração e está escrita em seus livros sagrados. Jesus era um judeu e, como tal, conhecedor e propagador dessas leis. Em nenhum lugar dessas escrituras ele foi citado. Mas as Escrituras Sagradas dos judeus traziam uma clara definição de como seria o seu Messias e Jesus sabia, com o seu profundo conhecimento dessas escrituras, que ele não era o Messias e nem provavelmente desejava ser; a proposta de Jesus era pacífica, embora não submissa às injustiças e atrocidades sofridas por sua gente no período de dominação romana em que viveu. Mas talvez pela agitação e tumulto que ele provocou no Templo de Jerusalém durante as festividades do Pessach, que lotavam a cidade, acabou por incomodar o acordo de paz existente entre Herodes Antipas e o governador romano Poncio Pilatos para exercerem o controle daquele povo, podendo ter sido, por isso, preso, julgado e condenado à morte.

Moshê – Moises e o Êxodo
Jesus ensinando as Escrituras Sagradas ao seu povo

             Nada foi escrito sobre o Nazareno durante a sua vida, pois “A maioria dos discípulos de Jesus era composta de camponeses analfabetos de classe baixa das remotas zonas rurais da Galileia” (EHRMAN, 2014, p.327) e que por acharem que Deus o havia ressuscitado em corpo, após a sua crucificação, “Eles previam que o fim dos tempos era iminente, que o Filho do Homem – que agora achavam que fosse o próprio Jesus – viria dos céus em breve para o julgamento na terra e para inaugurar o reino do bem de Deus. Essas pessoas não pensavam em registrar os acontecimentos da vida de Jesus para a posteridade, porque, em um sentido muito real, não haveria posteridade”. (EHRMAN, 2014, p. 327). E na passagem de algumas gerações as narrativas de Jesus foram transmitas de boca em boca para os convertidos que admitiam a crença de Jesus como o Messias prometido por Deus ao seu povo em função da ressurreição. Duas décadas se passaram até que o fariseu Paulo de Tarso, convertendo-se às ideias dos seguidores dos seguidores de Jesus e por iniciativa própria, promoveu o surgimento de uma nova religião levando-a pessoalmente por vários povos da época. Surgia o Cristianismo com uma adaptação de “Cristo” – um mito pagão já existente na civilização egípcia – sendo por ele, Paulo de Tarso, adesivada ao Jesus ressuscitado por Deus, facilitando, desta forma, divulgar a recente religião moldada por Paulo até aqueles povos que não podiam entender o significado do Messias, uma figura circunscrita à cultura dos hebreus. Mais algumas décadas e as tradições ouvidas foram escritas por cristãos muito cultos de fala grega, produzindo, assim, os Evangelhos que temos ainda hoje (segundo EHRMAN).

             O avanço da religião cristã pelo mundo da época não tinha como trazer em seus cultos o ambiente judaico que permitiu Jesus apresentar a sua elevada mensagem de resistência às injustiças naquele momento terrível por que passava o seu povo. Mas a ressurreição do corpo de Jesus narrada por alguns de seus primeiros discípulos foi o motivo de conversão de alguns adeptos judeus que acreditaram na promessa de um futuro e próximo reino de paz. Já a incorporação do Cristo (CHRISTUS – que quer dizer “o Ungido”, de origem grega) a Jesus, feito por Paulo, que passou a chama-lo de Jesus-Cristo, foi a forma encontrada para adaptar essa nova religião a cultura dos povos pagãos.

             Quanto a Jesus de Nazaré, foi ele ficando cada vez mais distante desse Cristo salvador da humanidade, das novas teorias a respeito de sua divindade que o transformaram em mais um Deus e da criação de rituais, credos e dogmas. Tão distante quanto as crenças em sua divindade, em seu poder de conduzir as pessoas, de julgar e de condenar.

             Bart Ehrman considera um sonho para os historiadores encontrar algum dia um Evangelho escrito imediatamente após a morte de Jesus, no ano 31 EC. Mas faz um exercício sobre essa quase impossível possibilidade: “Esse Evangelho inexistente seria repleto de ensinamentos de Jesus, de suas andanças pelas aldeias e cidades proclamando a chegada do reino de Deus para breve, com a vinda do Filho do Homem. O dia do julgamento era iminente, e as pessoas precisavam se preparar para ele. Meu palpite é que esse Evangelho não seria preenchido com as coisas miraculosas que Jesus havia feito. Ele não passava os dias curando os enfermos, acalmando tempestades, alimentando multidões, expulsando demônios e ressuscitando mortos” (EHRMAN, p. 328). Mas sobre o que penso ser o ponto nevrálgico das cristologias posteriores, o pesquisador não alterou a afirmação que Jesus foi ressuscitado por Deus após a sua crucificação. Esta pergunta poderia ter sido respondida por alguém que o acompanhou durante a vida? Teria Jesus ressuscitado em corpo, alterando a lei natural da destruição? Precisamos continuar os estudos com humildade, e como diz o Psicólogo e Historiador Liszt Rangel em seu texto “A verdade do saber ou o saber da verdade?”, o qual indicamos para leitura: “A 𝙑𝙚𝙧𝙙𝙖𝙙𝙚 𝙙𝙤 𝙎𝙖𝙗𝙚𝙧 que procuro pode não te interessar e até ofender o teu saber da verdade” (grifos nossos).

             Não, o cristo não é a verdade que aparenta, ele apenas representa o desejo de homens que aspiram ao domínio das massas amansadas pelo medo do castigo que as estagna no cômodo lugar de um aparente conforto: o conforto de achar que tem alguém lhes conduzindo a vida, enquanto dormem e sonham com o amanhã feliz que nada fizeram para construir.

Bibliografia: Como Jesus se tornou Deus – Bart Ehrman.

                  Texto: A Verdade do Saber ou o Saber da Verdade? – Liszt Rangel.


 

 

 

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