PAULO DE TARSO E EMMANUEL: UMA AFINIDADE MILENAR.

Nelson Murilo Madeira Cardoso

De início vamos trazer algumas colocações sobre o Cristo na igreja cristã primitiva. Em seu livro “Como Jesus se Tornou Deus”, o conhecido pesquisador Bart Ehrman faz uma análise das várias concepções divinas do Cristo, ocorridas entre o século I e o século IV EC (Era Comum, substitui DC – Depois de Cristo) que são chamadas de cristologias. Cada um desses ensinamentos cristológicos apresenta uma origem diversa para o Cristo, quase todos feitos por teólogos cristãos. No Concílio de Niceia, em 325 EC, elas foram abolidas e a Igreja, através da vontade de seus bispos e do imperador romano Constantino, fechou a questão emitindo o credo[1] que até hoje é o dogma das igrejas cristãs, com poucas variantes entre elas.

             No período anterior ao credo de Niceia, entre as cristologias surgidas temos a do fariseu Paulo de Tarso para a qual, segundo Ehrman, o Cristo era visto como um anjo. Diz o respeitado pesquisador que teve muita dificuldade em compreender essa visão de Paulo e comenta: “Li a carta de Paulo aos Gálatas centenas de vezes, tanto em inglês quanto em grego. Contudo, o significado evidente do que ele diz em Gálatas 4:14 simplesmente nunca me ocorreu até, ser franco, poucos meses atrás. Nesse verso Paulo chama Cristo de anjo” (EHRMAN, 2014, p. 338).

Saulo a caminho de Damasco

             Logicamente que, como dissemos, o Cristo adotado até hoje pelas igrejas cristãs o exalta como o próprio Deus e não como um anjo; entretanto o que vou apresentar aqui é a impressionante retomada desta herética cristologia paulina atualmente, por uma seita religiosa que se diz cristã: chamo-a de seita “Neo Cristã” ou “Pseudo-Espiritismo”. Uma pergunta que o leitor atento poderá fazer é que se esta seita abraça uma visão do Cristo abolida pelas Igrejas Cristãs, como designá-la com o título de “Neo Cristã”?

             É uma questão muitíssimo interessante e paradoxal cujas bases estão no entendimento de que os seus adeptos se auto intitulam cristãos! Esta seita teve origem na Doutrina Espírita, definida como filosofia e ciência de observação pelos Espíritos que a revelaram e cujos princípios foram analisados e publicados por Allan Kardec. Porém, no Brasil, desde cedo, a adaptação dos rituais e dogmas da religião cristã alteraram esses princípios, surgindo então a conhecida seita cristã-espírita, um cisma ou racha que se tornou a corrente dominante nos meios espíritas brasileiros.

             Na década de 1930, um homem simples, humilde, ingênuo e de muita bondade, porém com forte inclinação religiosa, Chico Xavier, pode ter sido transformado em um instrumento utilizado por um grupo de Espíritos que de propósito ou não, acabaram por alterar a essência do Espiritismo implantando ideias teológicas que possivelmente foram remanescentes de suas vidas passadas como sacerdotes cristãos. Kardec os define como espíritos imperfeitos, pseudossábios e sistemáticos de acordo com a questão 104[2] de O Livro dos Espíritos.

Segundo Chico Xavier, Paulo em Espírito teria solicitado ao Padre Manoel da Nóbrega a criação da cidade de S. Paulo[4]

             Acho sentido em ver como líder desse grupo o Espírito Emmanuel que teria sido um padre jesuíta cuja longa série de livros psicografados pelo médium Chico Xavier teve uma linha coerente com a sua visão pessoal, mas que alterava os princípios do Espiritismo principalmente não observando o “Controle Universal dos Ensinamentos dos Espíritos”[3] e acabou transformando folclores do mundo espiritual em verdades absolutas. Foi assim que ele possivelmente ajudou a difundir no meio espírita a visão paulina do Cristo como anjo, sendo que na sua segunda publicação, o famoso livro “A Caminho da Luz – História da civilização a luz do Espiritismo”, diz Emmanuel na sua introdução: “Só Jesus não passou, na caminhada dolorosa das raças, objetivando a dilaceração de todas as fronteiras para o amplexo universal. Ele é a Luz do Princípio e nas suas mãos misericordiosas repousam os destinos do mundo” (CHICO XAVIER/EMMANUEL, 1938, p.16. Grifos nossos). Essa exaltação de Jesus revela bem a visão de um anjo como a defendida por Paulo.

             Neste livro, no capítulo I: “A Gênese Planetária – A comunidade de Espíritos Puros”, o autor define: “Rezam as tradições do mundo espiritual que na direção de todos os fenômenos, do nosso sistema, existe uma Comunidade de Espíritos Puros e Eleitos pelo Senhor Supremo do Universo, em cujas mãos se conservam as rédeas diretoras da vida de todas as coletividades planetárias. Essa Comunidade de seres angélicos e perfeitos, da qual é Jesus um dos membros divinos, ao que nos foi dado saber, apenas já se reuniu, nas proximidades da Terra, para a solução de problemas decisivos da organização e da direção do nosso planeta, por duas vezes no curso dos milênios conhecidos. A primeira, verificou-se quando o orbe terrestre se desprendia da nebulosa solar, a fim de que se lançassem, no Tempo e no Espaço, as balizas do nosso sistema cosmogônico e os pródromos da vida na matéria em ignição, do planeta, e a segunda, quando se decidia a vinda do Senhor à face da Terra, trazendo à família humana a lição imortal do seu Evangelho de amor e redenção”. (CHICO XAVIER/EMMANUEL, 1938, p.17). (grifos nossos). Vemos que apesar de Emmanuel iniciar o capítulo citando como fonte de suas pesquisas “as tradições do mundo espiritual, ele as incorpora como verdades neste e em todos os livros de sua autoria, passando a ser respeitado e acreditado pela comunidade espírita como fonte de conhecimentos inquestionáveis.

             Percebemos a mesma linha de Emmanuel nas obras de outros Espíritos as quais foram psicografadas por Chico Xavier, como Humberto de Campos e mesmo André Luiz com um olhar pessoal em suas histórias, sem comprovação com tendências ao romantismo. Esta forma de querer transformar folclores em fatos comprovados acabou influenciando também outros médiuns como Divaldo Franco e os Espíritos por eles psicografados.

             Queremos, entretanto, nos restringir neste texto apenas a semelhança da exaltação do Cristo da fé do “apóstolo dos gentios” Paulo de Tarso e do ex-padre jesuíta Emmanuel. Em publicações posteriores como no livro “Paulo e Estevão”, onde Emmanuel conta a sua história sobre a vida de Paulo com fatos que já são questionados pelos pesquisadores do Jesus histórico e do cristianismo primitivo há mais de um século, Emmanuel mostra uma grande admiração e veneração pelo apóstolo tardio de Jesus; no livro “Pão Nosso”, de 1950, Emmanuel usa as cartas de Paulo como uma das fontes do Novo Testamento por onde desenvolveu os seus textos incluindo nestes as cartas paulinas que não são mais consideradas como de sua autoria, pelos pesquisadores modernos.

O caminho religioso seguido pela maioria dos espíritas no Brasil tem em Emmanuel o seu primeiro e mais importante guia espiritual e mesmo como uma seita cristã desviada e distorcida devido à visão não ortodoxa do Cristo-anjo em detrimento do Cristo-Deus dos cristãos; além de ser repudiado no meio cristão, deixa como grave sequela o esquecimento da proposta de elevação moral e de crescimento do homem pelos meios científicos oferecidos pelo Espiritismo.

             Mas para os crentes religiosos em que se transformaram a maioria dos espíritas brasileiros a fé lhes basta mesmo estando desassociados das descobertas científicas.

[1] – “Credo Niceno” original com o anátema do último parágrafo, determinado pelo concílio de Niceia – 325 EC:

“Cremos em um só Deus, o Pai, todo poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis;
E em só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado do pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz de luz, verdadeiro Deus, gerado, não feito, consubstancial com o Pai, por quem todas as coisas vieram a existir, as coisas do céu e as coisas da Terra, o qual por nós homens e pela nossa salvação desceu e encarnou, tornando-se humano, sofreu e ressuscitou no terceiro dia, subiu aos céus, virá para julgar os vivos e os mortos;
E no Espírito Santo.
Mas, quando aqueles que dizem: ‘Foi quando ele não existia”, e: “Antes de nascer ele não existia” e que: “Ele veio a existir do nada”, ou que asseguram que o Filho de Deus é de uma hipóstase ou substância diferente, ou está sujeito a alteração e mudança – esses a igreja católica e apostólica anatematiza”.

Tradução de J.N.D. Kelly, Early Christian Creeds, 3ª ed. (Londres, Longman,1972), (EHRMAN, 2014, p.464).

[2] 104. Oitava classe. Espíritos pseudossábios. – Dispõem de conhecimentos bastante amplos, porém, creem saber mais do que realmente sabem. Tendo realizado alguns progressos sob diversos pontos de vista, a linguagem deles aparenta um cunho de seriedade, de natureza a iludir com respeito às suas capacidades e luzes. Mas, em geral, isso não passa de reflexo dos preconceitos e ideias sistemáticas que nutriam na vida terrena. é uma mistura de algumas verdades com os erros mais absurdos, nos quais penetram a presunção, o orgulho, o ciúme e a obstinação, de que ainda não puderam despir-se.

[3] – O Evangelho segundo o Espiritismo – Introdução – II – Autoridade da Doutrina Espírita – (Allan Kardec).

[4] – Áudio de Chico Xavier em solenidade pública em S.Paulo. (https://soundcloud.com/radioemmanuel/chico-xavier-revela-pedido-do).

BIBLIOGRAFIA:

Como Jesus se tornou Deus – Bart Ehrman

A Caminho da Luz – História da civilização a luz do Espiritismo – Emmanuel, psicografado por Chico Xavier.

O Livro dos Espíritos – Allan Kardec

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec

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