POR QUE O ESPIRITISMO É UMA CIÊNCIA?

NELSON M M CARDOSO

Precisamos estar atentos à definição do Espiritismo como ciência no sentido vulgar da palavra. A ciência se baseia em propriedades da matéria, embora a física quântica tenha avançado bastante sobre o campo da interação entre matéria e energia. Porém quando Kardec apresentou o Espiritismo como ciência de observação e “ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo material” (KARDEC, [1859], 2009, p.10), explicou que os métodos dessas observações não poderiam ser idênticos à ciência vulgar onde os fenômenos pesquisados podem ser manipulados à vontade. Já o Espiritismo “têm por agentes inteligências independentes, que têm seu livre-arbítrio e não estão submetidas aos nossos caprichos”. (KARDEC, [1859], 2009, p. 32).

Interferômetro

Mais à frente ele lembra que a ciência, desta forma, “enganou-se quando quis experimentar os Espíritos como uma pilha voltaica; ela fracassou, e assim deveria sê-lo porque usou uma analogia que não existe” (KARDEC, [1859], 2009, p.33). Mas então como acreditar nos fenômenos existentes fora do ambiente da matéria e usando critérios científicos?

Sobre este assunto Kardec nos mostra a sua própria experiência quando responde: “Essa crença se apoia sobre o raciocínio e sobre os fatos. Eu mesmo não a adotei senão depois de um maduro exame. Tendo adquirido, nos estudos das ciências exatas, o hábito de coisas positivas, eu sondei, perscrutei essa nova ciência em seus detalhes mais ocultos. Eu quis conhecer tudo, porque não aceito uma ideia senão quando lhe conheço o porquê e o como”. (KARDEC, [1859], 2009, p.34).

Este critério de pesquisas permitiu que Kardec pudesse fazer uso da palavra ciência, embora com métodos investigativos apropriados para os fenômenos invisíveis como o método que utilizou para as análises comparativas no Controle Universal do Ensinamento dos Espíritos, pois sendo os Espíritos senão os homens após a morte, estão sujeitos a opiniões pessoais e, portanto, “os Espíritos, em consequência da diferença que existe em suas capacidades, estão longe de, individualmente, estarem na posse de  toda verdade; que não é dado a todos penetrar certos mistérios; que seu saber é proporcional à sua depuração; que os Espíritos vulgares não sabem mais que os homens, e menos que certos homens; que há entre eles, como entre estes últimos, presunçosos e pseudossábios que creem saber o que não sabem e sistemáticos que tomam suas ideias pela verdade”. (KARDEC, [1864], 2010, p. 9).

Sir William Crookes e o Espírito Katie King

Seguindo os cuidadosos métodos de estudo propostos pelos Espíritos e seguidos por Kardec, não há espaço dentro do Espiritismo para o surgimento de ideias estranhas e sofisticadas sem o aval de uma análise criteriosa e que use a razão e o bom senso.

Entretanto foi justamente no sentido inverso das pesquisas científicas, da proposta filosófica e moral que o Espiritismo caminhou em nosso país, dominado por um grupo de Espíritos de sistema, pseudossábios e, religiosos cristãos que encontraram a sintonia perfeita com os homens e médiuns sem o preparo imprescindível que o Espiritismo exige através do estudo atento e assim, encarcerando-o como mais uma seita cristã.

O Espiritismo brasileiro perdeu o trem da evolução?

Provável aparência de Jesus em estudos da ciberarqueologia

Os estudos modernos no campo da história, da arqueologia e as atuais análises dos livros do Novo Testamento, feitas por pesquisadores independentes e, portanto, sem a visão dogmática das religiões, estão trazendo revelações importantes sobre o homem Jesus de Nazaré separando-o do mito Cristo, mas que acabaram por encontrar no Brasil um Espiritismo estagnado e preso às crenças, impedindo o adepto espírita de ter acesso e independência para avançar nesses estudos e se atualizar.

Alguém pode perguntar: o que trazem essas novas descobertas de importante para o Espiritismo? É muito simples a resposta: obtendo a desvinculação com a religião há uma compreensão apurada da mensagem e da proposta esquecida do homem Jesus, aproximando-se com isso da filosofia espírita que apresenta uma proposta moral elevada ao ser humano; depois permite a compreensão de alguns erros cometidos pelos Espíritos e por Kardec, que por sinal nunca afirmou serem eles detentores de verdades absolutas e por onde a visão livre de compromisso com dogmas permite rever colocações equivocadas, atualizando questões sobre o Cristo da fé que existia à época e mantendo inalterada a essência do Espiritismo.

 O Espiritismo como mais uma seita cristã no Brasil não tardará a estar totalmente ultrapassado e obsoleto como, aliás, estarão todas as religiões.

Quero deixar uma reflexão que encontrei no livro “Vida de Jesus” de Ernest Renan, pesquisador contemporâneo de Allan Kardec e cuja obra mereceu algumas análises na Revista Espírita. Este livro, de 1863, com pesquisas muito avançadas para a época sobre o homem Jesus e que foi publicado em várias línguas, só recentemente foi publicado no Brasil. Por que será? Vamos ao trecho que escolhi e mostrando como a ciência já vinha desconstruindo os dogmas e mistérios criados pelas religiões, inclusive servindo para a atual seita cristã-espírita brasileira:

Os milagres são dessas coisas que nunca acontecem; somente as pessoas crédulas acreditam vê-los; não se pode citar um único que tenha passado diante de testemunhas capazes de constatá-los; nenhuma intervenção particular da divindade na confecção de um livro ou em qualquer acontecimento que seja foi provada. Por isso se se admite o sobrenatural, está-se fora da ciência, uma explicação que dispensa o astrônomo, o físico, o químico, o geólogo, o fisiologista, e o historiador deve também ser dispensado“. (RENAN, [1863], 2003, p.19), (Grifo nosso).

BIBLIOGRAFIA: O que é o Espiritismo, Allan Kardec – Editora IDE.   

                          O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec – Editora IDE.

Vida de Jesus – Ernest Renan.

Interferômetro (foto acima e ao lado), instrumento usado na fracassada experiência de Michelson-Morley. A ideia, portanto, era que a velocidade da luz no interferômetro seria reduzida pelo tal vento etéreo. Eles testaram diversas vezes, e não conseguiram ver mudança na velocidade da luz. Apesar do fracasso, o experimento ajudou a ciência a avançar. Einstein chegou à teoria da relatividade no começo do século XX em boa parte por conta dessa experiência de Michelson-Morley.

Wilkiam Crookes (1832/1919) foi químico e físico notável tendo feito diversas descobertas nessas áreas e recebendo vários prêmios, entre eles o título de Sir pela rainha da Inglaterra. Foi pesquisador espiritualista, tendo escrito o livro “Espiritismo Visto pela Luz da Ciência Moderna”.

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