O ESPIRITISMO E O CRISTO

NELSON MURILO
MADEIRA CARDOSO

 “Se a história se repete, e o inesperado sempre acontece, quão incapaz precisa o homem ser de aprender com a experiência?”. Essa frase de Bernard Shaw se aplica a inúmeros confrontos ocorridos na humanidade continuadamente há milênios, onde a ganância pelo desejo de exercer o poder sobre pessoas superou o uso do bom senso e razão; as pandemias e as catástrofes da natureza podem também ser potencializadas em seus efeitos pelos mesmos motivos. Diante deste quadro, não vejo por que as religiões, como organizações humanas que são, estariam imunes a tais influências.

             O mais duradouro exemplo da influência humana na religião está no cristianismo, tendo consequências que atingiram o progresso da humanidade nos últimos dois milênios. Para se entender um pouco essa construção teológica feita pela religião cristã, voltaremos aos primeiros três séculos da Era Comum e analisaremos o fato primário que gerou a matéria-prima dessa construção dogmática.

             Somente hoje, com a ajuda das descobertas cientificas mais modernas, podemos fazer uma análise mais próxima do que teria ocorrido. Sabemos que o fato gerador da criação do cristianismo foi a vida de Jesus de Nazaré, um homem que viveu em um período de muito sofrimento para o povo judeu; com a sua carismática mensagem de justiça que propunha um avanço moral, mas pacífico, ele acabou por provocar a ira dos dirigentes judeus e romanos que usufruíam das benesses que vinham da corrupção generalizada. Como consequência, foi arbitrariamente preso, julgado e assassinado.

             A partir da morte de Jesus, parte de seus seguidores se dissiparam por entender que o esperado Messias que viam nele, e que supostamente libertaria o povo judeu do domínio romano, deixou de existir, mostrando com isso que nada entenderam da sua mensagem. Porém, talvez pela forte marca deixada pelo nazareno ao longo de seus anos de atividades públicas, a sua história foi sendo passada oralmente por algumas gerações, tendo iniciado já nesse período as alterações dos fatos de sua história; após aproximadamente vinte anos, deu-se início à estruturação de uma religião pelos seus seguidores, cujo o nome seria dado pela criação de um mito, surgido em algum momento desses anos e trazido da mitologia grega, sendo chamado de “O Cristo” (o ungido).

O Concílio de Nicea

             Inicialmente esse mito foi registrado nas cartas que o convertido fariseu Paulo de Tarso escreveu a diversas comunidades por onde tinha passado, para converter as pessoas para o cristianismo. Poucas décadas depois foram surgindo dezenas de Evangelhos, a maioria considerado herege, e perdidos com o tempo. Como o passar do tempo, os que foram recuperados contavam a história da vida ou os ditos de Jesus-Cristo e quatro desses evangelhos foram canonizados pelas igrejas cristãs. Surgiram as cristologias, quase todas elas eram de padres, bispos e teólogos, poucas foram de simples cristãos, e se referiam às origens divinas do Cristo, que dividiam as Igrejas, sendo posteriormente unificadas, em 325 EC, no Concílio de Nicea.

             O mito Jesus-Cristo agora como Deus desde e para sempre, tomou o lugar do homem Jesus na Bíblia Cristã, nos livros denominados “O Novo Testamento”, dando força a crenças impulsionadas definitivamente com a força adquirida pelas Igrejas Cristãs quando foram unidas em um único credo pelo Imperador Constantino; tornando-se o cristianismo a religião oficial do Império Romano. A mensagem original do homem Jesus de Nazaré foi praticamente esquecida. Hoje, graças a cientistas e pesquisadores descomprometidos com as teologias cristãs ou mesmo por alguns teólogos mais independentes e a ajuda das descobertas arqueológicas recentes, estamos conseguindo resgatar e ao mesmo tempo admirando a vida do Tzadik (1) Jesus de Nazaré que adoramos durante séculos como o único Deus que poderia nos salvar, levando-nos ao céu pela eternidade.

Tzadic

             Pouco mais de 1800 anos após o surgimento do cristianismo, veio o Espiritismo como uma filosofia espiritualista cujos princípios estão na: “imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o futuro da Humanidade segundo o ensinamento dados pelos Espíritos superiores com a ajuda de diversos médiuns” (KARDEC,[1857] 2009, p. 1). Em outro livro, Kardec deixa ainda mais claro os objetivos da doutrina que compilou e ordenou, esclarecendo: “O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as consequências morais que decorrem dessas relações”. (KARDEC, [1859] 2009, p. 10).

Não existe uma filosofia que seja ao mesmo tempo uma religião, ou é uma coisa ou é outra! A palavra filosofia vem de filos e entre outras áreas de atuação, possui a seguinte definição, segundo o dicionário Michaelis: “No âmbito metafísico, reflexões e estudos teóricos que buscam a verdade sobre a natureza de Deus e do Universo por meio de procedimentos que se utilizam da lógica e da dedução, ao contrário da religião, que baseia na fé essa busca”. O que teria levado então o Espiritismo a ser considerado, por alguns, uma religião?

             Temos alguns estudos de sociólogos mostrando uma tendência no Brasil de “misturar” as diversas religiões, acontecendo esse ecumenismo dentro da religião cristã nas suas diferentes seitas como a umbanda e o catolicismo; ou entre as inúmeras congregações evangélicas onde ocorre um troca-troca de congregações de seus crentes. Somente as religiões não cristãs como o judaísmo, o islamismo, o budismo, o paganismo e o hinduísmo, etc. não giram no carrossel ecumênico. Nada do que falamos, entretanto fundamenta o Espiritismo ser considerado religião, embora possa embasar por que o Espiritismo foi incluído neste ecumenismo religioso. Vamos analisar como evoluiu (ou melhor, como involuiu) o Espiritismo no Brasil.

             Os centros espíritas funcionam de maneira quase cem por cento uniformes, tendo as suas atividades reguladas pela FEB – Federação Espírita Brasileira desde que existe como órgão oficial do Espiritismo do Brasil, em 1884 sendo responsável pelas publicações doutrinárias que dirigem os estudos feitos nesses centros. Ainda nos seus primórdios, a FEB adotou como referência para estudos básicos dos adeptos espíritas a obra “Os Quatro Evangelhos” de J.B. Roustaing, um ex-espírita francês que tomou o rumo da mistificação, em total antagonismo às instruções de Kardec. Em contradição, os trabalhos de estudos filosóficos como os de Leon Denis e as pesquisas científicas de observação dentro da área do Espiritismo, como as feitas por Bozzano, Delanne, Lombroso, Richet e outros, mesmo tendo obras editadas pela FEB, nunca entraram na indicação dos estudos das obras básicas do Espiritismo.

             Foi a partir da década de 1930, com o aparecimento do médium Chico Xavier, com o seu extenso trabalho de psicografias, que o Espiritismo foi definitivamente afrontado com publicações de livros psicografados pelo citado médium e assinados por Espíritos de pretensa sabedoria, os quais, segundo a classificação dos Espíritos presente na codificação, encaixam-se no perfil de Espíritos imperfeitos de sistema ou pseudo-sábios, em publicações individuais com grande número de títulos, tendo sempre à frente o ex-padre jesuíta Emmanuel, como o mentor do conhecido médium mineiro. Livros esses que foram provenientes do folclore do mundo espiritual, como escreveu o espírito Humberto de Campos na introdução de seu livro “Boa Nova” ou então produzidos exclusivamente pela imaginação de seus autores, como o caso de Emmanuel, onde em uma de suas primeiras publicações, dando vazão ao seu grande personalismo e arrogância, deu o seguinte e pomposo título a uma de suas primeiras obras: “A Caminho da Luz – A História da civilização à luz do Espiritismo”.

             Seguiram-se centenas de obras psicografadas sendo a maioria consideradas como verdades absolutas, inquestionáveis e adotadas pelas casas espíritas como material de estudo do Espiritismo. Quanto às obras de Kardec, estas foram resumidas em apostilas mescladas aos pensamentos de Espíritos pseudossábios, em cursos sistematizados. Com o surgimento de outro médium na galeria dos famosos e, portanto, inquestionáveis, Divaldo Franco, chegaram outros espíritos de sistema trazendo as suas verdades incontestáveis em obras fantasiosas como romances espíritas ou séries psicológicas sem respaldo científico.

             Em uma publicação recente surgiu mais uma série de livros, agora no estilo apocalíptico, trata-se da obra “Transição Planetária”, tornada de estudo obrigatório em seminários dos centros espíritas. Hoje os grandes oradores espíritas profetizam em congressos luxuosos e caros a proximidade de mudanças no nosso planeta de provas e expiações para o planeta de regeneração, momento que serão transferidos daqui para planetas mais atrasados as infelizes almas, fazendo a edição moderna do dogma da culpa pelo pecado e do inferno cristão. Eis a Igreja cristã-espírita e seu papado!

             Nenhuma dessas obras, desde Emmanuel, passando por André Luiz e chegando a Manoel Philomeno, teve nenhum trabalho de pesquisa sério feito por qualquer espírita para verificar a possibilidade de veracidade desses conteúdos e comparando-os com outras publicações existentes, dentro dos critérios do Controle Universal dos Ensinamentos dos Espíritos criado por Kardec; pelo contrário, essas obras sendo psicografadas ou sendo um produto do inconsciente desses médiuns, imediatamente são publicadas, pois o nome do Espírito e principalmente o nome do famoso médium garantirá a venda de milhares de exemplares!

             Neste meio populista, desprovido do estudo do verdadeiro Espiritismo, como nas obras de Kardec, foi criada a seita Cristã-Espirita no Brasil com os centros espíritas se proliferando aos milhares, para orgulho dos seus dirigentes e daqueles que gostam de chamar o Brasil de “coração do mundo, pátria do evangelho”. Hoje essas casas oferecem palestras, a maioria sem conteúdo de qualidade, passes sem estudos, reuniões mediúnicas e de fluidoterapia com médiuns despreparados, evangelização infantil idêntica a uma catequese religiosa e culto no lar, cujo nome já define um nítido ritualismo. Os rituais não podem pertencer a uma filosofia espiritualista!

Kardec mostrou com o seu trabalho que os livros espiritas não devem destacar os nomes dos médiuns.

             Sempre atento ao sentido universalista da filosofia espírita, Kardec nos lembra, em sua obra “Viagem Espírita em 1862”, quanto às reuniões públicas: “O Espiritismo, chamando a si os homens de todas as crenças, para uni-los sob a bandeira da caridade e da fraternidade, habituando-os a se olharem como irmãos, seja qual for sua maneira de adorara a Deus, não deve chocar as convicções de ninguém pelo emprego de sinais exteriores de um culto qualquer”. (KARDEC, [1862] 2000 p.110).

Leitor, reflita e faça a comparação dessas duas histórias: a história do cristianismo que se afastou dos ensinamentos de Jesus, com a história do Espiritismo, transformado na Igreja cristã-espirita abandonado com isso a filosofia espírita. Não considere a desproporção da quantidade de crentes entre as duas religiões. O cristianismo no início tinha um grupo pequeno. Relembre esta frase: “Se a história se repete, e o inesperado sempre acontece, quão incapaz precisa o homem ser de aprender com a experiência?”.

(1) – Tzadic – Ou Tsadic é uma forma do verbo hebraico [Tzdk], que encerra o significado de fazer o que é correto e justo. Um tsadic é aquele que incorpora a concepção básica do Criador sobre o ser humano. Isso significa que o tsadic é um ser humano como todos nós. (O chabad.org – Retirado do texto de Tzvi Freeman).

Bibliografia:

O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – Editora IDE

O que é o Espiritismo – Allan Kardec – Editora IDE

Viagem Espírita em 1862 – Allan Kardec – Editora O Clarim

Como Jesus se Tornou Deus – Bart Ehrman – Editora Le Ya

TZADIC, pintura de Nina Björg

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