A DOR E O ESPIRITISMO

NELSON M M CARDOSO

Uma grande dificuldade que trazemos em nosso íntimo é o medo das penas que nos aguardam após a morte. Como uma guilhotina sobre o nosso pescoço aguardando o momento de nos decepar, vivemos temendo a morte ao invés de vê-la com a naturalidade com que ocorre. Diante desse destino que nos aguarda, procuramos uma saída para não sofrermos. Trocamos a angústia pelo sonho que é oferecida à nossa imaginação.

Assim, surge o acolhimento das religiões; nelas encontramos a solução que desejamos e a elas nos apegamos. Se é lógico ou não, pouco importa, pois esta solução é fruto de crença. E acreditar é questão de fé. Fé é um artigo que dispensa raciocínio? Pela fé vai se juntando a outras pessoas que procuram abandonar a angústia da morte. E como isso acontece? Qual o anestésico que precisamos tomar para acabar com esse temor? Este anestésico chama-se: “A promessa de Deus”, uma história que tem princípio meio e final feliz. Começa revelando que temos alguém para seguir. Já não estamos sós! Esse alguém é perfeito e todo-poderoso e está nos aguardando aceitá-lo para nos livrar do mal na vida e quando a morte vier. Para que isso ocorra só existe uma condição: negar todos que não sigam o seu caminho ou a sua verdade. Portanto aderir a esse caminho significa que estará sendo recebido na vida eterna e, para tanto, abandonando todos os questionamentos contrários.


Desse modo, o ser individual, único, pensante, deixa de sê-lo passando a pertencer a uma massa uniforme se beneficiando de uma sensação de segurança. Este estranho prazer vem da certeza, quase absoluta, de que o futuro está garantido e que viveremos para sempre no gozo. Não tem preço que pague uma promessa dessas, não é? Vejamos: não mais o trabalho suado, nem as doenças, tampouco a preocupação com o futuro. nem com nada. Na convicção dessas pessoas, a promessa nem é promessa, é certeza!

Foi dito que está escrito naquele livro intocável: é a promessa de Deus! E Deus é fiel, poderoso, cumpre tudo que fala e está escrito naquele livro. Na Terra estão os seus representantes, homens eleitos para manter essa massa bem misturadinha, e afastá-la das tentações daquela outra figura, aquele danado que por ser mal, quer nos retirar deste confortável ambiente.

Chamam-no de “razão“, de “busca pelo auto-conhecimento“, de “questionador“, aquele que nas horas de distração mexe com as tais convicções que foram ensinadas, perguntando se as pessoas consegue entender a justiça da vida. Os representantes do Senhor chamam essas dúvidas que insistem em atordoar a mente do pobre crente de “tentação do Diabo”, ou de “obsessor”, depende da seita. Mas os tais representantes estarão sempre atentos para expulsá-los.

Até chegar o dia em que as questões com a falta de compreensão do sentido existencial já não conseguem ser mais satisfeitas com preces, adorações, água benta, expulsões dos diabos ou sessões de desobsessão, porque a dúvida torna-se constante, as explicações dos mistérios, que deveriam continuar sendo mistérios pela “vontade” de Deus, perderam o sentido. As pessoas querem saber, querem descobrir o como e o porquê da dor, do sofrimento, da angústia que na verdade nunca as abandonou; o anestésico não anestesia mais… e agora? Para onde foi o chão que estava bem aos seus pés?

A primeira ideia é procurar outro grupo, outra seita, outra religião. Muitas vezes o chão volta, mas por pouco tempo. São lugares diferentes nas formas, mas iguais nas propostas.

Depois vem o descrédito. Para que serve esse tal Deus? O que ele faz pela humanidade? O que ele fez pelo meu filho, por mim? – “Nada mudou na minha vida, todo lugar que eu ia tinha a tal promessa, mas a dor não passava! Diabos…”

 O Espiritismo não é a solução para resolver os nossos problemas, pois esses são de nossa responsabilidade. Mas a consciência da nossa responsabilidade na geração dos nossos problemas já é prenúncio de uma solução que poderemos encontrar através do olhar em nós mesmos e na busca do tratamento.

Sobre isso, nossos problemas, nos disse Allan Kardec que: “De duas espécies são as vicissitudes da vida, ou, se o preferirem, promanam de duas fontes bem diferentes, que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida. Remontando-se à origem dos males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são consequência natural do caráter e do proceder dos que os suportam. Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição! Quantos se arruínam por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder, ou por não terem sabido limitar seus desejos! Quantas uniões desgraçadas, porque resultaram de um cálculo de interesse ou de vaidade e nas quais o coração não tomou parte alguma!

Quantas dissensões e funestas disputas se teriam evitado com um pouco de moderação e menos suscetibilidade! Quantas doenças e enfermidades decorrem da intemperança e dos excessos de todo gênero! Quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não lhes combateram desde o princípio as más tendências! Por fraqueza, ou indiferença, deixaram que neles se desenvolvessem os gérmens do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade, que produzem a secura do coração; depois, mais tarde, quando colhem o que semearam, admiram-se e se afligem da falta de deferência com que são tratados e da ingratidão deles.

Interroguem friamente suas consciências todos os que são feridos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida; remontem passo a passo à origem dos males que os torturam e verifiquem se, as mais das vezes, não poderão dizer: Se eu houvesse feito, ou deixado de fazer tal coisa, não estaria em semelhante condição.

A quem, então, há de o homem responsabilizar por todas essas aflições, senão a si mesmo? O homem, pois, em grande número de casos, é o causador de seus próprios infortúnios; mas, em vez de reconhecê-lo, acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade acusar a sorte, a Providência, a má fortuna, a má estrela, ao passo que a má estrela é apenas a sua incúria. Os males dessa natureza fornecem, indubitavelmente, um notável contingente ao cômputo das vicissitudes da vida. O homem as evitará quando trabalhar por se melhorar moralmente, tanto quanto intelectualmente”. (KARDEC, 1864, p.54).

Quanto à morte que assombra tanta gente, pois se teme o que virá ao seu encontro e dos seus amados podendo ser a causa de uma despedida para sempre, também o Espiritismo nos fornece um sentido:

941 – O medo da morte é para muitas pessoas uma causa de perplexidade; de onde vem esse temor, visto que elas têm diante de si o futuro?

– É errado que tenham esse temor. Todavia, que queres tu! procuram persuadi-las em sua juventude de que há um inferno e um paraíso, mas que é mais certo que elas irão para o inferno porque lhe dizem que, o que está na Natureza, é um pecado mortal para a alma. Então, quando se tornam grandes, se tem um pouco de julgamento, não podem admitir isso, e se tornam ateias ou materialistas. É assim que conduzem a crer que, fora da vida presente, não há mais nada. Quanto às que persistiram em suas crenças da infância, elas temem esse fogo eterno que as devem queimar, sem as destruir.

A morte não inspira ao justo nenhum medo, porque com a fé ele tem a certeza do futuro; a esperança o faz esperar uma vida melhor, e a caridade, da qual praticou a lei, dá-lhe a certeza de que não reencontrará, no mundo em que vai entrar, nenhum ser do qual deva temer o olhar“. (KARDEC, 1857, p.295).

Muito mais tem esta filosofia de consequências morais a nos oferecer. Conhecendo-a e trazendo para a nossa vida os seus ensinamentos, temos a oportunidade de nos conhecer melhor, se afastando-nos de crenças ilusórias em penas e culpas eternas, e de nos sentirmos responsáveis por erros alheios. Seguir alguém não é o seu propósito. Seguir ideias que nos ajudem a crescer como seres humanos: eis o caminho que o Espiritismo nos oferece!

BIBLIOGRAFIA – O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec

O Livro dos Espíritos – Allan Kardec

O BULE DE RUSSEL

Você toma o seu chá tranquilamente, quando um amigo aparece e diz: “Sabia que no espaço há um bule que gira em torno do Sol? O filósofo britânico Bertrand Russell, que era ateu, queria mostrar que o fato de muitas pessoas acreditarem em Deus não significava, segundo ele, que tal força realmente existisse”. (BBC NEWS, 1 de julho de 2019).

    


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