Espiritismo: ciência e religião?

Victor Ramos

Os princípios espíritas fundamentam-se nas leis da Natureza, sendo assim o que lhe dá sustento não advém da opinião deste ou daquele(a) pensador(a); sobre isso, encontramos na Revista Espírita de 1862 o seguinte trecho sobre um dos pilares da doutrina – logo algo natural: “A reencarnação, pois, não é uma opinião, um sistema, como uma opinião política ou social, que podemos admitir ou impugnar. É um fato ou não é. Se é um fato, por mais que contrarie o gosto de todo o mundo, nada do que digam o impedirá de ser um fato” [1]. E esta fala, pasmem, veio de um católico. Vejamos, a partir de um trecho do mesmo texto, a situacionalidade em que este discurso foi produzido:

“Tendo pregado em Marmande durante o mês de maio último, o Frei F…, dominicano, num de seus últimos sermões decidiu atirar algumas pedras contra o Espiritismo. O Sr. Dombre desejaria uma discussão mais ampla do assunto, e que o Frei F…, em vez de limitar-se aos ataques banais, abordasse resolutamente certas questões de detalhes. Temendo, porém, que seu nome não tivesse bastante prestígio para convencê-lo, mandou-lhe a carta abaixo, sob o pseudônimo de Um católico.” [1] 

             Vamos às pedras:

“1º. ─ O Espiritismo é uma religião nova, do século XIX;

2º. ─ Incontestavelmente há comunicações com os Espíritos;

3º. ─ Nas comunicações com os Espíritos, bem constatadas, bem reconhecidas, vós vos encarregais de provar, depois de longos e sérios estudos que fizestes do Espiritismo, que os Espíritos que se comunicam não são outra coisa além do demônio;

4º. ─ Finalmente, seria perigoso, do ponto de vista da salvação da alma, tratar do Espiritismo antes que a Igreja se pronuncie a respeito.” [1]

             Observamos nessas “pedras”, o reconhecimento de um dos princípios espíritas pelo frei: há Espíritos, embora, a partir de sua perspectiva católico dogmática, ele os classifique enquanto demônios, dando-lhes, assim, um caráter de criaturas das quais se deva manter distância, antidivinas; imagina a cabeça desse frei em uma reunião mediúnica? Além disso, fica claro o caráter salvacionista da mentalidade católica expressa pelo religioso em questão, presente no ponto 4 ao mencionar a “salvação da alma” e, no ponto 1, sua falta de compreensão quanto ao caráter do Espiritismo (esse é o ponto que mais exploraremos). O mais interessante dessas acusações é que foram feitas por uma autoridade católica e respondidas por um católico – que tinha conhecimentos consolidados sobre Espiritismo (e nem por isso deixou de ser católico).

             Sejamos diretos quanto à resposta à primeira “pedra”: o “católico” responde da seguinte maneira (a qual reproduzimos):

“Não, o Espiritismo não é uma religião e não pretende sê-lo. O Espiritismo se baseia na existência de um mundo invisível, formado por seres incorpóreos, que povoam o espaço e que são apenas as almas dos que viveram na Terra e em outros globos. Esses seres, que nos rodeiam incessantemente, exercem sobre os homens, malgrado seu, uma grande influência. Eles representam um papel muito ativo no mundo moral e, até certo ponto, no mundo físico. O Espiritismo está na Natureza e pode dizer-se que, numa certa ordem de coisas, é uma força, como, sob outro ponto de vista, o é a eletricidade, o é a gravitação. […] O Espiritismo repousa sobre princípios gerais, independentes de qualquer questão dogmática. Tem consequências morais, é certo, no sentido do Cristianismo, mas não tem culto, nem templos, nem ministros. Cada um pode fazer de suas opiniões uma religião, mas daí para a constituição de uma nova igreja há muita distância. Assim, o Espiritismo não é uma religião nova. Eis, senhor pregador, o que dizem os espíritas quanto à primeira questão.” [1]

             Quem dera este nível de lucidez subisse às tribunas ditas espíritas para falar – já que não conseguimos ter, com tanto sucesso, uma cultura no meio espírita de pequenos grupos sérios de estudo, tal qual nos recomendava Kardec. Observamos, com isso, que o Espiritismo não é de propriedade de nenhuma religião, sequer é mais uma religião, mas, como colocado pelo “católico”, “numa certa ordem das coisas, uma força”, pois está presente na Natureza. Nesse sentido, observamos que a Igreja já excomungou aqueles que diziam inverdades contra o movimento dos astros, que a Terra não era o centro do universo. Hoje ela aceita isso, por quê? Porque assim o é, a Igreja aceitando ou não. Assim sendo, aceitar o princípio da reencarnação, ou os outros princípios espíritas – diga-se de passagem: princípios naturais, criados por Deus, não por nenhum homem – não torna esta ou aquela pessoa menos ou mais católico(a), protestante, umbandista, budista etc, já que o Espiritismo não pertence a nenhuma religião, tampouco é mais uma, ainda que dialogue com todas; pois está presente na Natureza.   

             Não sei se alguém já se perguntou sobre o que é religião.  A respeito disso, vale analisar o que disse Kardec em seu discurso à Sociedade de Paris, em 1 de novembro de 1868, o qual está presente na Revista Espírita de dezembro do mesmo ano:

“Uma religião, em sua acepção ampla e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças. Consecutivamente, esse nome foi dado a esses mesmos princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé. É neste sentido que se diz: a religião política;entretanto, mesmo nesta acepção, a palavra religião não é sinônima de opinião;implica uma ideia particular: a de fé conscienciosa; eis por que se diz também: a fé política.” [2]

             Com isso, percebemos que ao sentido da palavra religião enquanto laço difere bastante do sentido que tem hoje (até mesmo no século XIX), pois, como traz o codificador posteriormente neste mesmo texto, estar presente numa reunião religiosa não implica em estar em comunhão de ideias e sentimentos com os outros que ali estão. Desse modo, não havendo comunhão de pensamento e de sentimento entre os participantes das reuniões religiosas, não há laço, logo não há religião, pois é comum pessoas nesses eventos com o pensamento em outro algo que não a causa ali representada; e isso abre bastante precedente para que se pense que ser religioso não é ter laço com o próximo, mas cumprir certas liturgias e ritos, contribuir com algum valor por mês à instituição ou, até mesmo, apenas frequentar o lugar; e tudo isso configura que, para religiões, de modo geral, a forma tem mais importância que a essência. No Espiritismo a essência é mais importante que a forma.

             Enquanto laço, nos afirma Kardec que: “[…] no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as próprias leis da Natureza” [2]. Bem diferente do que se divulga por aí, não é? É fácil ouvirmos que o Espiritismo é uma religião porque ela nos religa a Deus e que aprendemos a fazer o bem; e parando para pensar temos os passes, os “assim seja”, a água fluidificada e outros itens que já fazem parte da paisagem de vários centros espíritas. Tem-se a forma, cabe a pergunta: e a essência? E a fraternidade e sintonia de pensamento?

            Sendo assim, por que não se declara que o Espiritismo é uma religião? Nos responde Kardec: “Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da ideia de culto; porque ela desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se quiserem, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; ele não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião pública se levantou” [2]: alguma semelhança com os dias de hoje? Mediante essas ideias, é mais fácil interpretar devidamente tópicos do capítulo 1 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, os quais são intitulados “Espiritismo” e “Aliança da Ciência e da Religião”.

Religião do latim “RELEGERE” e não “religare”: significa a religação entre os homens e não com Deus, que está conectado em todo o Universo “Ad aeternum“.

             Já presenciei em muitas palestras (e ainda vemos por aí, basta colocar “o que é o espiritismo?” no Google e teremos: Ciência, Filosofia e Religião), oradores dizendo que o Espiritismo é a junção entre ciência e religião (e ainda citavam as ideias já conhecidas de Emmanuel para dar força a esse argumento – afinal essa tríplice “ciência, filosofia e religião” ganhou corpo com ele), pois onde uma falha a outra complementa, diziam, e ainda se fundamentavam nestes trechos de O Evangelho Segundo o Espiritimo: “O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo” [3] e “A Ciência e a Religião não puderam, até hoje, entender-se, porque, encarando cada uma as coisas do seu ponto de vista exclusivo, reciprocamente se repeliam. Faltava com que encher o vazio que as separava, um traço de união que as aproximasse. Esse traço de união está no conhecimento das leis que regem o Universo espiritual e suas relações com o mundo corpóreo, leis tão imutáveis quanto as que regem o movimento dos astros e a existência dos seres” [3]. Voilà! Temos uma salada de informações que aparentemente se completam. Aparentemente.

             Segundo o que se encontra na Revisa Espírita [1,2], sabemos os motivos pelos quais o Espiritismo não pode ser religião, e nesses trechos de O Evangelho Segundo o Espiritismo vemos que alguns leitores desatentos podem se apoiar neles acreditando que por o Espiritismo tratar da interação entre as leis do Universo espiritual e o mundo visível, teríamos mais uma religião, uma diferente religião. Isso somado aos dizeres de Emmanuel e à cultura criada neste ou naquele centro espírita, tem-se uma divergência preocupante das ideias originalmente espíritas daquelas criadas pelos espíritas.

             Vale lembrar que o Espiritismo não pertence a nenhuma religião, mas está presente em todas elas. Apresentar tal doutrina a um neófito enquanto religião é descaracterizá-la em sua essência, já mostrou Kardec na obra pouco estudada, sequer lida, “O que é o Espiritismo”. No preâmbulo desta mesma obra, o codificador deixa claro que “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações” [4] e que por isso pode ser resumida como “[…] uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal” [4], pois para tratar da relação existente entre o mundo visível e o invisível não precisa ter o status de religião, e a religião, aceitando os princípios espíritas não se descaracterizariam, afinal, não há nada de estranho no Espiritismo, não há nada de estranho na Natureza.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

[1] Revista Espírita, Setembro, 1862 (https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/896/revista-espirita-jornal-de-estudos-psicologicos-1862/5262/setembro/carta-do-sr-dombre-a-um-pregador)

[2] Revista Espírita, Dezembro, 1868 – (https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/902/revista-espirita-jornal-de-estudos-psicologicos-1868/6330/dezembro/sessao-anual-comemorativa-dos-mortos)

[3] O Evangelho Segundo o Espiritismo (https://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/887/o-evangelho-segundo-o-espiritismo/2055/capitulo-i-nao-vim-destruir-a-lei)

[4] O que é o Espiritismo ( https://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/885/o-que-e-o-espiritismo/1174/capitulo-ii-nocoes-elementares-de-espiritismo)

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