A FALTA QUE OS PESQUISADORES SÉRIOS FAZEM AO ESPIRITISMO ATUAL

Nelson Murilo Madeira Cardoso

Este é o terceiro artigo da série “O que é e o que não é Espiritismo”. Para tal, faremos um estudo sobre as conclusões feitas por Ernesto Bozzano (1862/1943) em seu livro “A Crise da Morte”.

Qual a relevância deste livro para o Espiritismo? Vou explicar começando pela apresentação de seu autor: Ernesto Bozzano foi um professor de filosofia da ciência na Universidade de Turim e pesquisador espírita italiano, tendo dirigido suas pesquisas aos fenômenos do metapsiquismo – um termo muito usado na época para as comunicações entre os homens e os espíritos. Manteve contatos com os maiores representantes da metapsíquica de seu tempo, dentre os quais cientistas de valor como os físicos ingleses Crookes e Lodge, e o fisiologista francês Richet. Escreveu mais de cinquenta monografias sobre o assunto e no V Congresso Espírita Internacional, que ocorreu no ano de 1934 em Barcelona, foi o presidente de honra. O livro A Crise da Morte, de 1926, teve sua importância para o Espiritismo bem definida por Guillon Ribeiro, no trecho do seu prefácio à edição brasileira, afirmando que: “[…]as mensagens do além, sobre que Bozzano assentou o seu estudo, elucidam uma das questões mais relevantes que aquela revelação suscita e que, todavia, é das menos fartamente exploradas nas obras basilares: a do modo por que se dá a entrada, no meio espiritual, dos Espíritos que desencarnam na Terra e de como lhes transcorre ali a existência durante os primeiros tempos após a encarnação […]”. O livro em questão tem dezessete casos que vieram de várias fontes e em tempos distintos sem ligação alguma entre os médiuns que psicografaram essas histórias.  Esclarecemos, finalmente, que pode parecer estranho o estudo basicamente científico doEspiritismo, porém para alcançarmos os ensinamentos morais precisamos dispor de base teórica sólida para não avançarmos equivocadamente em opiniões pessoais por onde o viés da crença mística predomina. Vamos ao estudo:

                             A CRISE DA MORTE – CONCLUSÕES (BOZZANO, 1926)

Bozzano chama de revelações transcendentais às comunicações dos Espíritos, e considerava, já à sua época, que o “vasto e muito importante ramo da metapsíquica em que se estuda o tema das ‘revelações transcendentais’ tudo ainda está por fazer-se, do ponto de vista da investigação científica do imenso material que já foi recolhido. As prevenções de todos – assim como dos opugnadores, como dos espíritas – oriundas de superficial conhecimento do assunto, haviam impedido até aqui um trabalho útil, nesse sentido” (p.163).

Com uma pequena parte desse material fez o pesquisador as comparações adequadas, partindo, como dissemos, de fontes totalmente independentes umas das outras. “Para atingir o fim a que me propunha, era-me, primeiramente, indispensável demonstrar, de modo adequado, que as ‘revelações transcendentais’ longe de se contradizerem mutuamente, concordam entre si e se confirmam umas as outras. Era-me preciso demonstrar, ao mesmo tempo, que essas concordâncias não podem ser atribuídas nem a ‘coincidências fortuitas’, nem a reminiscências subconscientes de conhecimentos adquiridos pelos médiuns (criptonesia)” (p.170).

Faço os destaques necessários para mostrar o procedimento escrupuloso do pesquisador que não se apresenta como criador de teses de cunho pessoais e sem o devido embasamento técnico. Mais adiante, ele apresenta a diferença entre histórias imaginadas e pesquisas sérias, quando diz: “Ponderarei, finalmente, que, se as ‘revelações transcendentais’ fossem, em massa, ‘romances subliminais’, não só deveriam contradizer-se mutuamente, não só não deveriam produzir-se ao mesmo tempo que se produzem provas de identificação espírita, como, sobretudo, deveriam refletir, em grande parte, as crenças da ortodoxia  cristã, no tocante à modalidade da existência espiritual – crenças que os médiuns assimilaram com o leite materno. Pelo contrário, nada disso ocorre. Desde os primeiros tempos do movimento espírita, as personalidades mediúnicas deram, sobre a existência espiritual, as mesmas informações que presentemente dão, informações que contrastam, em absoluto, com as crenças que os médiuns e os assistentes professam” (p.172) (Grifo nosso). Anteriormente disse o Espírito Erasto em O livro dos Médiuns, “Já o dissemos: os médiuns, enquanto médiuns, não tem, senão, uma influência secundária nas comunicações dos Espíritos”. (cap. 20, q.230).

Estamos mostrando a confiança do autor no trabalho sério de médiuns, mostrando a sua importância na revelação da doutrina espírita. Entretanto ele sabia da existência dos falsos médiuns, os quais chamou de “pseudomédiuns” afirmando: “Todos sabemos, por experiência, quão indispensável é esse trabalho preliminar de seleção, no que respeita a ‘revelações transcendentais’, pois que, no curso das sessões particulares, sucede com frequência aparecerem pseudomediunidades, que presenteiam os assistentes com esta espécie de narrações, porém prolixas, verbosas e vazias, cuja origem  subconsciente a nenhuma dúvida pode dar lugar e nas quais as contradições  não enxameiam apenas entre as afirmações dos diferentes pseudomédiuns, mas também nas que são dadas pelo mesmo indivíduo. São essas infelizes experiências que, feitas sem discernimento e sem qualquer preparação científica, lançam descrédito sobre o conjunto da ‘revelações transcendentais.’” (p.175).

Nesta mesma época iniciaram no Brasil as psicografias do médium Chico Xavier, que ao par de sua qualificação como médium de vários recursos, intermediou uma quantidade enorme de mensagens de caráter místico-religiosos, para as quais, a análise necessária e feita com o critério rigoroso por pesquisadores como Bozzano e outros desta época, foi ignorada solenemente. Dentro desta afinidade de ideias plenamente explicável pela lei da atração, concorreram Espíritos pseudossábios e sistemáticos, com suas teorias e histórias mirabolantes, desprovidas de mínima qualificação científica. Este envolvimento permitiu então que os espíritos imperfeitos dominassem o cenário do que hoje já não podemos chamar de espiritismo, permitindo, entretanto, e com sucesso, a sua expansão nacional e agora internacional.

Chico Xavier, como um médium humilde, de formação católica e com pouco conhecimento da doutrina espírita, deixou-se ser manipulado por homens e por Espíritos imperfeitos, psicografando um desfile folclórico de afirmações absurdas em centenas de livros de ficção chamados equivocadamente de espíritas; a falta de questionamentos e métodos de pesquisa, rejeitados e considerados heresias e obsessões, viraram uma verdade absoluta e indiscutível nos dias de hoje. O mesmo ocorre com a obra de Divaldo Franco, desprovida de qualquer embasamento científico, mas que, pela ignorância da massa, alimentou o dito Movimento Espírita Brasileiro, levando-o ao delírio das mistificações e idolatrias de homens e Espíritos. Criou-se a figura de um gigante desprovido de conteúdo ao mesmo tempo que canonizaram-se esses mais de mil livros.

Quanta falta fazem, hoje, homens como Ernesto Bozzano no Espiritismo!

Bibliografia: A Crise da Morte – Ernesto Bozzano

                    O Livro dos Médiuns – Allan Kardec


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