UMA CURTA HISTÓRIA DE PESQUISAS CIENTÍFICAS

Nelson Murilo Madeira Cardoso

Neste segundo artigo, analisaremos, resumidamente, uma análise de alguns trechos de publicações pós Kardec feitas na Europa até a década de 1940 feitas por Espíritas e espiritualistas. Deixaremos para analisar na terceira parte os livros psicografados por Chico Xavier e Divaldo Franco, dois veneradíssimos médiuns brasileiros, cujas obras se estenderam desde a década de 1930 até aos nossos dias, com quase mil publicações. Tentaremos nestes dois artigos, o de hoje e o próximo, de forma explicita responder à seguinte pergunta, trazida por Kardec na Revista Espírita, novembro de 1859:

DEVE-SE PUBLICAR TUDO QUANTO DIZEM OS ESPÍRITOS? (SEER – 2019).

A questão nos leva mais uma vez à busca da razão e do bom senso, base da doutrina espírita. Sabemos que os Espíritos são todos os seres humanos que deixaram na Terra o envoltório carnal e permanecem com o mesmo nível intelectual e moral quando desencarnam, portanto existem entre eles todos os níveis intelecto-moral que conhecemos entre os homens; qualidades e vícios são mantidos após a morte, é ilusão achar que ela – a morte – transforma os homens repentinamente em anjos ou demônios. Tendo isso em consideração, o meio espiritual que nos circunda está vinculado a nós pela afinidade de sentimentos e pela sintonia de ideias. Não teremos mensagens elevadas em um meio não propicio para tal. Por esta razão, Kardec instituiu o Método de Controle Universal do Ensino dos Espíritos (MCUEE), publicado no item II da Introdução – Autoridade da Doutrina Espírita – de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.

Este método consta de um estudo comparativo entre as informações que chegam dos Espíritos, a mesma questão era proposta a diversos Espíritos e médiuns em locais distintos para em seguida ser analisada pelo próprio Kardec. E assim ele escreveu “O Livro dos Espíritos” e as demais publicações que conhecemos como as obras básicas do Espiritismo; a exceção de alguns artigos que foram assinados pelos Espíritos, sendo a maioria absoluta deles de sacerdotes cristãos conhecidos, que serviriam para conhecermos as suas ideias mas sem a necessidade de se acreditar em seus conteúdos.

Nos anos seguintes à morte de Allan Kardec, surgiram pesquisadores e cientistas sérios na Europa, em especial na Grã-Bretanha, França e na Itália, que procuraram, em suas experiências nesta área, através da observação e da repetição dessas experiências, seguir um método comparativo. Vamos conhecer um pouco a história dos mais importantes pesquisadores desta época:

 No prefácio de sua obra “A Crise da Morte”, Ernesto, o primeiro pesquisador que trazemos, diz: “Conforme já tive ocasião de dizer muitas vezes, desde alguns anos me consagro ao exame dos principais apanhados de revelações transcendentais, aplicando-lhes os processos de análise comparada e obtendo resultados tão inesperados quão importantes.” (1926, Grifos nossos).

Outro pesquisador que trazemos é Gabriel Delanne (1857 – 1926), o qual fez considerações importantes aos médiuns, e dando cumprimento às instruções de Kardec em “O Livro dos Médiuns”, livro este que o pesquisador convidou os médiuns a lerem, explica que as comunicações dos Espíritos não ocorrem de forma previsível, pois ainda “[…] ignoramos as leis que regem esses fenômenos […] Vimos que os mais poderosos médiuns podem permanecer por muito tempo sem emitir essa indispensável força psíquica, sem a qual nada se produz.”. (DELLANE, O FENÔMENO ESPÍRITA, Kindle, 28488).

Charles Richet (1850 – 1935), prêmio Nobel de medicina em 1913, interessado em fenômenos paranormais e criador da metafísica, no prefácio de seu livro No limiar do Mistério (1927) esclarece: “Este livro é apenas uma ficção, não é uma história verdadeira. Escrevendo-o compus uma obra de fantasia. E não quero que, um instante sequer, o leitor possa imaginar que se trata aqui de uma história autêntica”. Esclarece logo à frente o motivo deste seu cuidado: “Os estranhos fenômenos encontrados nesta narrativa estão em rigorosa conformidade com certos fenômenos verdadeiros. Vivemos em uma época em que o oculto se tornou científico, o sobrenatural natural, e em que os mistérios do além são revelados em laboratórios”. (RICHET, 1997, Grifos nossos).

Arthur Conan Doyle (1859 – 1930) – Médico e famoso escritor e criador do personagem Sherlock Holmes, viveu muitos anos cético e irônico quando se tratava de assuntos espirituais, com pesquisas próprias e acompanhando outras de homens respeitáveis de sua época, mudou de opinião. Após pesquisas intensas, por anos a fio e usando critérios rígidos, esclareceu: “Devemos responder que reclamamos provas cuja autenticidade podemos testificar e que não aceitamos asserções cuja veracidade se não possa provar. Outrora se pedia ao profeta um sinal atestador do que dizia. Era uma exigência absolutamente justa e que hoje também o é. Se alguém me trouxesse uma descrição da vida em qualquer outro mundo, sem mais credencias que não as suas afirmações, longe de colocar esse trabalho sobre a minha mesa de estudos, atirá-lo-ia à cesta dos papeis inservíveis. A vida é por demais curta para aferirmos do valor de semelhantes produções”. (DOYLE, 1944, p.71, Grifos nossos).

Por fim, trazemos William Crookes (1832 – 1919) , químico e físico britânico, foi um pesquisador dos fenômenos espirituais desde cedo em sua vida, e como cientista renomado as suas pesquisas eram feitas e repetidas com a intenção de descobrir as causas de fenômenos inexplicados. Sobre as condições dessas experiências, Crookes nos revela em Fatos Espíritas: “Os meus leitores deverão bem se lembrar que, à exceção dos casos especialmente designados, as manifestações se realizavam em minha casa, à luz, e somente em presença de amigos meus e do médium. (CROOKES, 1892, Kindle 374, Grifos nossos). Em outro trecho da mesma obra ele fala a respeito dos mesmos amigos que participavam das mencionadas reuniões: “[…] compus eu mesmo a minha roda de amigos, introduzi todos os incrédulos que me convieram, e geralmente impus condições escolhidas com cuidado por mim mesmo, para evitar toda possibilidade de fraude”. (CROOKES, 1892, Kindle 390, Grifos nossos).

Esses pesquisadores e cientistas, olhando de maneira natural os fenômenos espirituais, procuraram através de experimentos simples com a participação de médiuns, demonstrar a seriedade de seus trabalhos. Não havia espaço para o maravilhoso e a fé cega.

 Ao se iniciar a primeira grande guerra mundial, Conan Doyle percebeu que essas comunicações seriam importantes para amenizar um pouco a dor dos parentes daqueles que morriam na guerra. E com as suas palavras, que revelam a proposta fraterna e universal do Espiritismo, encerro este artigo:

Mas veio a guerra e, reaverforando-nos as almas, nos obrigou a olhar mais intimamente para as nossas crenças, a fim de lhes renovarmos o valor. Em face de um mundo que agonizava, ouvindo narrar diariamente como morria a flor da nossa raça, nos primeiros albores da sua juventude, observando, à volta de nós, as esposas e as mães sem fazerem ideia clara do destino que teriam tido os seres a que amavam, de pronto se me afigurou que o assunto com que desde tanto tempo eu brincava não se resumia apenas no estudo de uma força que escapava aos preceitos da ciência, que nele havia alguma coisa verdadeiramente tremenda; o desabar de muralhas entre dois mundos, uma mensagem inegável vinda diretamente do além, um brado de esperança e de encaminhamento para o gênero humano, na hora da sua mais viva aflição”. (DOYLE, 1994, p.63,64).

Bibliografia: O Livro dos Espíritos, IDE editora, Allan Kardec.

                       O Evangelho Segundo o Espiritismo, IDE editora, Allan Kardec.

                       A Crise da Morte, FEB editora, Ernesto Bozzano (1862/1943), Kindle.

                       O Fenômeno Espírita, Obras Completas de Gabriel Delanne, Autch Editora, Kindle.

                       A Nova Revelação, FEB editora, Arthur Conan Doyle.

                       Fatos Espíritas, Autch Editora, William Crookes, Kindle.

Apostila da SEER, aula nº 14 – Sociedade de Estudos Espíritas do Recife.

Kindle é um tablet de leitura da Amazon.com.br. A numeração de páginas usa modelo próprio.

Daniel Dunglas Home (1833/1886) – De acordo com Arthur Conan Doyle, Home era um médium raro pelo fato de possuir poderes em quatro tipos diferentes de mediunidade: voz direta ; psicofonia ; clarividência ; mediunidade de efeitos físicos como: levitação, materialização, etc. …”e ‘a plena luz do dia'” (Doyle 1926: volume 1, 195-197).

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