QUANDO A HISTÓRIA NOS PEDE PARA NÃO REPETI-LA

Nelson Murilo Madeira Cardoso

Uma boa maneira de compreender um assunto é procurar manter uma distância dele suficiente para analisá-lo. É como subir em uma colina para conseguir enxergar melhor uma região. Sem buscar essa nova posição, estaremos fixados apenas naquilo que nos mostram como se fosse a tela de uma televisão.

Vamos procurar conhecer e perceber o que nos oferece os trinta e nove livros da Bíblia no contexto da milenar história do seu povo. Para esta percepção, é necessário buscar um distanciamento dos valores que trazemos em nosso inconsciente. As origens das leis de nossa sociedade atual e os simbolismos que trazemos do paganismo não conseguem encontrar um ponto em comum com a cultura do povo hebreu. Foi neste ambiente de dualidade cultural que surgiu o cristianismo.

A vida de um homem judeu, Jesus de Nazaré, com a forte mensagem de transformação que ele trouxe, acabou ultrapassando o ambiente de seu povo. A força moral e fraterna da sua mensagem certamente é um dos primeiros e talvez o principal motivo desta transcendência.

Porém, como lembramos, a necessidade de se misturar culturas tão diversas como a hebraica e a greco-romana provocaram mudanças radicais na apresentação da sua mensagem original. Componentes pagãos precisaram ser inseridos para torná-la compreensível e assimilável pela nova cultura ocidental. Mas não somente isto, enxertos e adulterações, por vezes involuntárias nas cópias feitas à mão, mas por outras vezes proposital para conduzir as suas ideias para interesses pessoais e de grupos .

Mas, afinal, quais teriam sido os motivos verdadeiros que levaram os seguidores das mensagens de Jesus a ultrapassarem as fronteiras judaicas em busca de novos adeptos em outros povos? Aquele povo com uma história milenar que sempre recebeu bem os estrangeiros nunca demonstrou uma aptidão expansionista e, ao contrário, foi cativo de outros povos em diversas ocasiões e lutou para conquistar o seu pequeno território, a Terra Prometida por Iahweh Elohim, o Deus único.

Aquela expansão rápida da religião cristã trazia uma necessidade de se impor sobre todas as demais seitas pagãs existentes, absorvendo e adaptando os seus rituais, provavelmente para facilitar a migração dos novos adeptos, e depois os condenando como heréticos, fórmula intensificada após a sua oficialização por Roma que em contrapartida exigiu uma unificação dogmática.

Concílio de Nicéia

Nesta estrutura rígida e impositiva, o cristianismo canonizou as suas escrituras pelas mãos de seus líderes sacerdotais que escolheram a inclusão da Bíblia Hebraica em suas recentes escrituras sagradas, na qual não podendo mexer em seus textos originais por serem de amplo conhecimento público, optaram por criar uma interpretação diferente das profecias que eram dirigidas exclusivamente ao povo judeu e nas situações específicas de seus vários tempos, para tentar infiltrar nelas a figura mitológica do Cristo dando-lhe uma falsa autenticidade.

Essa tentativa de transportar uma cultura para dentro de outra foi em parte bem sucedida pelo uso da força que adquiriu como religião oficial do Império Romano, mesmo que em decadência, perseguindo e eliminando os seus adversários; e à medida que decaiam e surgiam novos poderes no ocidente, esses poderes mantinham o domínio absoluto do cristianismo.

Imperador romano Constantino

O custo desta invasão religiosa-cultural feita pelos cristãos foi devastador em todos os povos por onde se impôs. A começar pelo próprio povo de onde foi arrancada a sua origem: os judeus durante séculos e até hoje ainda sofrem perseguição e discriminação.  Com o mesmo objetivo, as terras dos povos muçulmanos foram invadidas e a sua população violentada; à medida que a colonização ocidental se expandia pelo mundo, levava em sua artilharia a imposição de sua crença.

Conversão dos Bárbaros ao cristianismo

Porém com o progresso científico insistindo em quebrar dogmas cristalizados e a filosofia retomando as ideias de grandes pensadores da humanidade, vamos tendo acesso a novas revelações que permitem a ruptura deste grilhão que nos acorrentou no passado e ainda acorrenta tantos seres humanos pelo medo e, admitamos, pela acomodação dessas pessoas.

Esta nos parece uma razão para separar a Bíblia Hebraica e retirá-la em definitivo das escrituras cristãs, ou seja: excluir o Velho Testamento da chamada Bíblia Cristã. Nessa nova Bíblia só deveria permanecer o Novo Testamento, verificando ainda a possibilidade de incluir-se os evangelhos ditos apócrifos com estudos que tenham a participação dos exegetas e pesquisadores científicos atuais. Assim, fugindo da estagnação dogmática e abrindo a possibilidade de separar nos livros oficiais do cristianismo o Cristo do homem Jesus. Seria necessária bastante coragem dos dirigentes cristãos atuais para essa guinada religiosa, mas permitiria corrigir erros estruturais que deturparam a história de um grande homem e do seu povo. Afirmar que cristãos perseguiram os judeus e os muçulmanos injustamente é parte desta remissão.

Também seria forçoso mudar o nome desta religião, pois o cristo já seria uma mitologia à entrar na história como tantas outras da antiguidade, abrindo uma grande caminho para o avanço moral dos seres humanos; parte considerável da humanidade trocaria a crença cega no poder de um mito que representa os interesses do atraso pela crença sólida em sua própria capacidade de crescimento.

Podemos pensar livremente sobre o assunto? Ou iremos continuar aguardando a vinda do Messias para que ele tome a decisão por nós?

O TEXTO ABAIXO MOSTRA A DEFINIÇÃO DO MESSIAS NA CULTURA HEBRAICA. TRANSCRITO DO SITE:


O que será do Mashiach?

De acordo com crenças e tradições judaicas, o Messias virá depois de um tempo de guerra e sofrimento (Ez 38:16), e naquela época, há várias coisas que o Messias verdadeiro deve realizar:

  1. O Messias irá trazer para casa os judeus de Israel e restaurar Jerusalém, trazendo sobre sua redenção espiritual e política (Is 11:11–12; Jr 23:8; 30: 3; Os 3:4–5; Zc 8:12–14; Ez 37).
  2. O Messias reinará de Jerusalém, que ele vai tornar o centro do governo mundial para os judeus, bem como os gentios (Is 2:2–4; 11:10; 42:1).
  3. O Messias vai reconstruir o templo sagrado e re-estabelecer a adoração no templo e sacrifícios (Jr 33.18; Ez 44.15).
  4. O Messias irá restaurar a lei judaica como a regra da terra e estabelecer um sistema de tribunais religiosos (Jr 33:15).
  5. O Messias trará paz para Israel e o mundo (Is 11:6–11).

Mas os judeus não acreditam que Ieshua é o Messias porque ele não cumprir essas expectativas.

Além disso, um Salvador que é humano e divino, e quem morre pelos nossos pecados é um conceito estranho ao judaísmo tradicional. Portanto, muitos acreditam que considerar Ieshua o Messias é inaceitável. Ainda, muitos judeus olham para os homens simples para preencher o papel messiânico.

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