O VELHO TESTAMENTO E AS PROFECIAS SOBRE JESUS, O MESSIAS.

NELSON M.M.CARDOSO

A Biblia Hebraica, ou Tanash, é um conjunto de livros sagrados que incluem as leis  e a rica história do povo judeu. Nela encontramos detalhes da rotina deste povo, desde a época em que eram nômades, a sociedade e a sua rotina, a medicina, as guerras, o sagrado, a sua elevada cultura, os poderes dos profetas e tantas referências que, como disse o escritor e estudioso André Chouraqui: “A Bíblia  constitui, assim, um fabuloso reservatório de informações. Em suas leis ou em suas narrativas históricas, ela não despreza nenhum detalhe: nem o preço de uma carruagem ou de um cavalo na época de Salomão, nem as intrigas da corte e do harém, nem as artes do sacrifício ou da guerra”. (1978, p. 15).

Coube ao Cristianismo, religião criada para divinizar o judeu Yeshua, conhecido como Jesus de Nazaré, e apresentá-lo ao mundo como o Cristo: o Messias esperado, Salvador da humanidade e Deus encarnado na edição e oficialização dos livros que formaram o chamado Novo Testamento; nele constam os quatro evangelhos canônicos (aceitos pelo clero cristão), Atos dos Apóstolos, as cartas ou epístolas de Paulo, Tiago, Pedro, Judas, as duas epístolas de João e o Apocalipse. Para finalizar o conjunto de seus livros sagrados, foi incorporada a Bíblia Hebraica, chamando-a de Velho Testamento. Este artigo se propõe a analisar resumidamente os motivos desta apropriação feita pelo clero sacerdotal cristão do principal livro sagrado do povo hebreu. Mas, afinal, qual a razão desta apropriação?

Em O Novo Testamento, a religião cristã transformou o homem Jesus em um mito, o Cristo, para elevá-lo à condição do Deus encarnado, sendo, portanto, o único caminho para a salvação da humanidade pecadora. Para que pudesse divinizar Jesus, necessário seria criar um elo profundo com o seu messianato, para separá-lo de tantos outros candidatos a messias como Simão de Barcoquebas, Simão de Pereia e um determinado “‘servo sofredor’ que consta nos Manuscritos do Mar Morto” (Israel Knohl, 2000, pag. 17) que existiram a sua época e depois da sua morte, ou seja, a previsão de sua vinda deveria constar das profecias dos profetas hebreus, feitas centenas e um milhar de anos antes. Deveria vir de uma linhagem do rei Davi a fim de lhe dar a total credibilidade e distingui-lo dos demais messias.

Assim nasce o Jesus Cristo onde as referências às profecias foram uma adaptação proposital de interpretação dos primeiros cristãos.

Em entrevista recente, o historiador e psicólogo Liszt Rangel esclarece: “Profetas da antiguidade, no período em que foram feitas as previsões por Isaias, Jeremias e Miqueias estavam no contexto de um curto prazo, não de longo prazo e as suas profecias não tinham o mesmo alvo, pois se referiam a pessoas distintas. Para Isaías, o servo sofredor de sua profecia se referia à elite intelectual esclarecida de Israel que estava presa no cativeiro da Babilônia. Nada a ver com a figura messiânica de Jesus. O deslocamento de passagem para Jesus serviu para validação do Messias e, mais, para acusar os judeus de estarem cometendo o maior crime da humanidade, imperdoável, sendo que no século II EC já havia panfletos cristãos acusando judeus de matarem o próprio Deus na Terra Santa”. (RANGEL, 2020) (JOSEFO, 2000).

Lembremos as consequências dessas acusações que ocorreram até a nossa época atual, onde muitas pessoas ainda veem no terrível holocausto uma punição pela morte do Cristo.

A espera de um ser divino que retornará para separar os seus crentes dos pecadores que não o reconheceram como o Salvador foi tema de uma série recente da Netflix, que por sinal é muito interessante assistir para a nossa reflexão, está no imaginário daqueles que esperam ansiosamente alcançar o seu próprio gozo eterno: Messiah. Algumas igrejas cristãs utilizam em seus cultos músicas e danças judias, outras ostentam a bandeira de Israel em seus templos, o que pode representar uma admiração pelo povo judeu ou a busca por uma personalidade pessoal ausente.

Sinagoga em Jerusalém

BIBLIOGRAFIA: Os Homens da Bíblia – André Chouraqui.

O Messias Antes de Jesus – Israel Knohl.

Pare pra Pensar – podcast com Liszt Rangel, apresentação de Allan Pinto – (www.horizonteinfinito.com.br)

A História do Povo Judeu – Flávio Josefo.

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