O SER HUMANO DEIXA OS MITOS E SEGUE O SEU CAMINHO

Nelson M.M. Cardoso

Durante milênios, a vida de Jesus, o Cristo, nos foi apresentada pelos quatro evangelhos canônicos e os atos dos apóstolos como uma verdade indiscutível e sob o véu da intocável inspiração divina, embora com narrativas diferentes entre eles em várias passagens.

Além do muro divino criado pela religião, a falta de informações históricas sobre a vida do homem Jesus e a relação com o seu povo contribuiu decisivamente para manter o Novo Testamento como única referência dos acontecimentos em função da falta de uma melhor narrativa histórica, que necessitaria de material escrito de maneira mais idônea possível, e outros registros materiais da época dos fatos, que não existiam.

Começando pela história do povo hebreu, encontramos na Bíblia (O Velho Testamento cristão) a melhor narrativa.  No livro “Os Homens da Bíblia”, o pesquisador argelino André Chouraqui nos fala: “À leitura da Bíblia, os detalhes da vida cotidiana dos reis, dos príncipes, dos notáveis, dos sacerdotes, dos profetas, dos artesãos e dos camponeses se desenrolam sob nossos olhos como as imagens de um filme. (…) Não só os fatos externos são descritos com a exatidão e a minúcia do memorialista, mas a psicologia dos heróis também é posta em relevo com uma espantosa economia de palavras, e de uma maneira tão poderosa, que os homens de todos os tempos e de todos os países não cessam de se reconhecer neles e, com frequência, de tomá-los como modelos de sua própria existência”. (CHOURAQUI, 1978, p.15).

Caminhando para o conhecimento da rica história do povo hebreu, tivemos um avanço científico significativo, como nos fala Chouraqui: “De um século para cá, a crítica bíblica definiu com precisão métodos que permitem uma utilização científica dos dados essenciais desse livro. Uma imensa literatura, pacientemente elaborada em Israel e no mundo, projeta novas luzes sobre os textos bíblicos, cujo valor histórico fundamental e cuja antiguidade não cessam de ser confirmados pelas pesquisas e descobertas contemporâneas. Esses trabalhos se estendem, à mesma época, aos impérios vizinhos de Israel, a Mesopotâmia e o Egito, bem como os povos de Canaã, renovando e ampliando o campo de nossos conhecimentos. Enfim, a arqueologia nos proporciona uma massa sempre crescente de informações variadas e seguras: as centenas de escavações revelam às equipes de cientistas que nelas trabalham indícios palpáveis da vida dos hebreus”. (CHOURAQUI, 1978, p.15).

Porém, o que encontramos na história escrita deste povo sobre a vida do judeu Jesus de Nazaré? Segundo o QUADRO CRONOLÓGICO DA VIDA COTIDIANA DOS HEBREUS, no livro referido, Chouraqui nos mostra que em 62 a.C. ocorreu a intervenção de Roma com a tomada de Jerusalém pelo general Pompeu, sendo escrito o Livro da Sabedoria, em 50 a.C. Depois aparece neste quadro resumido da história hebraica, apenas no século II da Era Comum, o cânon dos ketuvim, os hagiógrados; nenhum registro, portanto da existência de Jesus.

Trecho do Evangelho apócrifo de Tomé

Recentemente no ano de 1945, nas imediações de Nag-Hammadi, no Alto-Egito, foram descobertos diversos manuscritos, entre esses o Evangelho de Tomé.Os papiros situam-se entre os anos de 350 e 400,” (E.C.) “segundo os testes usuais de laboratório. Para os documentos originais, contudo, dos quais teriam sido feitas as traduções, as datas são especulativas. Supõe-se que originais devam reportar-se na opinião de Pagels, ao período de 120 a 150 “(E.C.). (MIRANDA, 1995, p. 15); em 1947 foram encontrados nas cavernas de Qumrán, a 35 Km ao sul de Jerusalém em Israel, os Manuscritos do Mar Morto escritos entre 200 a.C. e 68 d.C., local de uma comunidade de judeus essênios existente à época. Como percebemos, nada foi encontrado até hoje, escrito sobre Jesus durante a sua vida ou mesmo imediatamente após a sua morte. Somente décadas depois, surgem as narrativas do primeiro evangelho conhecido, como nos diz o pesquisador húngaro Geza Vermes: “A opinião dominante entre os estudiosos é a de que o Evangelho de Marcos é o mais velho. Ele é dirigido a uma plateia não-judaica pouco depois da queda de Jerusalém em 70 d.C.” (VERMES, 2002, p.13).

Flávio Josefo, general e historiador judeu que escreveu “A Guerra dos Judeus”, era contemporâneo de Jesus. Josefo teria citado o nazareno em apenas um parágrafo desta longa obra, mesmo assim há dúvidas da autenticidade do conteúdo deste texto. Mas é A ÚNICA REFERÊNCIA HISTÓRICA da existência de Jesus. (João Batista foi citado algumas vezes nesta obra).

Voltamos a perguntar: quais os motivos desta inexistência de documentos contemporâneos a Jesus e em especial, referentes aos seus últimos dois anos de vida, período que foi descrito décadas depois nos evangelhos canônicos? Quem foi Jesus? Teria sido um profeta popular que, com seu discurso de resistência moral e não bélica não se enquadraria na figura de um messias libertador tão esperado à época pelo povo subjugado ao Império Romano?

Com a leitura das obras de alguns dos maiores estudiosos modernos constatamos o que esses cientistas não aceitam mais como verdades incontestáveis que se encontram nos livros do Novo Testamento, base para a criação da religião cristã.

A primeira questão a se colocar é a criação do ser divino chamado Cristo. Em seguida, a associação deste mito do Cristo com os Patriarcas, Reis e Profetas da Bíblia Hebraica, alterando o verdadeiro sentido que era dirigido exclusivamente à nação judaica ao longo da sua milenar história, sendo essas profecias conduzidas, pelos mentores da recém criada religião cristã, como um canal artificial fabricado para alterar o rumo de um rio e levar as suas águas para as terras que se desejam.

Em nenhum momento da vida de Jesus, mesmo nos seus milagres, esses modernos pesquisadores puderam perceber nele a figura proselitista em busca de adeptos para uma religião ou seita, com a proposta de mudar o mundo por um único caminho. Jesus mostrou ao seu povo a necessidade de seguir a essência da moral que já existiam nas leis existentes em seus livros sagrados, para superar as injustiças, as corrupções e as atrocidades que se abatiam sobre aquele povo de sua época.

Nas recentes pesquisas e descobertas que continuam sendo feitas, a visão divina do cristo-jesus tende com o tempo a se diluir como uma nuvem que encobria o céu, à medida que o ser humano vai percebendo a sua própria capacidade de crescimento sem mais a necessidade de um salvador externo agindo exclusivamente sobre aqueles que nele creem e castigando os que o negam.

 – O objetivo do nosso site é a busca do conhecimento para o nosso crescimento como seres humanos com um conteúdo de estudo filosófico e principalmente dentro da doutrina espírita e dos ensinamentos do homem Jesus, que realçou o amor incondicional e a justiça à humanidade, independentes de lugar e de tempo. Esta busca sempre faremos juntos, nós escritores e vocês leitores, pois estamos todos na condição de aprendizes e estudantes.

* EC – “Era Comum” equivalente à d.C. – “depois de Cristo”.

BIBLIOGRAFIA: Os Homens da Bíblia – Editora Círculo do Livro, 1978 – André Chouraqui.

                       O Evangelho Gnóstico de Tomé – Editora Lachatre, 4ª edição, outubro/2007 –    Hermínio C. Miranda.

                             O Autêntico Evangelho de Jesus – Editora Record, 2006 – Geza Vermes.

2 comentários em “O SER HUMANO DEIXA OS MITOS E SEGUE O SEU CAMINHO

  1. Muito interessante e pertinaz a premissa que o “JESUS DE NAZARÉ”,não veio mudar o mundo ou formar uma “religião ”
    A essência era a enaltação da moral e convívio harmonioso.
    Obrigada!
    Pretendo adquirir os livros.
    Tenho Flávio Josefus e alguns “evangelhos” como o de São João,(ou profecias) que é muito interessante.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sim, Mácia. Os ensinamentos de Jesus se tornam mais coerentes com o crescimento do ser humano quando afastados dos dogmas religiosos. Aconselho a você ler o livro “Jesus Além da Crença” de Liszt Rangel, que se encontra a venda na sua fan page: Liszt Rangel no Facebook. Também “O Evangelho de Tomé” do Ron Miller. Quanto ao Evangelho atribuído a João, é o mais distante do homem Jesus e o mais próximo do Cristo da fé, um mito que nunca existiu.

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