A RESISTÊNCIA IMPEDE O CRESCIMENTO?

Nelson M.M.Cardoso

Livros de autoajuda são muitas vezes desqualificados. Em muitos deles há uma motivação arranjada e artificial com frases de sentido demagógico e muitos clichês. Já na filosofia encontramos uma visão mais aprofundada e coerente da vida, buscando a nossa capacidade de entendimento e propondo um crescimento sem receitas prontas, mas com reflexão.

Assistindo um seminário da professora Lúcia Helena Galvão, da escola filosófica “Nova Acrópole”, conheci um livro bastante interessante: “A Guerra da Arte”, de Steven Pressfield. Nele o autor procura mostrar como agimos normalmente contra o nosso próprio crescimento, de maneira racional e consciente. Por isso quis fazer a distinção entre um livro de autoajuda e o conteúdo desta obra de filosofia.

O nosso comportamento atual é semelhante ao do homem na caverna de Platão, e, neste livro, o autor como que transporta a reflexão do filósofo grego do século IV AEC, para a sociedade atual.

Dividido em três partes, o livro caminha pelos graves problemas de imaturidade e da incapacidade do homem moderno em obter a sua autonomia. Na introdução nos fala o autor: “A maioria de nós possui duas vidas. A vida que vivemos e a vida não-vivida que existe dentro de nós. Entre as duas, encontra-se a resistência” (2002, p.13). Com isso, ele define resistência como tudo aquilo que nos impede de realizar o que planejamos, desejamos e nos preparamos, e que por um recuo proposital não executamos.

A primeira parte do livro ele chama de: “Resistência, definindo o inimigo”. Enumera as propriedades da resistência e como essas agem nas nossas vidas, afastando-nos do nosso compromisso com o crescimento pessoal e como contribuintes que somos do progresso da humanidade. Steven classifica a resistência como:

Invencível – É uma força de repulsão negativa. Seu objetivo é nos afastar, distrair, nos impedir de fazer o que nos propomos, que ele chama de “nosso trabalho”.

Interna – Surge em nosso interior. Este aspecto considero muito importante para afastar a culpa que podemos colocar nos “outros”.

Insidiosa – A resistência dirá qualquer coisa para impedi-lo de agir. Cometerá perjúrio, inventará, falsificará, seduzirá, intimidará, adulará.

Impessoal – Não sabe quem você é e não se importa. A resistência é uma força da natureza. Ela age objetivamente.

Infalível – Impede de fazer o que queremos; quanto mais importante uma vocação ou ação for para a evolução da nossa alma, mais resistência sentiremos em perseguir esta vocação.

Medo – A resistência alimenta-se do medo. Ela não tem força própria. Cada gota de sua seiva vem de nós. Nós lhe damos força com o nosso medo. Convém lembrar que o medo existe em tudo e que não deve ser motivo para nos paralisar. Dominando o medo, venceremos a resistência.

É mais forte na reta final – Quando a chegada de nosso objetivo está próxima e normalmente relaxamos, ela articula um último ataque.

A resistência recruta aliados – “Por definição, resistência é auto sabotagem. Mas existe um perigo paralelo contra o qual também é preciso se precaver da sabotagem cometida por outros”. Esta citada sabotagem é na verdade uma criação nossa mas se projeta como vindo dos outros.

Procrastinação – Racionaliza a resistência. Você não diz: “Nunca irei escrever um livro”. Ao invés disso diz: “Vou escrever um livro; só que vou começar amanhã”. Pode se tornar num hábito e, então, adiar até o leito da morte! Diz o autor: “Nunca se esqueça: neste exato instante, podemos mudar nossas vidas. Nunca houve um momento, nem nunca haverá, em que não tenhamos o poder de alterar nosso destino. Neste mesmo segundo, podemos virar a mesa sobre a resistência” (2002 p.34).

Fundamentalismo – Considero uma das mais fortes razões de resistência porque confronta o nosso comodismo. Os conceitos estão arraigados na nossa formação há gerações: a figura externa do diabo, a convicção de que a humanidade está piorando, que as coisas eram melhores antigamente, a aversão à inovação e as mudanças de qualquer natureza.

Racionalização – No sentido de criarmos uma justificativa que nos acalente “racionalmente” e para nos sentirmos “confortáveis” com a resistência.

Outros fatores são relacionados no livro, como sexo, problemas pessoais, dramatização, automedicação, vitimização, infelicidade, isolamento e até a escolha de um parceiro.

Steven Pressfield

Na segunda parte do livro, Pressfield mostra como combater a resistência. Resumidamente destacamos a comparação que ele faz entre o que chama de amador e profissional. Sendo amadora, a pessoa não se dedica intensamente à realização de seus ideais. Seria como um sonho, um desejo distante, que a resistência afastará facilmente de uma realização efetiva. Já o profissional percebe a sua vocação a ponto de lhe dedicar a vida. Compromete-se integralmente. O autor diz que o profissional é paciente, compreende a demora na gratificação. Prepara a mente para o trajeto longo. Pode perder, mas não desanimar. Enfim, destaca como profissional aquele que consegue superar a resistência, reagindo diante do medo, não hesitando em pedir ajuda, não levando eventuais fracassos para o lado pessoal, e para isso suportando as adversidades.

Na terceira parte do livro o autor mostra a sintonia que envolve aquele que consegue superar a resistência na execução de sua vocação com o mundo espiritual, fazendo um intercambio que contribuirá para graduar ainda mais a sua tarefa. Como referência, cita as musas da mitologia grega como inspiradoras dos que alcançaram a própria autonomia.

Concluímos com um pensamento retirada do livro, que revela o valor da coragem para superarmos as resistências: “Uma coisa é estudar a guerra e a outra é viver a vida de um guerreiro.” (Télamon Arcádis, mercenário do século V AEC).

Bibliografia: “A GUERRA DA ARTE” – Steven Pressfield.

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