O ESPIRITISMO E O FUTURO

Nelson M M Cardoso
Profeta de Aleijadinho

Há uma tendência natural do homem em querer prever o futuro. A preocupação a respeito de uma perspectiva de continuidade sobre aquilo que pratica, ou o detém, pode ser um dos motivos para tentar este olhar avançado.

Quando é viável um planejamento, e este é bem executado, as chances de se concretizarem as previsões podem ser realizadas. Porém quanto mais distante se torna a perspectiva deste planejamento mais difícil fica a sua previsão.

O paganismo e as religiões ocidentais sempre contaram com essas perspectivas futuristas para se manterem vivas perante seus adeptos, utilizando-se de pessoas, com características ou dons especiais, denominadas profetas; na religião cristã temos o exemplo do apóstolo dos gentios: “Paulo e seus cristãos tessalonicenses e coríntios eram inflamados pela fé inabalável de que o retorno do Senhor ocorreria a qualquer momento, e certamente ainda durante o seu tempo de vida.” (VERMES, 2006, p. 89).

No Novo Testamento as previsões apocalípticas têm um livro, atribuído a João: o Apocalipse. Em seu prólogo, consta: “Revelação de Jesus Cristo: Deus lha concedeu para que mostrasse aos seus servos as coisas que devem acontecer muito em breve“. (BÍBLIA DE JERUSALÉM). Assim como todas as regras morais de conduta criadas pelos livros ditos sagrados, essas previsões objetivam manter sob constante disciplina e obediência os seus fiéis seguidores. Esses preceitos são conhecidos como dogmas.

Allan Kardec demonstrou a preocupação com a continuidade do seu trabalho no Espiritismo, levantando três questões aos Espíritos, sendo a primeira: “Muitos entre os adeptos se inquietam quanto ao que se tornará o Espiritismo depois de mim, e se perguntam quem me substituirá, quando eu partir, tendo em vista que não se vê ninguém se mostrar, de maneira notória, para tomar-lhe as rédeas.

Respondo que não tenho a pretensão de ser o único ser indispensável; que Deus é muito sábio para fazer repousar o futuro de uma doutrina, que deve regenerar o mundo, sobre a vida de um homem; que, aliás, sempre me foi dito a minha tarefa era construir a Doutrina, e que me será dado tempo necessário. A meu sucessor será, pois, mais fácil, uma vez que o caminho estará todo traçado, e bastar-lhe-á segui-lo“. (KARDEC, 1861).

Em resposta, os Espíritos confirmaram as suas colocações, inclusive a de não ser indispensável: “só és aos olhos dos homens porque era necessário que o trabalho de organização fosse concentrado nas mãos de um só, para que houvesse unidade; (…) mas não és, como de resto sabes, o único capaz de cumprir essa missão; (…) Até que o trabalho de elaboração esteja terminado, é, pois, necessário que sejas o único em evidência, porque seria preciso uma bandeira ao redor da qual pudesse se unir;

Os Espíritos, ao final da resposta, confirmaram que o trabalho de Kardec não terminaria com a sua morte: “Desincumbido do trabalho da criação da obra, sob o peso do qual o teu corpo sucumbirá, estará mais livre para aplicar todas as suas faculdades no desenvolvimento e na consolidação do edifício.”

Na segunda questão, Kardec pergunta se a escolha do seu sucessor já estaria fixada, obtendo como resposta que talvez, pois não poderiam desprezar o seu livre-arbítrio em recuar diante da tarefa, concluindo a resposta: “É preciso também que ele dê provas de capacidade, de desenvolvimento, de desinteresse e de abnegação. Se não tiver movido senão pela ambição e o desejo de evidenciar-se, certamente, será posto de lado”.

Finalizando, Kardec comenta com os Espíritos: “Sempre foi dito que vários Espíritos superiores devem se reencarnar para ajudar o movimento”, no que obtêm deles a afirmação que vários Espíritos terão essa missão, “mas cada um terá a sua especialidade, e agirá, pela sua posição, sobre tal ou tal parte da sociedade. Todos se revelarão pelas suas obras, e nenhum por uma pretensão qualquer à supremacia“.

Podemos fazer algumas reflexões sobre este futuro do Espiritismo, após a passagem de quase 160 anos. Primeiro que após 22 de dezembro de 1861, data deste diálogo, a missão de formação da Doutrina continuou ocorrendo através de novas publicações de Kardec com as edições mensais da “Revista Espírita”, e dos livros: “Viagem Espírita em 1862”, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, “O Céu e o Inferno” e “A Gênese”, além de “Obras Póstumas”, tendo Kardec, como previram os Espíritos, “Desincumbido do trabalho da criação da obra, sob o peso do qual o teu corpo sucumbirá“, em 31 de março de 1869.

Claro que esta previsão poderia não ocorrer se ele tivesse desistido de continuar a exaustiva missão alguns anos antes da sua morte, permitindo-se refazer a sua saúde debilitada e vivendo por mais tempo, voltando a ter uma vida tranquila como o grande professor Hypolite Léon Denizard Rivail.

Léon Denis – Congrès Spirite International
de Paris (1925).

A outra reflexão refere-se aos anos seguintes à sua morte, onde ocorreram modificações nas previsões otimistas tanto de kardec quanto dos Espíritos. Leon Denis, (1846/1927), ainda seu contemporâneo conseguiu aprofundar os estudos do Espiritismo acompanhando o progresso alcançado por pesquisadores como William Crookes e Ernesto Bozzano na área das revelações transcendentais e das descobertas da ciência na área das forças invisíveis como os raios-x, consolidando revelações do Espiritismo.

No entanto como “uma doutrina, que deve regenerar o mundo” (KARDEC, 1861), o Espiritismo foi sendo abandonado pelos seus seguidores, permitindo que se formasse um ambiente religioso, incorporando rituais e dogmas já tão conhecidos dos homens há milênios, estagnando as suas vidas, ambiente o qual o Espiritismo foi criado para combater. Juntaram-se por afinidade os homens e espíritos necessitados de expandirem suas personalidades imperfeitas, com ideias místicas para poderem envolver as pessoas que vivem com as suas fragilidades, transformando-se em ídolos e mitos delas.

O Espiritismo, apesar de suas lideranças atuais estarem movidas “pela ambição e o desejo de evidenciar-se” (KARDEC, 1861), e exclusivamente pela força de seus princípios e de contar com poucos porém verdadeiros adeptos, está apto a ajudar o impulsionamento e progresso moral da humanidade!

BIBLIOBRAFIA: “As Várias Faces de Jesus” Geza Vermes.

“A Bíblia de Jerusalém”, Editora Paulus, 1ª edição, 2002, 13ª reimpressão, 2019.

“Obras Póstumas”, Allan Kardec, edição IDE p. 213.

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