O JESUS QUE NÃO ERA CRISTÃO

NELSON M.M.CARDOSO

ANALISANDO ALGUNS TRECHOS DO EVANGELHO DE TOMÉ, NA OBRA DE RON MILLER.

Como sabem alguns amigos, sou um sedento aprendiz que teve a oportunidade de encontrar um generoso – e extremamente capacitado – amigo com afinidade de pensamento, nos permitindo a busca do Espiritismo em sua essência e também me orientando na leitura de grandes obras de pesquisadores respeitáveis e fatos atualizados sobre a fascinante história do homem Jesus e de seu povo.

Os 13 manuscritos descobertos em Nag Hammadi
no Egito em 1945: evangelhos com
interpretações
bem diferentes do Cristo bíblico

Estou lendo o livro “O Evangelho de Tomé – Uma Bússola para a Evolução Espiritual”, de Ron Miller. A respeito deste evangelho, sabemos que “em 1945, perto da cidade moderna de Nag Hammadi, Alto Egito, uma coleção de manuscritos coptas antigos foi encontrada. Esta coleção de treze códices, feitos de papiros e cobertos com couro recebeu dos especialistas o nome de Biblioteca Copta de Nag Hammadi. Ela abrange textos teológicos e filosóficos, a maioria deles cristãos e boa parte gnósticos. (…) Alguns textos foram publicados separadamente no decorrer dos anos 50. É o caso, por exemplo, do documento conhecido como o Evangelho da verdade, que foi publicado em 1956 por M.Malinine, H.-Ch.Pueche G.Quispel e do Evangelho de Tomé, publicado em 1959, por A.Guillaumont, H.Ch.Puech,G.Quispel,W.C.Tille Abdel Masih.” (CHAVES, 2006).

São Tomé por Velasquez

Neste livro, junto aos ditos atribuídos a Jesus, o autor tece comentários bem interessantes e o seu conteúdo não dogmático permite nos aproximar da figura humana de Jesus. Vamos trazer alguns trechos da obra, permitindo ao leitor compreender um pouco melhor o que se tem confirmado nos estudos modernos sobre o que seria uma forma de filosofia de vida com envolvimento fraterno de um profeta popular judeu ao invés de uma divindade distante chamada Cristo; criada por uma religião castradora para ser o mito e domador da humanidade.

Devo esclarecer, pelas palavras do próprio autor, que este livro não se trata de um estudo acadêmico sobre o Evangelho de Tomé, “contudo esta obra possui diferentes propósitos, entre eles ser um guia de ensinamentos para uma reflexão diária de autoconhecimento e de amor ao próximo” (MILLER, 2004, p. 11). Toda religião é exclusivista em função dos seus dogmas. O encontro da felicidade eterna exige seguir um único caminho que o adepto sequer trilha com os seus pés; ele é conduzido como um veículo conduz alguém pela estrada. A aceitação de subir neste veículo é a única decisão pessoal, pois a partir daí é só seguir as práticas ritualísticas obrigatórias.

A respeito disso, encontra-se na obra o seguinte trecho: “2. Jesus disse: ‘O buscador jamais deverá parar até que encontre o que procura. Quando achar, ele ficará transtornado. Após a perturbação, será arrebatado. Então reinará sobre todas as coisas.‘” (MILLER, 2004, p.24). O autor nos diz que os evangelhos canônicos nos falam de procurar e encontrar o que precisa como fim, enquanto em Tomé a descoberta é o começo da autotransformação. Ou seja, a busca não termina pois somos seres que precisamos estar na constante procura das verdades.

Outro ponto que nos chamou a atenção é o seguinte: “3b. ‘Quando você compreender a si mesmo será compreendido. E vocês perceberão que são Filhos do Deus Vivo. Se você não conhece a si mesmo, então vive na penúria e é a tal penúria.‘ Quando entendemos verdadeiramente nossa natureza, somos capazes de compreender as pessoas, falamos com autoridade e agimos com experiência própria. A riqueza interior jamais poderá ser roubada por incautos, nem corroída pelas traças ou desgastada com o tempo. Sem essa preciosa compreensão, viveremos na miséria espiritual. Pobres são aqueles que aguardam ansiosos pela aprovação de suas condutas por algum ‘santo padre’ ou, quem sabe, o encontro de algum texto sagrado em que se confirmem as próprias experiências vividas e, mais ainda, que suas vidas se modelem às palavras, ideias ou doutrinas de outras pessoas.'” (MILLER, 2004, p.26).

Temos, nesses ditos, a clara percepção de um encontro conosco mesmo, tão bem percebido pelo autor. Não seria esta a grande força dos ensinamentos do homem Jesus, ou seja, mostrando-nos a capacidade que todos temos de caminhar com os próprios pés, o sentido de liberdade que nos permite avançar?

Ainda há mais que se segue: “24. Os discípulos solicitaram: ‘Revele-nos como é a sua morada, pois é fundamental para que possamos encontrá-la,’ ele respondeu: ‘Aquele que tiver ouvidos deixe-os escutar. Existe luz dentro do homem de luz e esse fulgor aviva o mundo à sua volta. Se ele não for iluminado, então haverá trevas.’ Novamente observamos a preocupação na busca de algo externo, pois desejamos que Jesus nos diga o caminho, queremos que um livro sagrado dê-nos uma diretriz para que possamos direcionar nosso destino. É difícil crescer e se tornar uma pessoa adulta, ter responsabilidade pelas próprias decisões e, acima de tudo, pela vida.'” (MILLER, 2004, p.25/26).

58. ‘Jesus disse: “Quem quer que possua um pouco e continue a perseverar, ainda mais lhe será agraciado. Porém, aquele que apenas sonha e nada faz, o pouco que possui lhe será retirado.'”

42. ‘Seja um andarilho‘. ‘”Esta talvez seja a frase mais curta dita por Jesus nos evangelhos, mas de profunda reflexão. O autor cita duas frases de origem oriental em concordância com esta frase: ‘Um ditado chinês diz que a vida é uma ponte sobre a qual nós deveríamos passar, mas jamais tentar construir uma casa em cima. A Segunda Nobre Verdade de Buda nos ensina que o apego é a fonte de todo sofrimento.'” (MILLER, 2004, p.28).

Você, amigo leitor, já sentiu como esses ditos de Jesus mexem conosco, bem lá no fundo? Como procura trazer à tona uma força interna que relegamos em troca de uma dependência externa? Compreendeu que o Jesus que acabamos de conhecer, em momento algum propôs a nos salvar ou a nos julgar? Pense bem. Deixe o veículo coletivo que lhe conduzia e siga a pé e por caminhos escolhidos por você; e que em muitos deles, o veículo não conseguirá passar.

BIBLIOGRAFIA: “O Evangelho de Tomé, Uma Bússola para a Evolução Espiritual” – Ron Miller.

“A BIBLIOTECA COPTA DE NAG HAMMADI – Uma história da pesquisa” – Julio Cesar Dias Chaves. (Orácula, S. Bernardo do Campo, 2.4,2006 ISSN 1807-8222).

2 comentários em “O JESUS QUE NÃO ERA CRISTÃO

  1. Apresentação suscita e convincente de que tem algo a mais para ser descoberto sobre o Homem Jesus e também acerca das inúmeras formas que ainda hoje o Nazareno é visto! Avante!! Tem muito mais por vir na sua jornada!

    Curtido por 1 pessoa

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