Duração das penas futuras: "o que será de mim?"

Victor Ramos

No início da obra O Céu e o Inferno, no capítulo intitulado O Porvir e o Nada, encontra-se a ideia segundo a qual a depender da visão que o indivíduo tenha sobre a vida material, dar-se-á a sua postura enquanto encarnado; aqueles de concepção espiritualista, em tese, não dão aos acontecimentos da vida material a importância que os materialistas a eles atribuem, afinal os primeiros sabem que a alma permanece viva e que não há morte, em verdade, já os segundos podem cair, com maior probabilidade, no abismo em acreditar que os prazeres do corpo devem ser vividos ao máximo: abrem, por vezes, imensa porta para o egoísmo, o oposto da caridade. Para além dessa questão, há chances de serem estimulados, pela concepção materialista que adotam, a não investirem nas emoções como deveriam, pois uma vez que não haverá um depois, por que se dedicar a amar os inimigos ou os que nos caluniam e odeiam? Perdão pode ser apenas uma palavra vã ou quiçá uma utopia.

Ainda sobre o início da obra citada e no tocando à questão levantada, encontra-se numa das primeiras páginas de O Céu e o Inferno a seguinte citação: “Por mim mesmo juro – disse o Senhor Deus – que não quero a morte do ímpio, senão que ele se converta, que deixe o mau caminho e que viva” (Ezequiel, 33:11). Sendo assim, a Vontade de Deus para suas criaturas é a da vida, não a da morte. Não há, a partir desta citação e de princípios espíritas (tais quais o da reencarnação e da Lei do Progresso) espaço para dúvidas quanto à perpetuação da alma após o desfalecimento do corpo. Desse modo, cabe o questionamento: o que acontece com aquele que desencarna? Além disso, se o desencarnado não houvesse sido espiritualista enquanto no plano material e optou por viver uma vida de clausura emocional e transgressões morais, o que será dele?

A princípio, vale lembrar que todo ser humano, como encontrado na pergunta 843 de O Livro dos Espíritos, “Pois que tem a liberdade de pensar, tem a de agir. Sem o livre arbítrio o homem seria uma máquina”, e o bom senso nos mostra que não há liberdade sem responsabilidade, logo somos responsáveis pelas escolhas que fazemos e suas consequências. Outro ponto que abrange este desenvolvimento de ideia é o questionamento se todos os homens são iguais perante Deus, ou seja (pergunta 803): se haverá privilegiados, diminuição da “pena”, injusto julgamento. A resposta para esta pergunta é que “[…] todos tendem para o mesmo fim e Deus fez as suas leis para todos”. Por isso, independentemente da concepção de vida que adotemos ou transgressões que venhamos a cometer, o destino é um só – o percurso é que não, este é ornado por nossas escolhas, fruto da liberdade nata.

Segundo o pensador Sêneca, a vida configura-se por riscos:

A virtude e o prazer, Sêneca

“Rir é correr o risco de parecer tolo.

Chorar é correr o risco de parecer sentimental.

Estender a mão é correr o risco de se envolver.

Expor seus sentimentos é correr o risco de mostrar seu verdadeiro eu. […]”.

E, acrescenta ao final do texto que “Somente a pessoa que corre riscos é livre!”. Desse modo, encontra-se, nas palavras do filósofo, que liberdade e responsabilidade andam juntas, sobretudo que a liberdade se manifesta pelas escolhas e que cada traz seu grau de risco, pois não controlamos tudo o que está a nossa volta e esse risco assim como a responsabilidade pelas consequências da nossas ações compõe a nossa liberdade. Logo, a partir disso, havendo certeza quanto ao destino de todos, o que se dá conosco ao desencarnarmos? Obviamente nem todas as decisões tomadas tiveram consequências agradáveis, nem todos os riscos valeram a pena, sendo assim cabe atentar para a pergunta 1003: “A duração dos sofrimentos do culpado na vida futura é arbitrária ou subordinada a alguma lei?”, temos como resposta o seguinte: “Deus nunca age de maneira caprichosa e tudo no Universo é regido por leis que revelam a sua sabedoria e bondade”, desse modo, mais uma vez é dito, todos somos regidos pela mesma lei.

Já na pergunta 1004 é questionado sobre o que determina a duração dos sofrimentos do culpado, e a resposta é clara: “O tempo necessário ao seu melhoramento. O estado de sofrimento e de felicidade sendo proporcional ao grau de pureza de Espírito, a duração e a natureza dos seus sofrimentos dependem do tempo que ele precisa para se melhorar. Á medida que ele progride e que os seus sentimentos se depuram, seus sofrimentos diminuem e se modificam. (São Luís)”. – observemos que Kardec fez questão de expor a personalidade autora da resposta. Observemos que a questão da duração do sofrimento do Espírito depende de si, do grau de evolução que apresenta. Por fim, trazemos a pergunta 1006, a qual trata ainda da duração das penas futuras, mas no tocante à eternidade: “A duração dos sofrimentos do Espírito pode ser eterna? – Sem duvida, se ele fosse eternamente mau, ou seja, se jamais tivesse de se arrepender nem de se melhorar. Então, sofreria eternamente. Mas Deus não criou seres eternamente voltados ao mal. Criou-os apenas simples e ignorantes, e todos devem progredir num tempo mais ou menos longo, de acordo com a própria vontade. Esta pode ser mais ou menos retardada, assim como há crianças mais ou menos precoces, mas, cedo ou tarde, ela se manifesta por uma irresistível necessidade que o Espírito sente em sair da sua inferioridade e ser feliz. A lei que rege a duração das penas é, portanto, eminentemente sábia e benevolente, pois subordina essa duração aos esforços do Espírito, jamais lhe tirando o livre-arbítrio; se dele fez mau uso, sofrerá as consequências disso (São Luís)”. Com isso, percebemos uma fração da força que nos confere o nosso livre-arbítrio e que não há mágica ou maravilhamento algum quanto à Justiça divina a nos reger, aqui não se trata de um Deus vingativo um humano divinizado, mas um ser soberanamente Justo e Bom a tratar de todas as suas criaturas de modo equânime, sem favoritismo. Todos somos livres para pensar, escolher, arriscar: sermos responsáveis pelo que fazemos, seja isso em corpo ou fora dele, a Lei é única e inalterável. Como encontramos em Ezequiel, Deus quer nossa vida e vida plena; por meio da liberdade, responsabilidade e riscos – a nossa morte não é possível.

BIBLIOGRAFIA: O Livro dos Espíritos, Allan Kardec.

O Céu e o Inferno, Allan Kardec.

Séneca – Citações de vários diálogos e cartas.

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