Espiritualidade: escolha a sua companhia.

Nelson Murilo Madeira Cardoso

O ufanismo é a consequência de um estado exagerado de otimismo. Muito comum em sociedades que estagiando em grandes dificuldades morais e/ou financeiras, encontram em algum ponto de referência, normalmente frágil, o estopim para fugir à difícil realidade que vivem.

Estádio de São januário – Rio de Janeiro – Época do Estado Novo

No início da década de 1930, em um período mundial de recessão, surgiram ideias retrógradas em alguns países da Europa e da Ásia, mas que os impulsionaram economicamente. O ufanismo cegou povos revelando o pior de seres humanos. O Brasil impulsionado, também por uma perspectiva de crescimento econômico, encontrou uma árvore ufanista que produziu vários galhos, entre eles um do crescente Espiritismo religioso; não podemos descartar também a possibilidade do ufanismo espírita ter sido uma forma de aproximação com o governo da época. É uma tendencia que verificamos ter ocorrido posteriormente na história do Espiritismo brasileiro.

Uma das primeiras edições da ficção

Em 1938, Chico Xavier, assinando o nome do Espírito Humberto de Campos em declarada psicografia, lançou o livro: “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho“. A narrativa desta ficção feita de maneira resumida aqui, mostra um país preparado por Jesus, o recém revelado “governador do planeta“, e por sugestão do anjo Ismael, que iria assumir a coordenação do futuro país (o Brasil não existia ainda pois o “encontro” se deu antes do seu descobrimento pelos portugueses), com o objetivo de acolher espíritos renitentes no mal e fazê-los avançar no caminho do bem, onde formariam no futuro, o Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.

A literatura religiosa espírita, que domina até hoje os incautos estudantes espíritas, é desde muito tempo alimentada por oradores que os fascinam com uma fala mansa, pseudo-erudita mas cujas teses se apoiam em espíritos tão imperfeitos quanto eles. Não discutirei aqui se a intensão é dolosa, mas sim as consequências danosas que verificamos tanto nos próprios idolatrados, que projetam seus fortes personalismos, quanto nos idólatras adoecidos.

O Espiritismo foi criado para trazer, à luz da razão e do bom senso, as questões até então misteriosas, fechadas em um ambiente de ignorância estabelecido por dogmas intocáveis sob a ameaça de punições severas. No objetivo de crescer a humanidade, as Leis Naturais que regem toda a vida do Universo, formaram a base das revelações feitas por diversos espíritos e que foram acompanhadas pelas imprescindíveis pesquisas de caráter científico. O Espiritismo apresentou-se como uma filosofia de alcance moral para todos aqueles que desejavam encontrar respostas às dores e aos seus sofrimentos, ao mesmo tempo os preparar para a superação, não com um passe de mágica, mas com o fruto do autoconhecimento e da disposição de caminhar ao lado de novos e libertadores desafios.

Esta relação entre as humanidades material e espiritual é tema de análise em toda a obra assinada por Kardec com as instruções vindas dos espíritos.

Sincretismo ou cinismo

Procuramos neste artigo fazer a comparação entre esta fantasia literária, incluída como uma obra espírita por uma instituição que deveria preservar os ensinos dos Espíritos contidos na obra reunida e analisada por Allan Kardec e os princípios básicos do Espiritismo.

Sabemos que o intercambio entre as humanidades citadas acompanha a lei de afinidade de pensamentos, para a qual prevalece a atração. Sendo assim, para se alcançar um nível moral mais elevado de comunicação com os espíritos, necessária se torna uma sintonia adequada. Esta relação é extensiva ao nível coletivo, como nos fala Kardec: “Cada homem tendo seus Espíritos simpáticos, disso resulta que, nas coletividades, a generalidade dos Espíritos simpáticos está em relação com a identidade dos gostos e dos pensamentos, em uma palavra, que esses agregados, assim como os indivíduos, são mais ou menos bem rodeados, assistidos, influenciados segundo a natureza dos pensamentos da multidão”. (Kardec, 1857, p. 179). Não conseguimos encontrar nessa análise onde se enquadrar a teoria do país-hospital, ou país-penitenciária, onde seriam recolhidos os espíritos recalcitrantes, tão em moda nas palestras e seminários espíritas a partir da popularização do livro brasileiro.

Nesta linha de raciocínio lógico, Kardec prossegue: “Entre os povos, as causas de atração dos Espíritos são os costumes, os hábitos, o caráter dominante, as leis, sobretudo, porque o caráter de uma nação se reflete em suas leis. Os homens, que fazem reinar a justiça entre si, combatem a influência dos maus Espíritos. Em toda parte onde as leis consagram as coisas injustas, contrárias à humanidade, os bons Espíritos estão em minoria, e a massa dos maus, que afluem, entretêm a nação em suas ideias e paralisa as boas influências parciais perdidas na multidão, como uma espiga isolada no meio as sarças”. (Kardec, 1857, p. 179). Está bem clara a compreensão que somos nós, os espíritos encarnados, que atraiamos a espiritualidade que nos circunda tanto individual como coletivamente e não o inverso.

Precisamos estudar melhor a base das revelações espíritas para não nos iludir com falsas teorias como esta de que trata o livro citado de Humberto de Campos/Chico Xavier. Partindo desta falsa premissa, chegamos ao nível de coletividades menores, como as casas espíritas, onde seus dirigentes, ao seguirem padrões de conduta desvirtuados dos princípios do Espiritismo, afirmam, como desculpa, que estão sendo “guiados pela Espiritualidade Superior da casa” e ela irá corrigir todos os possíveis erros cometidos. São guiados sim, mas por espíritos afins, que se apresentam muitas vezes no lugar dos espíritos patronos da casa, que se afastaram quando não eram mais ouvidos.

No mesmo texto, Kardec faz a correlação entre povos e grupos de homens, como o exemplo que demos acima, das casas espíritas, pois o exemplo nos é mais próximo, e finaliza: Estudando os costumes dos povos ou de toda reunião de homens, é fácil de se fazer uma ideia da população oculta que se imiscui nos seus pensamentos e nas suas ações”. (Kardec, 1857, p. 179, destaque nosso).

O deus Jano ou Janus

Podemos nos inspirar no deus Janus da mitologia greco-romana, das mudanças e transições, e do qual veio o nome do primeiro mês do ano  janeiro para iniciarmos um novo tempo de conhecimento do Espiritismo no Brasil, onde o seu estudo sério e profundo reviverá os objetivos de seus criadores, como ciência e filosofia, tendo a capacidade de auxiliar verdadeiramente o progresso moral dos homens.

Bibliografia: Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho – Humberto de Campos/Chico Xavier.

O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questão 551 – comentários.

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