DEDICAÇÃO AO ESTUDO ESPÍRITA

Nelson M M Cardoso
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Há necessidade de estudo para tudo que fazemos na vida. Desde as atividades mais modestas onde o estudo se resume ao aprendizado de técnicas simples e transmitidas por via oral. À medida que a busca do conhecimento se intensifica, o estudo se aprofunda. À exceção dos espíritos precoces, todos fazem um caminho mais ou menos longo de preparação para aquisição do saber, dentro do objetivo que desejem alcançar. Mesmo nas religiões onde o conhecimento é limitado aos dogmas estabelecidos, o estudo restrito prepara o crente para exercer as suas atividades ritualísticas e decorar os textos sagrados, o que não ocorre da noite para o dia.

O Espiritismo, que é uma filosofia de cunho moral, prescinde da ciência para explicar os fenômenos de comunicação com os ditos mortos de forma lógica e natural; como toda ciência, ele precisa de estudos sempre atualizados e de adeptos que estejam se preparando constantemente. Como uma disciplina escolar, é necessário partir do início para que não seja apenas um estudo genérico para divertir curiosos. O professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, posteriormente Allan Kardec, foi um dos mais respeitados pedagogos de seu tempo, desenvolveu as suas pesquisas comparativas com os espíritos de forma metódica e aplicada, obtendo destes explicações de bom senso para relevantes questões.

Para destacar a importância do estudo, Kardec escreve na introdução da primeira obra da doutrina espírita: “Acrescentemos que o estudo de uma doutrina, qual a doutrina espírita, que nos lança de súbito numa ordem de coisas tão nova quão grande, só pode ser feito com utilidade por homens sérios, perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado. Não sabemos como dar esses qualificativos aos que julgam a priori, levianamente, sem tudo ter visto; que não imprimem a seus estudos a continuidade, a regularidade e o recolhimento indispensáveis. Ainda menos saberíamos dá-los a alguns que, para não decaírem da reputação de homens de espírito, se afadigam por achar um lado burlesco nas coisas mais verdadeiras, ou tidas como tais por pessoas cujo saber, caráter e convicções lhes dão direito à consideração de quem quer que se preze de bem-educado. Abstenham-se, portanto, os que entendem não serem dignos de sua atenção os fatos. Ninguém pensa em lhes violentar a crença; concordem, porém, em respeitar a dos outros.

O que caracteriza um estudo sério é a continuidade que se lhe dá. Será de admirar que muitas vezes não se obtenha nenhuma resposta sensata a questões de si mesmas graves, quando propostas ao acaso e à queima-roupa, em meio de uma aluvião de outras extravagantes? Ademais, sucede frequentemente que, por complexa, uma questão, para ser elucidada, exige a solução de outras preliminares ou complementares. Quem deseje tornar-se versado numa ciência tem que a estudar metodicamente, começando pelo princípio e acompanhando o encadeamento e o desenvolvimento das ideias. Que adiantará àquele que, ao acaso, dirigir a um cientista perguntas acerca de uma ciência cujas primeiras palavras ignore? Poderá o próprio cientista, por maior que seja a sua boa-vontade, dar-lhe resposta satisfatória? A resposta isolada, que der, será forçosamente incompleta e quase sempre, por isso mesmo, ininteligível, ou parecerá absurda e contraditória. O mesmo ocorre em nossas relações com os Espíritos. Quem quiser com eles instruir-se tem que com eles fazer um curso; mas, exatamente como se procede entre nós deverá escolher seus professores e trabalhar com assiduidade”. (KARDEC, 1857 – Introdução VIII), (destaque nosso).

Ao demonstrar a sua preocupação com o estudo trivial e inconstante, mais uma vez Kardec lança o seu olhar para o futuro, fazendo previsões que hoje infelizmente ocorrem na maioria dos grupos de estudos; e sobre as consequências possíveis desta leviandade, ele nos fala: “Dissemos que os Espíritos superiores somente às sessões sérias acorrem, sobretudo às em que reina perfeita comunhão de pensamentos e de sentimentos para o bem. A leviandade e as questões ociosas os afastam, como, entre os homens, afastam as pessoas sensatas; o campo fica, então, livre à turba dos Espíritos mentirosos e frívolos, sempre à espreita de ocasiões propícias para zombarem de nós e se divertirem à nossa custa. Que é o que se dará com uma questão grave em reuniões de tal ordem? Será respondida; mas, por quem? Acontece como se a um bando de levianos, que estejam a divertir-se, propusésseis estas questões: Que é a alma? Que é a morte? e outras tão recreativas quanto essas. Se quereis respostas sérias, haveis de comportar-vos com toda a seriedade, na mais ampla acepção do termo, e de preencher todas as condições reclamadas. Só assim obtereis grandes coisas. Sede, além do mais, laboriosos e perseverantes nos vossos estudos, sem o que os Espíritos superiores vos abandonarão, como faz um professor com os discípulos negligentes”. (KARDEC, 1857, Introdução VIII), (destaque nosso).

A criação de um grupo de estudos sem a aplicação de um método criterioso, não levará, portanto, o neófito ao conhecimento indispensável do Espiritismo; além das obras básicas, existem livros de importantes pesquisadores que se seguiram ao tempo, após Kardec, como Leon Denis e Ernesto Bozzano, podendo-se encontrar vasto material qualificado para ser preparado e aplicado. A ideia de fazer grupos de estudos para livros psicografados por espíritos que Kardec chama de sistemáticos, cujo conteúdo é fantasioso, religioso e pretensamente psicológico ou grupos para estudos bíblicos, distanciam os estudantes dos princípios fundamentais do Espiritismo.

A formação de médiuns e de outros tarefeiros na casa espírita, mereceu de Kardec um alerta especial: “Um curso regular de Espiritismo seria professado com o fim de desenvolver os princípios da Ciência e de difundir o gosto pelos estudos sérios. Esse curso teria a vantagem de fundar a unidade de princípios, de fazer adeptos esclarecidos, capazes de espalhar as ideias espíritas e de desenvolver grande número de médiuns. Considero esse curso como de natureza a exercer capital influência sobre o futuro do Espiritismo e sobre suas consequências”. (KARDEC, 1890 – Projeto 1868 – ENSINAMENTO ESPÍRITA).

Se desejamos reviver o Espiritismo nas bases em que foi revelado pelos espíritos na obra qualificada de Kardec, é preciso abandonar os métodos atuais de estudos que estão ocorrendo nos centros espíritas e formar equipes de futuros coordenadores para estudar com bastante atenção as obras básicas da doutrina espírita; para somente então preparar-se um roteiro único visando instruir futuros grupos de estudo. Para a formação inicial desses grupos, cada candidato passará por uma seleção prévia onde vai se analisar o seu verdadeiro interesse, seja ele iniciante ou tarefeiro da casa.

A casa espírita irá reduzir seu quadro humano? Com certeza bastante, pois o estudo espírita não pode ser uma forma de tratamento à pessoas em tratamento e nem servir de pouso à aves curiosas. Aliás, o Espiritismo não se presta para qualquer pessoa aderir, como se entra em uma igreja. Poderão chegar pessoas com o desejo de conhecer o Espiritismo, e para esses (e para todos nós) Kardec escreveu o livro “O que é o Espiritismo”.

As sugestões acima não são apenas minhas, mas em grande parte constam das instruções dos espíritos, através de Kardec, para todas as sociedades espíritas que seriam criadas; estão em O Livro dos Médiuns, O que é o Espiritismo, Obras Póstumas, Viagem Espírita de 1862 e na Revista Espírita. A casa espírita não deve se transformar em local onde visitantes criam expectativas de curas e cujos tarefeiros despreparados os recebe com um discurso proselitista contendo inclusive algumas promessas de cura pela fé e pela frequência no ambiente, como se este fosse mágico. Para quem busca a cura mas não tem interesse em conhecer em profundidade a doutrina espírita, existem outros caminhos para se seguir.

Bibliografia: O Livro dos Espíritos, Allan Kardec.

Obras Póstumas, Allan Kardec.

Quem foi Anna Beckwell?

Amiga do casal Rivail, a inglesa Anna Beckwell frequentou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, fez a primeira tradução oficial de O Livro dos Espíritos para o inglês, incluindo uma biografia do autor, escrevendo na Revista Espírita de março de 1869, o artigo: “O Espiritismo em toda parte“. Foi em sua residencia, em Londres, que Kardec enviou uma mensagem em 4 de outubro de 1869, desencarnado, e que foi publicada na Revista Espírita de novembro daquele ano. A mensagem será mostrada aqui, bem como uma pequena biografia de Anna Beckwell, em um próximo post. Leia agora um trecho da biografia de Kardec, por Anna Beckwell:

“Pessoalmente Allan Kardec era de estatura média. Compleição forte, com uma cabeça grande, redonda, maciça, feições bem marcadas, olhos pardos, claros, mais se assemelhando a um alemão do que a um francês. Enérgico e perseverante, mas de temperamento calmo, cauteloso e não imaginoso até a frieza, incrédulo por natureza e por educação, pensador seguro e lógico, e eminentemente prático no pensamento e na ação. Era igualmente emancipado do misticismo e do entusiasmo… Grave, lento no falar, modesto nas maneiras, embora não lhe faltasse certa calma dignidade, resultante da seriedade e da segurança mental, que eram traços distintos de seu caráter. Nem provocava nem evitava a discussão, mas nunca fazia voluntariamente observações sobre o assunto a que havia devotado toda a sua vida, recebia com afabilidade os inúmeros visitantes de toda a parte do mundo que vinham conversar com ele a respeito dos pontos de vista nos quais o reconheciam um expoente, respondendo às perguntas e objeções, explanando as dificuldades, e dando informações a todos os investigadores sérios, com os quais falava com liberdade e animação, de rosto ocasionalmente iluminado por um sorriso genial e agradável, conquanto tal fosse a sua habitual seriedade de conduta que nunca se lhe ouvia uma gargalhada.”

Fonte: Enciclopédia Espírita On Line. http://www.luzespirita.org.br

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