NATIVIDADE E A FESTA DE NATAL

Nelson Murilo Madeira Cardoso

Cristãos festejam em 25 de dezembro o dia de nascimento de Jesus, o Cristo. Eles vivem suas crenças baseadas nos relatos escritos na Bíblia Cristã e existentes no relato tradicional do Natal; três desses relatos não se encontram em nenhuma parte do Novo Testamento – José, pai de Jesus, como um velho (Proto-evangelho de Tiago, o Irmão do Senhor), a presença de animais, o boi e o burro no estábulo ao lado de Jesus (emprestada do profeta Isaías 1,3) e  a terceira, os visitantes do Oriente que seguiram a estrela de Belém serem reis (passagem extraída de Isaías 60,3) – a tais relatos são acrescentadas as histórias dos Evangelhos da Infância em Mateus e Lucas. Nos dois evangelhos –  pois nada existe nos de Marcos e João – há uma grande diferença de narrativas e poucos pontos convergentes, sem nenhuma possibilidade que os mesmos se completem.

Para tentar compreender a data escolhida para o Natal procuramos os estudos do respeitado professor Geza Vermes: “[…] a probabilidade de Jesus ter nascido em 25 de dezembro é de 1 em 365 (ou 366, em anos bissextos). Esta data foi inventada pela igreja ocidental no século IV sob o imperador Constantino, como forma de substituir o festival pagão do Sol Invicto; para sermos exatos, seu primeiro registro em um calendário romano ocorre em 334 d.C.(*)” (VERMES, p.17, ed. 2007).

Verificamos também que houve uma condução dos fatos ocorridos, tanto no relato tradicional quanto nos evangelhos, para se alinhar o nascimento de Jesus às previsões de antigos profetas judeus. Esta construção foi exclusiva da Igreja Cristã e elaborada propositalmente para transformar Jesus no messias esperado por aquele povo e mais adiante, com o insucesso desta investida,  elevá-lo à condição de salvador de toda a humanidade. O ambiente da Natividade foi preparado com a intensão de dar veracidade ao arranjo. Na concepção de Maria ocorre a intervenção milagrosa do Espírito Santo (Mt 1,20), como relata Vermes: “Na verdade, o nascimento virginal é o cumprimento de uma profecia de Isaías (Mt 1,22-23). (…) A chegada de Jesus a este mundo é marcada pela aparição de uma estrela no horizonte que guia os ‘magos’ (sábios) do oriente até Jerusalém (Mt 2,1-2). Estes se dirigem ao palácio real para descobrir onde se encontra o recém-nascido rei dos judeus (Mt 2,2). Herodes, alarmado, consulta os chefes dos sacerdotes judeus, que identificam Belém como o lugar previsto onde nasceria o esperado Messias, de acordo com uma profecia de Miquéias 5,2 (Mt 2,4-6)” (VERMES, p. 19/20, ed. 2007). Convém enfocar, que ao ler esses profetas na Bíblia Hebraica, verifica-se que eles não se referiam a Jesus e sim à Israel. Quanto à eterna virgindade de Maria, foi um erro na adaptação ao traduzir o texto de Isaías para o grego, do autor de Mateus.

Continuando a leitura dos evangelhos, encontramos uma verdadeira maratona de fuga para poder encaixar Jesus Cristo nas profecias: José é orientado por um anjo em sonho “para levar Jesus sem demora ao Egito, a fim de escapar ao massacre das crianças de Belém decretado pelo invejoso e irado Herodes, em cumprimento da profecia a respeito de Raquel, a mulher do patriarca Jacó, que lamenta a perda de seus filhos em Jeremias 31,15 (Mt 2,13-18). Com a morte do rei, o mesmo anjo, em um penúltimo sonho, ordena que José volte para a terra de Israel, realizando com isso, outra previsão (Oséias 11,1), que anuncia que Deus chamará seu filho do Egito (Mt 2,19-21). Contudo, quando José fica sabendo que Arquelau é o sucessor de Herodes em Jerusalém, um derradeiro sonho altera a instrução anterior e o orienta para fixar residência na Galileia. Uma profecia não identificada, ‘Ele será chamado Nazareno’, é citada para explicar a associação de Jesus com Nazaré (Mt 2,22-23)” (VERMES, pag. 20, ed.2007). Não havia à época um bom sistema de comunicação e de espionagem para evitar tanta correria! Com motivo diferente (O censo ordenado pelo imperador Augusto), Lucas também transporta em sua narrativa a família divina para Belém onde em seguida retornam a Nazaré, sem haver necessidade de ir ao Egito. Vermes conclui dizendo que “Mateus e Lucas só raramente fornecem as mesmas informações, na mesma ordem. Por vezes os temas não são diferentes em substancia, porém com maior frequência os dois evangelistas apresentam dados totalmente independentes” (VERMES, p. 21/22, ed. 2007). O professor chega a afirmar que uma abordagem paralela ou “sinótica” dos relatos do nascimento, nos dois evangelhos, é inviável.

No contexto histórico das narrativas, as datas não conferem ou os fatos não existiram. O censo descrito por Lucas não existiu. “O mais próximo que chegamos de tal conceito é um edito de Augusto instruindo os governadores provinciais a compilar uma lista de cidadãos romanos (e José e Maria não se incluíam nessa classe), porém, este foi emitido no ano 6, dez anos após a morte de Herodes, o Grande, e por conseguinte mais de dez anos após a presumida data de nascimento de Jesus.” (VERMES, p. 101, ed. 2007).

O massacre de Herodes contra as crianças de Belém, foi criação de Mateus inspirado no fato ocorrido à época em que o povo hebreu estava no Egito e que por ordem do faraó houve a matança das crianças judias, visando atingir Moises. A ideia de Mateus seria a de transformar o retrato de Jesus “com os traços e cores do pequeno Moises, prepara o quadro do conceito final de Mateus sobre Jesus como Revelador da nova lei e Redentor do mundo” (VERMES, p. 133, ed. 2007).

Poderíamos nos estender acrescentando outro estudos e evidencias percebidas pelos exegetas (intérpretes da Bíblia), mas não é o nosso objetivo agora. Desejamos, com essa análise pontual sobre a Natividade, permitir ao leitor amigo refletir sobre o livro sagrado dos cristãos, a Bíblia, visto como tendo sido escrito sob a inspiração de Deus, e portanto, sendo cada palavra nele escrito, inquestionável. É difícil acreditar nesta afirmativa, diante de tantos erros existentes nos seus textos. O professor Bart Ehrman, especialista em Novo Testamento e cristianismo primitivo, cita um outro aspecto que modificou esses textos: os copistas. Até o século XV, com a invenção da máquina tipográfica por Gutenberg, os textos eram copiados à mão. Nos primeiros séculos, os copistas eram pessoas que por vezes não sabiam escrever e apenas desenhavam as letras. Erhrman cita: “Por exemplo, Orígenes, um padre da Igreja do século III, uma vez registrou a seguinte queixa acerca das cópias dos Evangelhos de que dispunha: As diferenças entre os manuscritos se tornam gritantes, ou pela negligência de algum copista ou pela audácia perversa de outros; ou eles descuidam de verificar o que transcreveram ou, no processo de verificação, acrescentam ou apagam trechos, como mais lhes agrade”. (**) (EHRMAN, posição 974, ed. 2007).

Allan Kardec percebia a necessidade de se acompanhar o progresso científico e que para se atingir este objetivo, é necessário corrigir conceitos existentes: “Um último caráter da revelação espírita, a ressaltar das condições mesmas em que ela se produz, é que, apoiando-se em fatos, tem que ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Pela sua substância, alia-se à Ciência que, sendo a exposição das leis da Natureza, com relação a certa ordem de fatos, não pode ser contrária às leis de Deus, autor daquelas leis. As descobertas que a Ciência realiza, longe de o rebaixarem, glorificam a Deus; unicamente destroem o que os homens edificaram sobre as falsas ideias que formaram de Deus”. (KARDEC, capítulo I, item 55, 1868).

Para não se perder a razão para uma festividade que pode e deve ser fraterna, sugiro no futuro, transformar esta data de 25 de dezembro, em uma homenagem ao solstício de verão no hemisfério sul e de inverno no hemisfério norte, deixando a mensagem que Jesus nos trouxe do amor incondicional, ser levada para todos os dias do ano, assim como as mensagens de Buda, Krishna, Sócrates, Platão, Ghandi, Luter King, Dalai Lama e outros espíritos que vieram impulsionar moralmente a humanidade.

FELIZ COMEMORAÇÃO, LEITOR AMIGO !

(*) Segundo a teoria do estudioso alemão do século XIX Hermann Usener (Das Weihnachnachtsfest, 1889; 2ª ed.,1911) e desenvolvida pelo beneditino belga dom Bernard Botte (Les origines de la Noel et de l’epiphanie, 1932), foi atribuída à Natividade de Cristo a data do solstício de inverno no hemisfério norte, dia em que os cultuadores do deus persa Mitra celebravam o natalício do sol.

(**) Comentário a Mateus 15, 14, apud METZGER, Bruce M. “Explicit references in the Works of Origen to variant readings in New Testament manuscripts. In: NEVILLE, J.: THOMSON, Robert W. (Orgs.). Biblical and Patristic Studiesw in Memory of Robert Pierce Casey. Freiburg: Herder, 1968. p. 78-79.

BIBLIOGRAFIA: Natividade – Geza Vermes.

                        O que Jesus Disse? O que Jesus não disse? – Edição Kindle, Amazon – Bart Ehrman.

                        A Gênese – Allan Kardec.

2 comentários em “NATIVIDADE E A FESTA DE NATAL

    1. Luciane, percebemos que as pessoas escolhem as crenças em conceitos fabricados por homens inteligentes como se esses conceitos viessem de um deus, desde o paganismo. O cristianismo nada acrescentou de progresso moral à humanidade. Pelo contrário, influiu no seu atraso. E estão tentando transformar o Espiritismo, com sua proposta de elevação moral, em uma sub-religião cristã.

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