Paulo: o criador do Cristo da fé?

Nelson M M Cardoso

Se você tem um copo cheio com água e tenta colocar mais, o copo irá transbordar. Não há espaço para mais água. É necessário, primeiro, esvaziar o copo para depois poder receber a água nova(LISZT RANGEL, 2019).

O conhecimento novo, quando se afronta com as certezas que trazemos há muitos anos, não consegue conviver no mesmo espaço da nossa mente. É preciso esvaziar, ou seja, desconstruir o que se fixou. Para isso, é preciso ter iniciado algum questionamento, nem que tenha sido mínimo, para permitir a desconstrução e iniciar, então, em terreno limpo, a construção das novas ideias. Toda desconstrução dói! Perceber aquilo que trouxemos como crença cair ao chão requer forte desejo de mudança. O estudo do Novo Testamento, feito pelos pesquisadores sérios, comprometidos apenas com a busca da verdade, ficou mais intensa a partir de descobertas arqueológicas e profundas análises dos textos bíblicos, usando o método de comparação entre os fatos narrados nos três evangelhos sinópticos, nos atos dos apóstolos e no evangelho dito de João; também há comparação com os textos judaicos e com os textos de historiadores da época; é um trabalho científico.

Mas para quem não abre mão da divinização da Bíblia como escrita totalmente sob a inspiração de Deus, as descobertas e análises feitas nada representam pois a crença não aceita a razão ou a lógica. Se este é o caso do amigo leitor, pedimos desculpas, pois não desejamos colocar “vinho novo em odres velhos, caso contrário, estouram os odres, o vinho se entorna e os odres ficam inutilizados.” (Mateus 9:14-17, Marcos 2:18-22, Lucas 5: 33-39).

UM BREVE ESTUDO DOS PRINCÍPIOS DE PAULO DE TARSO

Dos vinte e sete livros que compõem o Novo Testamento, a maioria é de Paulo de Tarso, sem contar as citações ao seu respeito em “Atos dos Apóstolos”; são treze cartas dirigidas às diversas comunidades, embora apenas sete sejam atribuídas a ele. As demais foram escritas por seus discípulos, posteriormente.



Reconstituição facial de Paulo feita pelos especialistas do LKA Renânia do Norte-Vestfália, Alemanha

Paulo passou em um instante de perseguidor a seguidor entusiasta. Segundo narrou em Gálatas 1:16, Deus “houve por bem revelar em mim seu filho“. Ele se considerava um apóstolo, como afirmou em 1Cor1:1 – um “apostolo de Jesus Cristo” – e em Rm 1:1 – “servo de Jesus Cristo, chamado para ser seu apóstolo“, embora “não teve contato com o Jesus terreno; não ouviu o seu ensinamento ou experimentou a sua presença e influência espiritual” (VERMES, 2000). Ao contrário do evangelho atribuído a João, Paulo não afirmava que Jesus teria uma origem divina, mas foi escolhido por Deus, após a crucificação e posterior ressurreição entre os mortos. “Paulo pode ser visto como o pai da figura de Jesus que viria a dominar a cristandade europeia ocidental” (VERMES, 2000) e “[…] o criador de todo o sistema doutrinário e eclesiástico pressuposto em suas epístolas” (The Oxford Dictionary of the Christian Church).

Não interessa a Paulo a definição do Cristo como Messias. A qualificação do Cristo – no original grego como “o ungido” – foi transformada para os seus seguidores gentios, que não compreendiam a esperança messiânica do judaísmo, para uma figura de salvador numa criação bem particular, através de sua morte e ressurreição.

Para compreendermos a total desassociação da mensagem de Jesus com a figura do Cristo de Paulo, que pode ter ocorrido para envolver o mundo gentio para o surgimento de uma nova religião, vamos citar o ensinamento de Paulo entrando em choque com o dito de Jesus; ao mesmo tempo ao se designar o Cristo como intermediário de Deus, Paulo, que é a referência maior dos cristãos protestantes, contradiz toda a pregação destes, para não haver intermediários entre Deus e os homens. Busquemos analisar o que foi dito por Paulo:

“SEDE MEUS IMITADORES COMO EU MESMO SOU DE CRISTO” – Paulo (1Cor 11:1).

Esta fala de Paulo parece estar muito distante do que teria sido expressado por Jesus:

“PORTANTO DEVEIS SER PERFEITOS COMO O VOSSO PAI CELESTE É PERFEITO” (Mt 5:48).

Na recomendação acima citada de Paulo, na primeira carta aos Corintios, ele se tornou o primeiro cristão a introduzir modelos, mediadores e intercessores entre os crentes e Deus!

Esses intermediários foram Cristo e Paulo, e mais tarde (sob inspiração joanina) Maria, a mãe de Jesus, que em alguns quadrantes populares do cristianismo tendeu a ser tratada como uma quase-deusa, quase como uma quarta pessoa de uma santíssima quaternidade. Os mártires juntaram-se a eles nos primeiros séculos da igreja, e depois um número sempre crescente de santos. Sobre estes últimos, o Papa João Paulo II sozinho logrou acrescentar cerca de mil novos nomes ao seu registro, transformando o Vaticano, como observado num chiste, numa fábrica de beatificações e canonizações. Incidentalmente, de certo modo é engraçado que São Paulo o baluarte da Reforma Protestante (certamente não devemos denominá-lo o seu santo padroeiro!), pareça ser responsável pela legitimação dos intermediários, levando àquele ódio arrebatado dos protestantes ao culto dos santos, e acima de todos, à ‘mariolatria’ por eles considerada como a pior corrupção do ‘papismo'”.(VERMES, 2000, pág. 124/125).
As beatificações e canonizações continuam sendo feitas e hoje chegam com mais intensidade no “país-coração do mundo, pátria do evangelho”com os novos decretos do Papa Francisco. Provavelmente para designar-se um dia para cada santo, hoje deveríamos ter uns 1200 dias no ano! Porém o mais interessante desta contradição é revelar que tanto os cristão católicos quanto os cristãos protestantes, mantém crenças absolutamente idênticas, embora se odiando fraternalmente.
Já no pseudo-espiritismo cristão, as correntes se dividem e o desafeto fraterno passa à existir entre elas mesmas!

Lembramos ainda que foi de Paulo o drama misterioso e monumental da salvação, começando com a criação de Adão e terminando na glorificação final do Senhor Jesus. Sobre isto, nos fala Geza Vermes: “Deste drama misterioso depende a doutrina do pecado e da absolvição originais (isto é, como o pecado é substituído pela virtude); é dele que procedem tanto o catolicismo na sequencia de Agostinho como o protestantismo no molde luterano.” (VERMES, 2000, pág. 114).

Em nossa bastante resumida análise da mensagem de Paulo de Tarso, gostaríamos de frisar toda a criação mitológica que foi arquitetada por ele e que serve, até hoje, de base para a doutrina que comanda todas as igrejas cristãs, católicas e protestantes. Ao contrário do Espiritismo, que não foi concebido por homens, mas por Espíritos diversos, sem nenhum destaque de nomes em especial, e analisado à luz da razão por Allan Kardec, sempre aberta as novas descobertas científicas e onde prevalece como absolutas apenas as leis naturais, essa doutrina cristã é criada por mentes humanas, segundo nosso artigo foi a de Paulo, tornando uma verdade absoluta o que ele e outras mentes inteligentes, como as das pessoas que escreveram e assinaram como João Evangelista, já que este era analfabeto, sem cultura grega e galileu, arquitetaram; e que por decretos humanos, são intocáveis há quase dois milênios.

Referência: “As Várias Faces de Jesus” – Geza Vermes.

Os Evangelhos atribuídos à Marcos, Mateus, Lucas e João.

The Oxford Dictionary of the Christian Church – [Dicionário Oxford da Igreja Cristã].

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