PESQUISADORES E CIENTISTAS CONTRIBUEM PARA O ESPIRITISMO.

AS PESQUISAS CONTINUARAM: BOZZANO E A CRISE DA MORTE.

Nelson M.M. Cardoso

No preâmbulo do livro “O QUE É O ESPIRITISMO”, Kardec traz uma resposta sumária ao titulo do livro, afirmando que: “O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as consequências morais que decorrem dessas relações.” e conclui: “O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal.” (KARDEC, 1859). Sempre de acordo com esta definição, os Espíritos trouxeram revelações importantes e de forma contínua, pela análise da razão e do bom senso feita por Allan Kardec. No Livro “O Céu e o Inferno”, Kardec dedicou a segunda parte da obra a “numerosos exemplos sobre a situação real da alma durante e após a morte”. (KARDEC, 1865). Nos anos seguintes do século XIX e do século XX, essas relações entre o mundo corporal e o espiritual foram bastante pesquisadas por nomes reconhecidos da ciência, como Alexandre Aksakof, William Crookes, Cesare Lombroso, Gabriel Delanne, Arthur Conan Doyle, Ernesto Bozzano, Gustav Geley e, mais recentemente, Ian Steveson e Hermínio C. de Miranda.

Bem diferente de crenças religiosas e dogmáticas que desfiguraram o Espiritismo no Brasil, esses homens fizeram estudos compatíveis com suas capacidades, laureados como cientistas e pesquisadores renomados. Essas pesquisas foram feitas partindo-se da dúvida e da intensa experimentação para eliminar o risco de fraudes e procurando uma confirmação real, mantendo, assim, a linha de conduta científica vivida por Kardec.

Vamos transcrever aqui um capítulo do livro “A CRISE DA MORTE”, de Ernesto Bozzano. Na sua introdução, o autor especifica: “…todos os fatos, que citarei, de defuntos que narram sua entrada no meio espiritual, são tirados de coleções de ‘revelações transcendentais’ publicadas na Inglaterra e nos Estados Unidos. ‘Por quê? – perguntar-me-ão os leitores – esse exclusivismo puramente anglo-saxônio?’ Responderei que por uma só razão, absoluta- mente peremptória: não há na França, na Alemanha, na Itália, na Espanha, em Portugal, coleções de ‘revelações transcendentais’ sob a forma de tratados, ou de narrativas continuadas, orgânicas, divididas em capítulos, ditadas por uma só personalidade mediúnica e confirmadas por provas excelentes de identidade dos defuntos que se comunicaram. Nas poucas coleções que hão aparecido em as nações acima citadas – coleções constituídas de curtas mensagens – obtidas pelo sistema dos interrogatórios dirigidos a uma multidão de “Espíritos”, não se encontram episódios concernentes à crise da morte, se excetuarmos o conhecido livro de Allan Kardec O Céu e o Inferno, em o qual se podem ler três ou quatro episódios desta espécie. Mas, se bem se encontrem neles algumas concordâncias fundamentais com as narrações dos outros Espíritos que se comunicam, esses episódios são de natureza muito vaga e geral, para poderem ser tomados em consideração, numa obra de análise comparada”. (BOZZANO, 1924). Vejo nessa justificativa o critério cuidadoso do autor para não trazer os casos em forma de romances ou de opiniões pessoais. Para trazer o primeiro caso do livro, não utilizei nenhum critério específico, assim poderia ser qualquer outro dos dezessete constantes do livro, tão esclarecedores que são. Vamos lá:

PRIMEIRO CASO

“Extraio este fato de uma obra intitulada Letters and Tracts on Spiritualism, obra que contém os artigos e as monografias publicadas pelo juiz Edmonds, de 1854 a 1874. Sabe-se que Edmonds era notável médium psicógrafo, falante e vidente. Alguns meses depois da morte acidental de seu confrade, o juiz Peckam, a quem ele muito estimava, deu-se o caso de Edmonds escrever longa mensagem, em que seu amigo morto referia as circunstâncias de sua morte. As passagens seguintes são tiradas da mensagem em questão: ‘Se houvera podido escolher a maneira de desencarnar, certamente não teria preferido a que o destino me impôs. Todavia, presentemente não me queixo do que me aconteceu, dada a natureza maravilhosa da nova existência que se abriu subitamente diante de mim.

No momento da morte, revi, como num panorama, os acontecimentos de toda a minha existência. Todas as cenas, todas as ações que eu praticara passaram ante o meu olhar, como se se houvessem gravado na minha mente, em fórmulas luminosas. Nem um só dos meus amigos, desde a minha infância até a morte, faltou à chamada. Na ocasião em que mergulhei no mar, tendo nos braços minha mulher, apareceram-me meu pai e minha mãe e foi esta quem me tirou da água, mostrando uma energia cuja natureza só agora compreendo. Não me lembro de ter sofrido. Quando imergi nas águas, não experimentei sensação alguma de medo, nem mesmo de frio, ou de asfixia. Não me recordo de ter ouvido o barulho das ondas a se quebrarem sobre as nossas cabeças. Desprendi-me do corpo quase sem me aperceber disso e, abraçado sempre à minha mulher, segui minha mãe, que viera para nos acolher e guiar.

O primeiro sentimento penoso só me assaltou quando dirigi o pensamento para o meu caro irmão; porém, minha mãe, percebendo-me a inquietação, logo ponderou: ‘Teu irmão também não tardará a estar conosco’. A partir desse instante, todo sentimento penoso desapareceu de meu espírito. Pensava na cena dramática que acabara de viver, unicamente com o fito de levar socorro aos meus companheiros de desgraça. Logo, entretanto, vi que estavam salvos das águas, do mesmo modo pelo qual eu o fora. Todos os objetos me pareciam tão reais à volta de mim que, se não fosse a presença de tantas pessoas que sabia mortas, teria corrido para junto dos náufragos.

Quis informar-te de tudo isso a fim de que possas mandar uma palavra de consolação aos que imaginam que os que lhes são caros e que desapareceram comigo sofreram agonias terríveis, ao se verem presas da morte. Não há palavras que te possam descrever a felicidade que experimentei, quando vi que vinham ao meu encontro ora uma, ora outra das pessoas a quem mais amei na Terra e que todas acudiam a me dar as boas-vindas nas esferas dos imortais. Não tendo estado enfermo e não tendo sofrido, fácil me foi adaptar-me imediatamente às novas condições de existência…’

Com esta última observação, o Espírito alude a uma circunstância que concorda com as informações cumulativas, obtidas sobre o mesmo assunto, por grande número de outras personalidades mediúnicas, isto é, que só nos casos excepcionais de mortes imprevistas, sem sofrimentos e combinadas com estados serenos d’alma, é possível atravessar o Espírito a crise da desencarnação sem haver necessidade de ficar submetido a um período mais ou menos longo de sono reparador. Ao contrário, nos casos de morte consecutiva a longa enfermidade, em idade avançada, ou com a inteligência absorvida por preocupações mundanas, ou oprimida pelo terror da morte, ou, ainda, apenas, mas firmemente, convencida da aniquilação final, os Espíritos estariam sujeitos a um período mais ou menos prolongado de inconsciência.

Ponderarei que estas observações já se referem a um desses ‘detalhes secundários’ a que aludi em começo e nos quais se notam desacordos aparentes, que, na realidade, se resumem em concordâncias reguladas por uma lei geral, que necessariamente se manifesta por modos muito diferentes, segundo a personalidade dos defuntos e as condições espirituais tão diversas em que se acham no momento da desencarnação.

Cumpre-se atente, além disso, no detalhe interessante de dizer o morto ter tido, no momento da morte, a ‘visão panorâmica’ de todos os acontecimentos de sua existência. Sabe-se que este fenômeno é familiar aos psicólogos; foi referido muitas vezes por pessoas salvas de naufrágios (publiquei a respeito uma longa monografia nesta mesma revista, no correr dos anos de 1922- 1923). Ora, no caso relatado pelo juiz Edmonds, como em muitos outros casos do mesmo gênero, assistimos ao fato importante de um morto afirmar haver passado, a seu turno, pela experiência da ‘visão panorâmica’, de que falam os náufragos salvos da morte. Isto se torna teoricamente importante, desde que se tenha em mente que o juiz Edmonds não conhecia a existência dos fenômenos dessa espécie, ignorados pelos psicólogos de sua época. Ele, pois, não podia autossugestionar-se nesse sentido, o que constitui boa prova a favor da origem, estranha ao médium, da mensagem de que se trata.

Notarei, finalmente, que neste episódio, ocorrido nos primeiros tempos das manifestações mediúnicas, já se observam muitos detalhes fundamentais, concernentes aos processos da desencarnação do Espírito, os quais serão depois constantemente confirmados, em todas as revelações do mesmo gênero. Assim, por exemplo, o detalhe de o Espírito não perceber, ou quase não perceber, que se separara do corpo e, ainda menos, que se achava num meio espiritual. Também o outro detalhe de o Espírito se encontrar com uma forma humana e se ver cercado de um meio terrestre, ou quase terrestre, de pensar que se exprime de viva voz como dantes e perceber, como antes, as palavras dos demais. Assinalemos ainda outro detalhe: o de achar o Espírito desencarnado, ao chegar ao limiar da nova existência, para o acolherem e guiarem, outros Espíritos de mortos, que são geralmente seus parentes mais próximos, mas que também podem ser seus mais caros amigos, ou os ‘Espíritos-guias’.

Detalhe fundamental também este que, com os outros, será confirmado por todas as revelações transcendentais sucessivas, até aos nossos dias, salvo sempre circunstâncias mais ou menos especiais de mortos moralmente inferiores e degradados, aos quais a inexorável ‘lei de afinidade’ (lei físico-psíquica, irresistível em seu poder fatal de atração dos semelhantes) prepararia condições de acolhimento espiritual muito diferentes das com que deparam os Espíritos envolvidos” (BOZZANO, 1924).

Bibliografia: O que é o Espiritismo, Allan Kardec. IDE Editora.

O céu e o Inferno, Allan Kardec. IDE Editora.

A crise da Morte, Ernesto Bozzano. Editora FEB.

Quem foi Ernesto Bozzano?

Segundo o Wikipédia, ele foi professor de filosofia da ciência na Universidade de Turim e pesquisador espírita italiano. Destacou-se como um contribuinte ativo na literatura italiana e francesa sobre fenômenos paranormais a partir da virada do século XIX até o início dos anos 1940. Nasceu em Génova, na Itália, em 9 de janeiro de 1862 e faleceu na mesma cidade de seu nascedouro, ao dia 24 de junho no ano de 1943. Algumas de duas obras principais, sendo algumas publicações póstumas, foram:

Obras principais: (alguns dos títulos listados são publicações póstumas)
  • Hipótese espírita e teoria científica, 1903;
  • Dos casos de identificação espírita, 1909;
  • Metapsíquica Humana, 1927;
  • A Crise da Morte, 1924;
  • Investigação sobre as manifestações supranormais, 1931;
  • Xenoglossia, 1933;
  • Desdobramento – Fenômenos de Bilocação, 1934;
  • Dos fenômenos de possessão, 1936;
  • Animismo ou espiritismo?, 1938;
  • Povos primitivos e manifestações paranormais, 1941-46;
  • Dos fenômenos de telestesia, 1942;
  • Música transcendental, 1943;
  • De mente a mente, 1946;
  • Os mortos voltam, 1947;
  • Literatura de além-túmulo, 1947;
  • As visões dos moribundos, 1947;
  • Luzes no futuro, 1947;
  • Guerra e profecias, 1948;
  • A psique domina a matéria, 1948;
  • Os animais têm alma?, 1950;
  • Pensamento e vontade, 1967;
  • Os fenômenos de transfiguração, 1967.

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