O ESTRANHO EVANGELHO ATRIBUÍDO A JOÃO

NELSON MURILO MADEIRA CARDOSO

POR QUE OS CRISTÃOS O CONSIDERAM A MELHOR BIOGRAFIA DE JESUS?

Ao procurar informações sobre as raízes da doutrina cristã, verificamos o farto material que hoje se encontra à disposição de pesquisadores, exegetas (estudiosos da Bíblia) e historiadores, juntamente com as comparações dos textos dos evangelhos. Através destas pesquisas, esses homens conseguem trazer revelações importantes, principalmente quando estão desvinculados de correntes teológicas e fundamentalistas.

GÉZA VERMÉS

Com base no primeiro capítulo do livro “As Várias Faces de Jesus”, do renomado especialista acadêmico do cristianismo Geza Vermes, propomo-nos a trazer, em linguagem simples e resumida, o pensamento sobre Jesus, do autor do quarto evangelho.

Antes, porém, vamos apresentar algumas informações. Sabemos que os autores dos evangelhos não foram os que constam no Novo Testamento, sendo por isso, atualmente, referidos como “atribuído a“: Marcos, Mateus, Lucas e João. Os três primeiros são chamados sinópticos, pois têm textos bem semelhantes. O atribuído a João é, de forma geral, totalmente diferente. Todos os quatro evangelhos foram escritos várias décadas depois da morte de Jesus. Até ser escrito o primeiro, atribuído a Marcos (por volta do ano 64 EC), as histórias e os ditos de Jesus foram passados de boca em boca, pois até hoje nada foi encontrado sobre ele, que tivesse sido escrito durante a sua vida; após Marcos, seguiu o Evangelho de Mateus em 70 EC, Lucas em 80 EC e finalmente João, entre 100 e 110 EC (EC significa: Era Comum, que modernamente substitui DC, Depois de Cristo).

Vermes deu ao capítulo que estudaremos o nome de “João: o estranho entre os evangelistas.” A Igreja o apresenta como biógrafo supremo de Jesus, autor do Evangelho espiritual. Vermes observa que “Nenhuma leitura crítica dos quatro Evangelhos justifica tal compreensão de João. Pois é óbvio para qualquer leitor imparcial, sem viés religioso, que se o Quarto Evangelho está certo, seus precursores têm de estar errados, ou vice-versa.” (VERMES, 2000). Qual, portanto, a razão de o Evangelho de João ser tão diferente da narrativa dos demais?

Lendo o João do Evangelho, nota-se uma especulação mística e filosófica helenista (da civilização grega antiga) de um homem centenário, muito acima da cultura de um pescador galileu “iletrado e sem posição social” (Atos 4:13), que foi discípulo de Jesus. Percebe-se no autor de João, uma doutrina muito bem elaborada, de elevação divina de Jesus, bem acima dos três Evangelhos sinópticos. Citaremos abaixo algumas diferenças entre a visão dos sinópticos e a de João, entre várias que Vermes mostrou no livro. Destacamos duas que achamos mais relevantes:

No entendimento dos milagres de Jesus, “Os três primeiros evangelistas os consideram como ‘prodígios’, isto é, atos como a cura de doentes, desempenhados desinteressadamente, que impressionaram os presentes como milagrosos. Diz-se que Jesus desaprovava geral e explicitamente os ‘sinais’ cujo intuito fosse demonstrar o poder sobrenatural da pessoa que os executava. Ele se recusou a concordar com os pedidos de ‘sinal’ ou de ‘sinal do céu’ feitos por notáveis judeus, fariseus, escribas ou saduceus (Mc 8:11; Mt 12:38; 16:1). Em João, porém, os milagres são ‘sinais’ e visam provar a diferença, a origem divina e natureza sobrenatural de Jesus. Eles manifestam sua glória“. Também registra Vermes:“Em contraste, ‘muitos outros sinais’, que não foram escritos no Evangelho, mas foram testemunhados pelos discípulos, estavam lá para provar que Jesus era ‘o Cristo, o Filho de Deus’ (20:30-31). Em resumo, tácita ou explicitamente, os ‘sinais’ joaninos servem para manifestar o caráter sobrenatural de Jesus.” (VERMES, 2000).

Uma característica desalentadora de João “é seu clamor resoluto de que os Judeus (…) eram profunda e universalmente hostis a Jesus. De fato, praticamente desde o começo da sua carreira, o Jesus de João foi alvo de repetidas tramas judaicas de assassinato“. Esta hostilidade não recebeu nenhum apoio nos demais Evangelhos, do historiador da época Josefo e nem na literatura rabínica, não havendo relatos de “assassinatos de judeus por outros judeus por questões religiosas...”. O ódio de João pelos Judeus era nítido.

Vermes conclui este capítulo dizendo: “As diferenças são tão eloquentes que transformam João num narrador independente, e tornam a sua história aceitável apenas para uma audiência não ligada a Jesus ou aos seus discípulos imediatos. Em consequência, o quadro de um Cristo supercelestial que é esboçado por este evangelista reflete o estágio final das metamorfoses nas várias faces de Jesus do Novo Testamento.” (VERMES, 2000).

Apesar da constatação de que o Evangelho atribuído a João é um estranho no ninho do Novo Testamento, é ele o mais lido nas citações de crentes, nos cultos e nas missas cristãs. João permitiu que a Igreja tomasse o lugar do Reino de Deus, deixando o conceito de Jesus nos Evangelhos sinópticos e em Paulo, eclipsados.

Geza Vermes continua analisando o Jesus de João no capítulo seguinte do seu livro, onde fala dos vários títulos divinos superpostos que João atribui a Jesus (o Messias, o Rei, o Filho de Deus, o Senhor, o Cordeiro de Deus, o Filho do Homem, o Verbo que se fez homem). Enquanto nos Evangelhos sinópticos, Jesus não se proclama Messias e foca seus ensinamentos em Deus, o Jesus joanino não demonstra qualquer preocupação com o reino do céu, seus sermões giram em torno da sua pessoa e da sua relação pessoal com Deus. É apenas em João que Jesus diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (14.6). O(s) criador(res) de João transformou (transformaram) Jesus em Deus. Através da sua doutrina, a Igreja finalizou suas questões doutrinárias, se fechando definitivamente dentro do caixão do dogmatismo e da fé cega, onde mantém os seus fieis aprisionados, mesmo após dois mil anos!

BIBLIOGRAFIA: “AS VÁRIAS FACES DE JESUS” de Geza Vermes.

Pequena biografia de Geza Vermes: “Nasceu na Hungria em 1924. Formou-se nas universidades de Louvain e Budapeste. Professor emérito da Universidade de Oxford, onde lecionava estudos judaicos, é considerado um dos maiores especialistas acadêmicos sobre Manuscritos do Mar Morto e história do cristianismo. Membro da British Academy e da European Academy of Arts, Sciences and Humanities, publicou O autêntico evangelho de Jesus e The Complete Dead Sea Scrolls in English“. Além de diversos outros livros sobre Jesus. Morreu em 2013 em Oxônia, Reino Unido.

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