ESPIRITISMO ÀS AVESSAS?

Nelson Murilo Madeira Cardoso

A Revista Espírita de novembro de 1869 fez uma análise do primeiro periódico espírita brasileiro: “O Echo d’Além Túmulo”; neste artigo, verifica-se a preocupação da revista com a tendência religiosa que emerge por vezes no texto brasileiro. Diz a Revista Espírita:

“O Eco de Além-Túmulo aparece seis vezes por ano, em cadernos de 56 páginas, sob a direção do Sr. Luiz Olympio Telles de Menezes, ao qual nos apressamos imediatamente a endereçar vivas felicitações, pela iniciativa corajosa de que nos dá prova. Com efeito, é preciso grande coragem de opinião para criar num país refratário como o Brasil um órgão destinado a popularizar os nossos ensinamentos. (…)A introdução e a análise que o Sr. Luiz Olympio faz, do modo pelo qual os Espíritos nos revelaram a sua existência, pareceram-nos bastante satisfatórias. Outras passagens, referindo-se mais especialmente à questão religiosa, dão-nos ocasião para algumas reflexões críticas. Para nós, o Espiritismo não deve tender para nenhuma forma religiosa determinada. Ele é e deve continuar como uma filosofia tolerante e progressiva, abrindo seus braços a todos os deserdados, seja qual for a nacionalidade e a convicção a que pertençam. Não ignoramos que o caráter e a crença daqueles a quem se dirige o Eco de Além-Túmulo devem levar o Sr. Luiz Olympio a manejar certas susceptibilidades. Mas acreditamos, por experiência, que a melhor maneira de conciliar todos os interesses consiste em evitar tratar de questões que a cada um cabe resolver, é empenhar-se em popularizar os grandes ensinamentos que encontram eco simpático em todos os corações chamados ao batismo da regeneração e ao progresso infinito”. ( REVISTA ESPIRITA, novembro de 1869, p.475).

Ao ler o texto do periódico brasileiro, reconhecemos de pronto os trechos que geraram a preocupação da Revista Espírita, e destacamos na reprodução abaixo:

“Nota-se, porém, que essas manifestações sempre ocorreram de preferência sob a influência de certas pessoas dotadas de uma faculdade especial e designadas sob o nome de médiuns: maravilhosa faculdade que, aos olhos espantados da Humanidade, prova de maneira indubitável a onipotência, a bondade infinita e a misericórdia de Deus-Trino, supremo criador de todas as coisas.(…) Se, pois, o Espiritismo incontestavelmente produz bons frutos,porque dá esperança e fé; se, de fato, a fé e a esperança trazem os incrédulos a crenças sadias, é lógico, e mais que lógico, é evidente que o Espiritismo, operando milagres sobre a consciência, difunde uma doutrina benfazeja que satisfaz ao mesmo tempo ao espírito e ao coração, porque é um sistema de verdades filosóficas baseadas no Evangelho, que os Espíritos bons, fiéis mensageiros de Deus, nos vêm confirmar. É a espada do Arcanjo que vem derrubar as árvores e os arbustos da incredulidade, confundindo os materialistas e os ateus.” (REVISTA ESPIRITA, novembro de 1869).

Desde a chegada do Espiritismo ao Brasil, notamos, portanto, a dificuldade de separar o domínio religioso da filosofia moral. As justificativas decorrem, segundo alguns sociólogos, do meio politico existente à época em que a monarquia tinha como religião oficial o catolicismo. E após 1889, a república, mesmo declarando-se laica, ainda trazia forte influência da igreja cristã. Naquele momento, o Espiritismo já havia sido dividido, com os espíritas adeptos de Jean Baptiste Roustaning, um espírita francês desvirtuado que publicou a obra “Os Quatro Evangelhos”, transmitida em psicografia “pelos próprios evangelistas e supervisionada por Moisés”, o que gerou críticas intensas de Kardec. Essa obra, contrariando o Espiritismo, pelo critério da universalidade do ensino dos espíritos, foi anexada à leitura obrigatória para fins de estudo da doutrina, pela então recém fundada FEB – Federação Espírita Brasileira, e mantida no seu estatuto até o início de 2019.

BEZERRA DE MENEZES

Apesar de haver um grupo preocupado em manter o Espiritismo nos princípios da filosofia moral, justamente para se afastar das contendas religiosas, a facção liderada por Bezerra de Menezes, presidente da FEB, fez prevalecer a visão cristã-dogmática, mantendo-a até os nossos dias. Esta aberração da doutrina é praticada em quase todas as casas, centros, sociedades e associações espíritas à tal ponto de se considerar as pessoas que questionam esse cisma como rebeldes, hereges e portanto, não sendo bem-vindas a esses locais. São pessoas excluídas, tratadas como não espíritas e até obsidiadas, quando na verdade estão tentando recuperar o Espiritismo, na essência do que foi transmitido pelos Espíritos e pesquisado por Allan Kardec.

PORQUE O ESPIRITISMO VIROU ÀS AVESSAS?

Ao contrário dos médiuns que psicografaram as obras básicas do Espiritismo, que não tiveram os seus nomes publicados, os médiuns atuais, que participaram deste cisma, se tornaram famosos e poderosos, com uma enxurrada de obras de Espíritos sistemáticos e pseudo-sábios. Obras essas de ficção, criando histórias fantasiosas retiradas do folclore espiritual ou criadas conscientemente, enganando os leitores e entregando o Espiritismo às forças malignas da ganância, arrogância, orgulho e vaidade de médiuns e espíritos imperfeitos.

Hoje as casas espíritas abandonaram a preocupação com a qualidade de um estudo sério, destinado aos neófitos desejosos de se aprofundarem na doutrina espírita e consequentemente, com isto, conseguindo a sua própria mudança de caráter e de moral. E optaram pela quantidade de frequentadores, envolvendo-os no laço da ameaça e da imposição do medo, para mantê-los agarrados como se ali estivessem protegidos, como os cristãos que “aceitam Jesus”, se considerando perdoados e salvos.

O que verificamos é um desfile de sofrimentos renitentes, pessoas que chegam com a falsa promessa de que serão ajudadas nas suas dores e delas nunca conseguem se desvencilhar. Os dirigentes e tarefeiros dessas casas recorrem ao argumento das expiações como culpa do passado para tentar explicar o motivo de elas não melhorarem de seus problemas. Vira um ciclo interminável onde a vida das pessoas parece ficar cada vez mais difícil, com as doenças indo e voltando. Frequentadores e tarefeiros, há dezenas de anos frequentando esses locais despreparados, ainda com intrigas entre os membros, em um ambiente onde não conseguem obter o mínimo equilíbrio emocional.

Este é o resultado do pseudo-espiritismo, que é religioso, dogmático e místico, vivido hoje no Brasil. Uma impiedosa fascinação coletiva na busca da ilusão do milagre que resolverá os seus problemas pessoais; ilusão esta que passa pela acomodação, retroalimentada pelas suas sombras e mantidas por poderosos interesses. Kardec nunca desejou e tinha constante preocupação de que o Espiritismo um dia fosse acusado de ser mais uma religião, disputando espaço com as demais.

É por hoje conhecermos a amplitude desta doutrina revelada pelos Espíritos e apresentada pelo esforço de um grande filósofo e pesquisador, e porque sentimos em nós mesmos as mudanças para melhor, apesar de espíritos ainda imperfeitos que somos, trabalhamos com todo o empenho para renascer o Espiritismo no que tem ele de melhor: a sua essência moral e fraterna.

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