EVANGELHOS, PARÁBOLAS E A HISTÓRIA.

NELSON CARDOSO
IMAGEM de James Tissot.

Eis que um semeador saiu a semear. E, ao semear, uma parte das sementes caiu à beira do caminho [foi pisada (Lc)], e vieram as aves [do céu (Lc)] e a comeram. Outra parte caiu em solo pedregoso e, não havendo terra bastante, nasceu logo, porque não havia terra profunda, mas ao surgir o sol, queimou-se e, por não ter raiz [por falta de umidade (Lc)], secou. Outra parte caiu entre espínhos; os espinhos cresceram e sufocaram, e não deu fruto. Outras caíram em terra boa e produziram fruto, subindo e se desenvolvendo. Um produziu trinta, outra sessenta e outra cem. E dizia: ‘Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.'” (Mc 4,3-9; Mt 13,3-9; Lc 8, 5-8; Evangelho de Tomé 9).

A parábola narra um fato comum dos lavradores e trabalhadores agrícolas na Palestina rural. Narra o empenho descuidado do homem do campo, deixando as sementes caírem pelo caminho, até ele encontrar o campo fértil para semear. Vemos que a colheita abundante ocorreu por conta da semente ter caído em terra fértil, e não pelo trabalho do semeador, “mas da colaboração misteriosa providencialmente arranjada entre a semente (isto é, a pregação) e a terra (isto é, a reação do ouvinte inspirada por Deus)”. (VERMES, 2003). A intensão de Jesus, utilizando tantas vezes o recurso das parábolas, quarenta ao todo nos evangelhos sinóticos, é o que iremos agora procurar entender, começando pelo nome dado aos livros que contém as parábolas que teriam sido narradas por Jesus.

Evangelho de Marcos

O significado da palavra Evangelho, que vem do grego, significa Boa Nova e foi escolhida como título dos livros que narram o ministério de Jesus. Entendendo pelas pesquisas realizadas que Jesus nada trouxe exatamente de novo, mas sim enfatizou os ensinamentos já existentes nas escrituras do povo hebreu, aumentando a sua compreensão. A palavra Evangelho, na sua significação original, deixaria de ter sentido como título dessas narrativas da vida pública de Jesus.

Ainda analisando o emprego desta palavra, verificamos que Jesus não tinha o objetivo de levar a todas as pessoas o seu ensinamento e sim aos que seriam escolhidos, no sentido de poderem compreender o sentido de seus ensinamentos. Ou seja, não seria para criar prosélitos pelo mundo a fora. O recurso das parábolas, que não foi criação sua, mas vinha de uma tradição judaica, existente na bíblia hebraica com o fim de torná-las compreendidas somente aos que conseguissem “matar a charada”. No caso dos evangelhos, como parecia ser dirigido aos cristãos gentios, pois foram escritos escritos em grego, as parábolas, tão comuns aos judeus, exigiam um esforço de compreensão muito grande, pois esses cristãos gentios não eram instruídos neste tipo de leitura.

A igreja primitiva fez adaptações aos textos dos ditos de Jesus, visando o seu público alvo que como dissemos, eram os cristãos não judeus; o que leva os estudiosos ao entendimento de que a maioria absoluta das mensagens ali constantes, foi adulterada ou enxertada, de acordo com seus interesses, incluindo um ódio crescente aos judeus.

À medida que novas descobertas arqueológicas estão ocorrendo, a exegese do conteúdo evangélico vai permitindo separar claramente o que Jesus disse do que ele não disse. Ou seja, separando o joio do trigo. Daí a conclusão de que o conteúdo não só dos evangelhos, mas de todo o Novo Testamento, precisa ser lido com bastantes reservas e sem a crença de que conteria somente as verdades indiscutíveis. O uso da razão e do bom senso estão permitindo ao homem comum a busca do conhecimento das mensagens de Jesus para se melhorar moralmente. Enquanto que na leitura linear, sem questionamentos, esses textos são reverenciados como divinamente intocáveis, levando à crença cega e ao dogmatismo paralisante.

Arqueólogos em Qumran

Torna-se necessário o mergulho histórico na época de Jesus, incluindo o antes e o imediatamente depois da sua vida para avaliar os seus ditos de forma mais segura. Este mergulho exige equipamento próprio, ou seja, textos de historiadores da época e a avaliação de seus compromissos pessoais, que poderiam tornar tendenciosas as suas visões dos fatos ocorridos e então, confrontá-los com os evangelhos. Acolhendo, enfim, o material achado recentemente nos locais, vamos caminhando na segura trilha das pesquisas, descobrindo que as revelações da história são constantes e sempre haverá espaço para novos entendimentos.

Bibliografia: O Autêntico Evangelho de Jesus – Geza Vermes.

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