Causas atuais das aflições: algumas considerações

Victor Ramos

A princípio, ao sabermos que este é o tema de uma palestra pública, muito facilmente se esperará que o suposto palestrante apresentará boas razões as quais devam justificar as nossas aflições vividas no presente. Como que ele estivesse de posse de uma espécie de tabela pronta, reveladora do nosso passado, para a qual a correspondência entre a causa e a consequência é acurada e impecável: se veio cego é porque viu o que não deveria ver em vidas passadas e não soube fazer bom uso, e se enxergasse se “endividaria” mais; se não consegue “subir na vida” é porque já teve condições e caiu pelo orgulho ou pela vaidade, não administrou bem os recursos de que um dia dispôs e Deus, que é justo, oferece as dificuldades financeiras para que o amadurecimento venha por medo da dor, não por meio do amor – já que assim foi escolhido; ainda mais, se houve traição no relacionamento é porque hoje o traído no passado fora a parte que traiu; e os exemplos se desdobram ao infinito. Todos podem usar a imaginação para isso, e, infelizmente, ouvir em algumas palestras públicas esta informação – e os ouvintes desatentos e despreparados, muitas vezes, saem do evento pensando que é assim, saem procurando as causas das suas aflições responsabilizando o passado longínquo e dando ao passado mais próximo uma importância que deve ser repensada.

A Doutrina preocupa-se com a essência e não com a forma, dirige-se a qualquer um, de qualquer culto porque a sua proposta moral é universal, não particular. Vale ressaltar que o codificador esclareceu que a natureza ainda não deu sua última palavra, logo o Espiritismo também não. Sendo assim, é necessário compreender a obra O Evangelho Segundo o Espiritismo enquanto um livro de proposta moral universal, entretanto inacabado, passível de análise crítica e não de mera aceitação. Além disso, é necessário refletir sobre o significado de algumas mensagens que são assinadas nesta obra, o que revela a autoria logo um ponto de vista do qual se podem tirar conclusões morais concernentes a todos. É comum observarmos mensagens de Santo Agostinho, esse ou aquele bispo, por exemplo. Desse modo, não é de se espantar que se encontrem nessas mensagens palavras como pecado e punição: são Espíritos de cultura católica transmitindo a mensagem, ainda que hajam evoluído. É necessário entender a essência da mensagem, a sua proposta moral, não ficar preso a esta ou aquela palavra como se exprimissem a verdade a ser seguida. O Evangelho Segundo o Espiritismo não é uma bíblia e o Espiritismo não é uma religião. Além do mais, a Doutrina não possui apenas uma obra como sua base, mas toda a codificação, a Revista Espírita, Obras Póstumas, Viagem Espíritas de 1862, O que é o Espiritismo?: eis o ponto de partida necessário para qualquer um que deseje ser adepto do Espiritismo.

Encontra-se na Introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo o seguinte trecho a respeito da constituição desse livro: “reunimos nesta obra os artigos que podem constituir, a bem dizer, um código moral universal, sem distinção de culto”. E esta proposta, ressaltamos, tem por base, dentre tanto, a relação de causa e consequência dos fatos, não do achismo que constitui um personalismo presente em textos desse ou daquele Espírito muito menos em palestras nas quais o encarregado orador, por vezes, acredita que tudo o que passa por sua mente deve ser dito – porque veio do além; como se Kardec não houvesse nos alertado tanto a respeito de como lidar com as mensagens do mundo dos Espíritos. O leitor atento e familiarizado com os princípios da Doutrina saberá entender sensatamente o que na obra referida está escrito, extraindo o sentido moral das mensagens. Entendendo que as aflições vividas são consequências de ações passadas, desta ou de outras vidas, e que a proposta não é de punição, mas de crescimento por meio do amor em suas diversas manifestações na vida humana. Entenderá, também, que as características do verdadeiro espírita (que não exclui pertencer a este ou aquele credo) não é o caminho da salvação futura, porque não há um Deus a nos punir, mas a redenção própria, diante de nossa consciência a respeito do que fomos face a quem nos tornaremos, tendo por ponte o que estamos sendo: mudança moral.

Sendo assim, reforçamos, não é válido acreditar que as causas atuais das aflições são, de todo, consequência do que fizemos em vidas passadas ou porque infringimos esta ou aquela suposta lei e Deus ficou “zangado”, numa tabela de correspondência e pontuação, com seus agravantes, ou porque esse ou aquele palestrante disse. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo V, em seu item 4, encontra-se que “As vicissitudes da vida são de duas espécies, ou se quisermos, têm duas fontes bem diferentes que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida”. Informação esta que se encontra condizente com a lógica mais rigorosa, afinal toda consequência tem sua causa, se não identificada na vida presente é necessário voltar o olhar para as vidas passadas, das quais colhemos os frutos sejam eles bons ou não: são nossos, nos constituem. Além disso, encontra-se no mesmo item que se nos remetermos “[…] à origem dos males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são consequência natural do caráter e da conduta dos que os suportam”, informação está já desenvolvida anteriormente no texto. Ainda temos-lhe o complemento: “Quantos se arruínam por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder ou por não terem sabido limitar seus desejos!”. Basta analisar tais trechos com sensatez, aderindo ou não à ideia. É necessário sair da menoridade, segundo Kant, é preciso o esclarecimento maduro, a responsabilidade que visa à liberdade, não a prisão de uma justiça de punição eterna. Nos diz o filósofo que “Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é o culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si, mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! (¹)”, não vale colocar nas palavras de um Espírito, encarnado ou desencarnado, a responsabilidade da nossa razão. 

Referências Bibliográficas:

A. Kardec – O Livro dos Espíritos, 1857

__ – O Evangelho Segundo o Espiritismo, 1864

__ – Viagem Espírito em 1862, 1862

(¹) – Ouse saber!

  • Victor Ramos é professor, palestrante espírita, tem experiência com grupos jovens e faz parte da SEER (Sociedade de Estudos Espíritas do Recife). 

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