A PASSAGEM

NELSON CARDOSO

A confiança na vida futura não exclui as apreensões da passagem desta para a outra vida. Muitas pessoas não temem a morte por si mesma; o que temem é o momento de transição.” (KARDEC, 1865) assim começa Kardec a explicação de como se opera em nós, este processo: morte. A ciência e a religião são omissas na questão. Enquanto a ciência busca resultados exclusivamente nas leis da matéria, a religião, que aceita a continuidade da vida, fixa dogmas e cria fantasias que o bom senso não pode admitir. O espiritismo é o laço que une as duas, pois permite a inclusão das leis que regem as relações do Espírito e da matéria, sendo trazidas pela noção da alma e pelos depoimentos daqueles que deixaram a vida orgânica.

Para compreender-se melhor como se efetiva o processo da morte, vamos recorrer a duas informações básicas, inicialmente fornecidas pelos espíritos que impulsionaram a doutrina espírita: 1) O laço fluídico faz a ligação da matéria com a alma, mantendo-as unidas. 2) O perispírito é o envoltório fluídico da alma, da qual não se está separado antes, nem depois da morte. Quando o laço fluídico se rompe, ocorre a separação da alma e do corpo, em um ritmo mais ou menos longo, ocorrendo em cada órgão do corpo e de maneiras diferentes, dependendo de fatores que agora iremos expor:

A intensidade com que ocorre essa separação, de forma mais ou menos longa, leva a sensação dolorosa da alma nesse momento. Se nesse momento, o perispírito estivesse totalmente desligado do corpo orgânico, sem laços fluídicos que os unissem, a alma absolutamente nada sentiria. De outra forma, se houver uma coesão forte entre matéria e alma, ocorre um dilaceramento que age dolorosamente sobre a alma. Porém se esta coesão for fraca, a separação é fácil e tranquila. Em todos os casos porém, existe um fator comum: a perturbação, estado normal no instante da morte. Este fator varia de intensidade e tempo de duração, ocorrendo como um despertar de sono profundo, onde a consciência fica em estado de torpor. O que levaria a alma a exercer uma influência nesta intensidade e o tempo de duração? Kardec nos coloca que “O estado moral da alma é a causa principal que influi sobre a maior ou menor facilidade do desligamento. A afinidade entre o corpo e o perispírito está em razão do apego do Espírito à matéria; está em seu máximo no homem cujas preocupações todas se concentram na vida e nos gozos materiais; ela é quase nula naquele cuja alma depurada está identificada por antecipação com a vida espiritual. Uma vez que a lentidão e a dificuldade estão em razão do grau de depuração e de desmaterialização da alma, depende de cada um tornar essa passagem mais ou menos penosa, agradável ou dolorosa.” (KARDEC, 1865).

Para o homem cujos pensamentos se separam das coisas terrestres, o desligamento é quase completo antes da morte real, não se prendendo mais ao corpo, senão por um laço muito fraco, que se rompe sem dificuldade; o Espírito sente-se feliz por ter se livrado do corpo orgânico. O homem material e sensual, para quem a vida espiritual nada é, tudo contribui para apertar mais os laços que o ligam à matéria. Como lei natural, a aproximação da morte, o seu desligamento também se opera de forma gradual, mas com esforços contínuos, sendo as convulsões de agonia, “o indício da luta que o Espírito sustenta, que por vezes quer romper os laços que o resistem, e de outras vezes, se aferra ao seu corpo do qual uma força irresistível o arranca violentamente, parte por parte. (…) O Espírito se prende tanto mais à vida corporal quanto nada vê além dela“(KARDEC, 1865).

Na morte violenta, a vida orgânica estando em plena força, o desligamento do perispírito não se inicia senão após a morte. O estado atordoado do Espírito, neste caso, o leva a confundir o seu corpo fluídico, o perispírito, com o seu corpo material, pois experimenta todas as sensações da vida orgânica. Este estado inicial, varia de acordo com o seu caráter, os conhecimentos e o grau de adiantamento moral. Kardec nos fala sobre essas qualidades, que devem ser cultivadas ainda na vida corporal: “Para trabalhar pela sua depuração, reprimir as más tendências, vencer as paixões, é preciso ver-lhes as vantagens do futuro; para se identificar com a vida futura, dirigindo-lhes as suas aspirações e preferi-la à vida terrestre, é preciso não só crer, mas compreendê-la; (…) em completo acordo com a lógica, o bom senso e a ideia que se faz da grandeza, da bondade e da justiça de Deus.” (KARDEC, 1865).

Sendo o Espiritismo não indispensável a esse resultado, e também não tendo a pretensão de mostrar o caminho da salvação, traz, entretanto, os conhecimentos que inspiram no homem necessidade de se melhorar.

Kardec nos mostra como este conhecimento, absorvido em nossa vida, poderá servir à principal causa do Espiritismo: o envolvimento fraterno, dando a cada um de nós os meios de facilitar o desligamento de outros Espíritos no momento da morte, abreviado pela prece e pela evocação. Conclui Kardec: “Pela prece sincera, que é uma magnetização espiritual, provoca-se uma desagregação mais pronta do fluido espiritual; por uma evocação conduzida com sabedoria e prudência, e com palavras benevolentes e de encorajamento, tira-se o Espírito do entorpecimento em que se encontra, ajudando-o a reconhecer-se mais cedo; se é sofredor, excita-o ao arrependimento, que somente pode abreviar-lhe os sofrimentos.” (KARDEC, 1865).

Nenhuma lei no universo impede o acolhimento fraterno ao próximo, em qualquer lugar em que ele esteja, mesmo estando entre os encarnados e os desencarnados, que afinal, revezam suas posições constantemente, pois um dia, seguindo o caminho do progresso: uma das leis universais, esta barreira material não mais existirá.

BIBLIOGRAFIA: O CÉU E O INFERNO ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.

3 comentários em “A PASSAGEM

  1. Texto claro e maduro. Infelizmente não é em todo lugar que encontramos textos assim: com teor de pesquisa em trabalhos científicos. Sendo o Espiritismo uma ciência, é necessário não descaracterizá-la com folclores ou achismos, mas recebê-la como ela a nós se apresenta.
    Percebe-se, no texto aqui referido, preocupação com os detalhes conceituais, rigor científico, e uma ótima relação desses conceitos e comentários lógicos advindo deles. Textos assim são necessários para o progresso da humanidade, pois ele é uma expressão clara de respeito ao conhecimento e fraternidade: pois é disponível a qualquer um que se interesse pela questão.
    Não se percebem ataques a este ou àquele credo, o objetivo é um só: esclarecer sobre o pós-morte. E isso foi feito com competência.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Agradeço o rico comentário, professor Vitor Ramos! O estudo, quando feito sem contágios místicos provenientes da falta do bom senso, leva à perceber uma harmonia perfeita e passamos à enxergar com clareza, a continuação da vida após a extinção da matéria bruta.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.