Sono e liberdade do espírito: o que acontece quando dormimos?

VICTOR RAMOS

 O homem interexiste, pois interage constantemente com o mundo espiritual, do qual faz parte. Entretanto, na vida corporal, acaba por lançar grande parte de sua atenção aos acontecimentos que lhe rodeiam e dos quais faz parte e assim percebe-se bastante ligado à vida material e suas nuances. Dessa forma, de modo geral, se configura a existência de todo e qualquer ser humano no planeta Terra – no popular se diria: “um pé cá e outro lá”. A partir disso, ao dormir, o Espírito que habita o corpo desprende-se da matéria de modo a gozar mais de suas faculdades inatas – já que, durante o sono, não há porque voltar as atenções para o que é referente à matéria – daí que um mundo de acontecimentos podem ser enumerados sendo todos consequência desse desprendimento do Espírito do corpo: encontros com seres queridos encarnados e desencarnados, também com os não queridos, previsões sobre o que acontecerá na existência material, em outras existências,  avisos, “viagens” para lugares nos quais há “reabastecimento energético” etc. 

Analisando a etmologia da palavra interexistir, inter significa “entre” e existir é “existir” mesmo, logo o Espírito encarnado vive entre os dois planos da vida, conforme didaticamente nos explicou Kardec: o plano material e o plano espiritual – e conforme já foi mencionado acima. Vale ressaltar que há séculos Platão já houvera tratado desta característica dualista do ser humano ao falar com tanta certeza do Mundo das Ideias, no qual se encontram a Verdade, o Belo e a Justiça (itens constitutivos da nossa natureza espiritual, portanto nossa essência, para o pensador) segundo encontramos em O Evangelho Segundo o Espiritismo lá na Introdução, na parte em que Kardec faz um resumo sobre o pensamento socrático-platônico, vale ler. Platão, a respeito desse mundo, diz que viemos de lá, que já tivemos contato com essa Verdade, esse Belo e essa Justiça, e que buscamos, enquanto na matéria, esses atributos – se assim podemos colocar –, pois a alma necessita do que é perene, diferentemente do corpo que se contenta com o que é transitório, tais quais seus prazeres.

Não é de hoje que se fala do imaterial como parte do ser humano, alguns até acreditam que a alma (essa parte imaterial do homem que no espiritismo refere-se “Espírito encarnado”) pode sofrer ou gozar pela eternidade, outros acreditam que existe um tal de Seio de Abraão onde nós esperamos pelo nosso julgamento. O fato é que eternidade é muito tempo… e que o desfalecimento da matéria não significa a extinção da vida, de nós. Sobretudo, não é preciso “morrer” para interagir com o mundo invisível, afinal, por nossa natureza, fazemo-lo constantemente. Queiramos ou não.      

A partir disso, considerando o caráter interexistencial do ser humano, é mais fácil de analisar as questões 413, 414 e 415 de O Livro dos Espíritos as quais fazem parte do item Visitas espíritas entre pessoas vivas, capítulo VIII. Na questão 413 é perguntado o seguinte: “Do princípio da emancipação da alma durante o sono, parece resultar que temos duas existências simultâneas: a do corpo, que nos dá a vida de relação ostensiva, e a da alma, que nos dá a vida de relação oculta. Isto é exato?”, analisando esta pergunta cabe atentar para a palavra “parece” em “parece resultar que temos duas existências simultâneas”, pois a pergunta não trata, exatamente, se temos uma vida dupla ou uma vida única, mas se a comparação feita pelo codificador, para fins didáticos – como se observa – é exata. 

De modo geral, a alma, durante o sono, “liberta-se” do corpo, mantendo com ele ligação, entretanto num nível bem menor que durante a vigília. A partir disso, é possível que o Espírito possa dirigir-se para onde quiser e falar com quem quiser? Isso caracterizaria que temos, todos, uma vida dupla? A resposta à pergunta 413 é que “No estado de emancipação, a vida do corpo cede lugar à vida da alma. Mas, a bem dizer, não são duas existências. São, na verdade, duas faces da mesma existência, porque o homem não vive duplamente”. Logo, temos aqui, como resposta, algo condizente à teoria socrático-platônica da sobrevivência da alma e, segundo nos aponta o espiritismo, do desprendimento da alma do corpo, conhecido como princípio da emancipação da alma.  

   Analisando a etmologia da palavra interexistir, inter significa “entre” e existir é “existir” mesmo, logo o Espírito encarnado vive entre os dois planos da vida, conforme didaticamente nos explicou Kardec: o plano material e o plano espiritual – e conforme já foi mencionado acima. Vale ressaltar que há séculos Platão já houvera tratado desta característica dualista do ser humano ao falar com tanta certeza do Mundo das Ideias, no qual se encontram a Verdade, o Belo e a Justiça (itens constitutivos da nossa natureza espiritual, portanto nossa essência, para o pensador) segundo encontramos em O Evangelho Segundo o Espiritismo lá na Introdução, na parte em que Kardec faz um resumo sobre o pensamento socrático-platônico, vale ler. Platão, a respeito desse mundo, diz que viemos de lá, que já tivemos contato com essa Verdade, esse Belo e essa Justiça, e que buscamos, enquanto na matéria, esses atributos – se assim podemos colocar –, pois a alma necessita do que é perene, diferentemente do corpo que se contenta com o que é transitório, tais quais seus prazeres. Não é de hoje que se fala do imaterial como parte do ser humano, alguns até acreditam que a alma (essa parte imaterial do homem que no espiritismo refere-se “Espírito encarnado”) pode sofrer ou gozar pela eternidade, outros acreditam que existe um tal de Seio de Abraão onde nós esperamos pelo nosso julgamento. O fato é que eternidade é muito tempo… e que o desfalecimento da matéria não significa a extinção da vida, de nós. Sobretudo, não é preciso “morrer” para interagir com o mundo invisível, afinal, por nossa natureza, fazemo-lo constantemente. Queiramos ou não.

A partir disso, considerando o caráter interexistencial do ser humano, é mais fácil de analisar as questões 413, 414 e 415 de O Livro dos Espíritos as quais fazem parte do item Visitas espíritas entre pessoas vivas, capítulo VIII. Na questão 413 é perguntado o seguinte: “Do princípio da emancipação da alma durante o sono, parece resultar que temos duas existências simultâneas: a do corpo, que nos dá a vida de relação ostensiva, e a da alma, que nos dá a vida de relação oculta. Isto é exato?”, analisando esta pergunta cabe atentar para a palavra “parece” em “parece resultar que temos duas existências simultâneas”, pois a pergunta não trata, exatamente, se temos uma vida dupla ou uma vida única, mas se a comparação feita pelo codificador, para fins didáticos – como se observa – é exata.[1]


De modo geral, a alma, durante o sono, “liberta-se” do corpo, mantendo com ele ligação, entretanto num nível bem menor que durante a vigília. A partir disso, é possível que o Espírito possa dirigir-se para onde quiser e falar com quem quiser? Isso caracterizaria que temos, todos, uma vida dupla? A resposta à pergunta 413 é que “No estado de emancipação, a vida do corpo cede lugar à vida da alma. Mas, a bem dizer, não são duas existências. São, na verdade, duas faces da mesma existência, porque o homem não vive duplamente”. Logo, temos aqui, como resposta, algo condizente à teoria socrático-platônica da sobrevivência da alma e, segundo nos aponta o espiritismo, do desprendimento da alma do corpo, conhecido como princípio da emancipação da alma.[2]  

A pergunta seguinte trata da possível interação que existe entre dois seres enquanto estão dormindo.[3] A pergunta 414 é bem direta: “Duas pessoas que se conhecem podem visitar-se durante o sono?”, e a resposta também é direta – como sempre: “Sim, e muitas outras que julgam não se conhecerem reúnem-se e conversam. Podes ter, sem que o suspeites, amigos em outro país. O fato de irdes vos encontrar, durante o sono, com amigos, parentes, conhecidos e pessoas que vos podem ser úteis é tão frequente que quase todas as noites fazeis essas visitas”. Uma noite bem dormida pode render boas amizades, ou melhor: o cultivo delas, tanto com os encarnados quanto, obviamente (mas não estava na pergunta) com os desencarnados. Nesse sentido, de tantas conclusões que se pode tirar a partir dessa questão, o livre-arbítrio encontra-se manifestado em várias esferas da vida humana, desde a vigília ao sono. Quais os limites do Espírito? Se podemos nos encontrar com amigos que estão em outros países sem pagar passagem de avião – quase sempre muito caras – o que mais o Espírito pode fazer? Reza a lenda que um dia nos foi dito algo como “Sois deuses, apenas esquecestes”.

 Por fim, encontra-se na pergunta 415 questionamento a respeito da finalidade desses encontros a partir do momento em que não nos lembramos de tudo o que acontece durante o sono. Bem pertinente, da parte de Kardec. A pergunta é a seguinte: “Qual pode ser a utilidade dessas visitas noturnas, já que não nos lembramos delas?” e a resposta, para tal, é bem simples: “Em geral, guardais a intuição dessas visitas ao despertardes. Muitas vezes essa intuição é a fonte de certas ideias que vos surgem espontaneamente, sem que possais explica-las, e que são exatamente as que adquiristes nessas conversas”. Depreende-se, a partir daí, que trazemos, em nosso dia a dia, as marcas da nossa interação com o mundo espiritual – a qual se dá constantemente – mesmo sem saber, o que remete à pergunta 459: “Os Espíritos influem em nossos pensamentos e em nossas ações?” a qual tem por resposta: “Muito mais do que imaginais, pois frequentemente são eles que vos dirigem”. O que se passa durante o sono, dentro deste panorama, pode-se dizer que é uma parte da capacidade de ação e interação nossa: Espíritos.

____________________________

[1] Antes de sabermos da resposta, é necessário recomendar, para maior compreensão desse item, o estudo do item anterior: O sono e os sonhos, do mesmo capítulo, sobre o qual Kardec questiona os Espíritos a respeito da emancipação da alma durante o sono, o que o Espírito é capaz de fazer durante, qual a sua importância para o bem viver da alma, entre outros pontos interessantes de serem analisados.

[2] O qual se encontra descrito nas perguntas anteriores, do mesmo capítulo (O sono e os sonhos). Consiste na capacidade da alma, em determinados momentos, emancipar-se do corpo, mantendo com ele relação entretanto nível menor de conexão no tempo decorrido, afastando-se, desse modo, da influência da matéria.

[3] Ora, se o Espírito se desprende do corpo e permanece sendo o que é durante o sono, mantendo sua individualidade, por que não poderia se encontrar com outro Espírito durante esse processo? Caso não, o que o impediria?

 “Como posso perder minha fé na justiça da vida, quando os sonhos dos que dormem num colchão de penas não são mais belos do que os sonhos dos que dormem no chão?”

(Gibran K Gibran)

  • Victor Ramos é professor, palestrante espírita, tem experiência com grupos jovens e faz parte da SEER (Sociedade de Estudos Espíritas do Recife). 

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