SOCIALISMO E ESPIRITISMO

NELSON CARDOSO

Para iniciarmos a nossa conversa, é necessária uma explicação sobre a palavra caridade. Segundo o dicionário de português on-line, Dicio, essa palavra significa: “Aquilo que se oferece a; esmola, favor, benefício: fazer a caridade.” E é dessa forma que muitos a compreendem. Entretanto, Kardec levantou essa questão, perguntando em O Livro do Espíritos, questão 886: “Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus?” sendo respondido pelos Espíritos, que é a “Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias, perdão das ofensas.” e completa com um comentário, do qual destacamos o seguinte trecho “A caridade, segundo Jesus, não está restrita á esmola. Ela abrange todas as relações que temos com nossos semelhantes, quer sejam nossos inferiores, nossos iguais ou nossos superiores.”(KARDEC, 1857).

Com tal esclarecimento, agora podemos entrar no assunto deste artigo, que é o pensamento de Kardec, relativo às ideias socialistas; ideias essas que tiveram o início de suas práticas, contemporâneo à época do professor Rivail. Diz ele, referindo-se a elas: ” Alguns homens bem intencionados, tocados pelos sofrimentos de uma parte de seus semelhantes, supuseram encontrar o remédio para o mal em certas doutrinas de reforma social. Com pequenas diferenças, os princípios são pouco mais ou menos os mesmos em todas essas concepções, qualquer seja o nome que lhes dê. Vida comunitária, por ser a menos onerosa; comunidade de bens para que todos tenham a sua parte; nada de riquezas, mas também nada de miséria. Tudo isso é muito sedutor para aquele que, não tendo nada, vê, antecipadamente, a bolsa do rico passar ao fundo comunal, sem cogitar que a totalidade das riquezas, postas em comum, criaria uma miséria parcial; que a igualdade, estabelecida hoje, seria rompida amanhã pela mobilidade da população e a diferença entre aptidões; que a igualdade permanente de bens supõe a igualdade de capacidade e de trabalho.” (KARDEC, 1862).

É bastante interessante esta colocação de Kardec, dentro dos princípios do Espiritismo, que utilizam as leis naturais como base do progresso para cada um e, por consequência, para toda a humanidade. Nesta visão, continua Kardec: “A comunidade é a abnegação mais completa da personalidade. Ela requer o devotamento mais absoluto, pois cada pessoa deve pagar de sua pessoa. Ora, o móvel da abnegação e do devotamento é a caridade, isto é, o amor ao próximo. (…) Um sistema que, por sua natureza, requer para a sua estabilidade virtudes morais no mais supremo grau, haveria que ter seu ponto de partida no elemento espiritual. Pois muito bem, ele não o leva absolutamente em conta, já que o lado material é a sua finalidade exclusiva. Muitas dessas concepções são fundamentadas em uma doutrina materialista confessada alta e bom som. (…) Isso quer dizer que são enfeitadas com o nome fraternidade, mas a fraternidade, assim como a caridade, não se impõe ou se decreta, é algo que existe no coração e não será um sistema que a fará nascer, se ela aí já não se encontra alojada.” (KARDEC, 1862).

Temos portanto, a tentativa de se iniciar a construção de um edifício pelo telhado, e não pela sua base, como disse Kardec. Continuando: “Antes de fazer a coisa para os homens, é preciso formar os homens para a coisa, como formam obreiros, antes de lhe confiar um trabalho. Antes de construir, é preciso que nos certifiquemos da solidez dos materiais. Aqui os materiais sólidos são os homens de coração, de devotamento e abnegação. Sob o egoísmo, o amor e a fraternidade são, como já dissemos, palavras vazias. (…) Quiseram fugir do egoísmo que os esmagava, mas o egoísmo seguiu com eles e lá, onde se acham, encontram-se exploradores e explorados, pois que a caridade lhes falta.” (KARDEC, 1862).

Gostaria de fazer uma observação, que consta como nota do tradutor, na edição do livro que uso como referência. O tradutor afirma parecer que Kardec fala da experiência de Robert Owen, célebre socialista utópico, que fundou em 1825, uma comunidade nos moldes socialistas, nos Estados Unidos, fracassando em 1829. Esse molde é, na realidade, o mesmo molde da doutrina marxista, que surgiu anos depois. No entanto pela atualidade do assunto, visto que esse sistema ainda hoje é praticado e cogitado para ser implantado em alguns países, trouxemos a análise de Kardec, completamente pertinente aos nosso tempo atual.

Jesus de Nazaré

Continuando pois, com o seu pensamento, lembra-nos Kardec: “Sem a caridade não há instituição humana estável. (…) Quando a caridade tiver penetrado as massas, quando se tiver transformado na fé, na religião da maioria, então vossas instituições se tornarão melhores pela força mesma das coisas. Os abusos, nascidos do personalismo exacerbado, desaparecerão.” (KARDEC, 1862).

O Espiritismo muito veio a contribuir para a compreensão da verdadeira justiça, exercida com base no uso do livre arbítrio de cada um, e que se resguarda na lei de causas e efeitos. Na questão 799, de O Livro dos Espíritos, pergunta Kardec: – “De que forma o Espiritismo pode contribuir para o progresso?”, obtendo dos Espíritos, a seguinte resposta: “Destruindo o materialismo, que é uma chaga da sociedade, ele faz os homens compreenderem onde está seu verdadeiro interesse. A vida futura não estando mais velada pela dúvida, o homem compreenderá melhor, que ele pode assegurar seu futuro pelo presente. Destruindo os preconceitos de seitas, castas e de cor, ele ensina aos homens a grande solidariedade que deve uni-los como irmãos.” (KARDEC, 1857). É neste entendimento sobre a atuação do Espiritismo no coração dos homens, que Kardec fala: “Se o Espiritismo é uma verdade, se ele deve regenerar o mundo, é porque tem por base a caridade.” (KARDEC, 1862).

Sendo assim, amigos, devemos estar atentos à toda doutrina que deseja estabelecer uma aparente igualdade entre as pessoas, mas não leva em consideração senão o fator materialista, e que impõe esta ideia de fora para dentro das pessoas, quando justamente deve ocorrer o inverso, quando essas pessoas estiverem preparadas, em seu íntimo, usando a caridade e o amor ao próximo, para poderem somente então, iniciar qualquer reforma na sociedade.

BIBLIOGRAFIA: O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ALLAN KARDEC.

VIAGEM ESPÍRITA EM 1862 – Discurso pronunciado nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux, ALLAN KARDEC.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.