As Sociedades Espíritas e o necessário cuidado com o gigantismo

AS SOCIEDADES ESPÍRITAS E A SÍNDROME DO GIGANTISMO

NELSON CARDOSO

Estamos aos poucos em nossos posts, tentando aprofundar o estudo das ideias dos Espíritos, reveladas por Kardec, sendo que hoje iremos lembrar as instruções sobre o tamanho das sociedades, centros e casas espíritas. Desta forma, poderemos verificar o quanto esses locais se distanciam, atualmente, dessas ideias. De passagem, falaremos sobre as reuniões de evocação, tão importantes ao desenvolvimento dos médiuns e demais participantes.

No discurso que fez, durante o banquete oferecido pelos Espíritas de Lion, em 1862, e sobre os conselhos que lhe foram pedidos sobre a criação de uma grande sociedade espírita, elucidou Kardec que, usando de sua própria experiência, daria uma opinião que já era do conhecimento de todos: “Sabe-se que as melhores comunicações são obtidas em reuniões pouco numerosas, sobretudo naquelas em que reinam harmonia e comunhão de sentimentos. Ora, quanto maior for o número, mais difícil será a obtenção de homogeneidade. (…) Ao contrário, os pequenos grupos serão sempre mais homogêneos, as pessoas se conhecem melhor, estão mais em família e podem ser mais bem admitidas as que desejamos. E como última análise, todos tendem para um mesmo objetivo, podem entender-se perfeitamente e haverão de entender-se tanto melhor quanto não haja aquele melindre incessante, que é incompatível com o recolhimento e a concentração de espírito.” (KARDEC, 1862).

Em O Livro dos Médiuns, Kardec já havia falado sobre a relação entre o recolhimento e a comunhão de pensamentos, e o número menor de médiuns nas reuniões. Outra vantagem da multiplicidade delas, é a variedade de comunicações, pela diversidade de aptidões dos médiuns, sendo que ele sugere haver uma comunicação entre as reuniões, de modo que aproveitem todos os trabalhos.

Uma observação de grande importância, é que estamos tratando de reuniões mediúnicas de evocação, e não exclusivamente de desobsessão, como ocorre hoje em dia nos centros espíritas. A reunião de evocação é para o estudo, fazendo o intercâmbio com os Espíritos que a coordenam, e os Espíritos protetores dos participantes, no sentido instrutivo, mas que, naturalmente, podem receber Espíritos à procura de ajuda, sendo o acolhimento, feito pelo dialogador ou pelo dirigente da reunião, com o intuito de ouvi-lo, pois é de grande ajuda, podendo mesmo, fazer uma oração; porém jamais tentar conduzir o Espírito para hospitais, escolas e salas de fluidoterapia, ou ainda tentar doutriná-lo com conselhos que se julguem morais, sendo esses conselhos, normalmente, não sensíveis ao Espírito. Levá-lo ao ambiente da reunião à força, com intensão de convencimento, é outro equívoco constante das atuais reuniões de desobsessão.

Antiga sede da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Voltando aos entraves das grandes reuniões e sociedades, vamos continuar a análise feita por Kardec: “As grandes assembleias excluem a intimidade pela variedade dos elementos dos quais se compõem; exigem locais especiais, recursos pecuniários e um aparelho administrativo inútil nos pequenos grupos; a divergência de caracteres, de ideias, de opiniões aí se desenha melhor, e oferece aos Espíritos trapalhões mais facilidade para semearem a discórdia. Quanto mais a reunião é numerosa, tanto mais é difícil contentar todo mundo; (…) daí as divergências, uma causa de mal-estar que traz, cedo ou tarde, a desunião, depois a dissolução, sorte de todas as sociedades da qual sejam o objeto”. (KARDEC, 1861, cap. XXIX).

Kardec fala que o Espiritismo tem inimigos interessados em lhe fazer frente e que se insinuam em toda parte onde desejam fazer o mal e acrescenta: “Compreende-se que eles têm infinitamente mais facilidade para se insinuarem nas reuniões numerosas do que nas pequenas sessões, onde todo muito se conhece; (…) Esse estado de coisas, deplorável em todas as sociedades, o é mais ainda nas sociedades espíritas, porque se não leva à ruptura, causa uma preocupação incompatível com o recolhimento e a atenção”. (KARDEC, 1861, cap. XXIX).

O cuidado de Kardec, com o estudo e o entendimento dos princípios do Espiritismo, é bem nítido, ao questionar cada interessado em frequentar as sociedades espíritas. Não era totalmente aberta ao público, havia um preparo, para o qual o pretendente recebia um livro e retornava algum tempo depois para que Kardec pudesse avaliar suas reais intenções, podendo aceitá-lo ou não na Sociedade. Este é um exemplo a ser seguido pelos centros espíritas atuais, sendo aberta ao público apenas as palestras. Os cursos e demais tarefas, precisariam ter um sério critério de avaliação! A ideia de “casa cheia” remete ao o proselitismo das religiões, em busca de crentes, o que não se afina com a Doutrina Espírita. Para concluirmos este entendimento, estejamos atentos às palavras de Kardec: “O Espiritismo está destinado àqueles para os quais o alimento intelectual, que lhe é dado, não basta, e o número destas pessoas é tão grande que o tempo não sobra para nos ocuparmos com as outras. (…) O Espiritismo não procura ninguém, não se impõe a ninguém;” (KARDEC, 1862)

BIBLIOGRAFIA: Viagem Espírita de 1862 – Allan Kardec.

O Livro dos Médiuns – Allan Kardec.

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