PORQUE JESUS NUNCA FOI O CRISTO.

NELSON MADEIRA

Os mitos de deuses pagãos dominaram muitos povos antigos, sendo contos mitológicos que tentavam explicar o contexto dos sentimentos dos homens diante da vida na cultura deles. Dentro deste contexto, surgiu o judaísmo, com um Deus único, com suas Leis, para conduzir o seu povo.

Respeitando as leis em seus livros, viveu o povo hebreu entre guerras e sofrimentos, por muitos séculos, e nesta cultura, nasceu Yeshu’a Ben Yosef, ou Jesus de Nazaré, um judeu, filho de Yosef e Miriam, em uma família com muitos irmãos. Um homem envolvido com seu próximo, sofrendo com um povo marginalizado, constantemente dominado por nações estrangeiras. Cresceu assistindo todo tipo de atrocidades e violência e destacou-se pelo seu envolvimento fraterno, através de um amor incondicional à sua gente, encorajando-os com a sua mensagem de resistência e esperança.

Apesar de ser um cumpridor das Leis judaicas, Jesus sempre esteve preocupado em não se destacar com os seus atos de cura, para não atrair a censura dos poderosos governantes da época.

Destruição de Jerusalém em 70 d.c.

Porém, em algum momento da sua história, exatamente por atingir tais interesses, foi preso, julgado e condenado à morte, provavelmente por ter infringido as leis dos dominadores romanos. Esta sua história, após a sua morte, foi passada de boca em boca, e se popularizou ainda mais, com a sua mensagem e as curas que fez. As características desta forma verbal de passar a história da sua vida, acabaram sofrendo acréscimos e omissões, com o tempo. Somente após mais de 60 anos, redigiram os primeiros documentos, os evangelhos da religião Cristã. Religião esta, alimentada desde o início, pelo ódio contra os judeus, que não aceitaram a divinização do Cristo; ódio este, que foi aumentado pelo interesse em agradar a poderosa Roma, principalmente à partir da destruição de Jerusalém, pelo general Tito, sufocando uma revolta local, no ano 70 d.C. Os três evangelhos sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas) foram escritos justamente nesta época!

Buscando uma figura mitológica do povo grego, o Cristo, como um enviado de Deus para salvar a humanidade, a igreja Cristã nascente, anexou o mito ao homem Jesus, e também adaptou as profecias dos antigos profetas judeus, para dar-lhes um ar de veracidade, profecias essas que se referiam exclusivamente à história do povo de Israel, registradas na Bíblia hebraica. A incorporação de tais profecias serviria para uma suposta anunciação da vinda do messias, o Cristo Salvador, ignorado pelas escrituras sagradas do povo hebreu.

Desde a concepção de sua mãe, Miriam, até a sua morte, criou-se em torno de Jesus, uma lenda fantasiosa de anjos, estrelas guias e ressurreição; mudou-se o local e a data de seu nascimento, para coincidir com o que seria a confirmação de sua origem divina. Colocaram falas na boca de Jesus, que à luz da razão, não poderiam ter sido ditas por ele.

 Para dar um embasamento histórico desses fatos, vamos resumir aqui, os dois momentos extremos da vida de Jesus de Nazaré: a Natividade e a Paixão, utilizando os estudos do pesquisador e Professor emérito Geza Vermes, considerado um dos maiores conhecedores da vida de Jesus, dos manuscritos do Mar Morto e da história do Cristianismo. Retiramos esta sucinta análise, de dois livros de sua autoria. Iniciemos com “Natividade”:

      “A concepção virginal em Mateus e a profecia de Izaias” (capítulo 5: A Virgem e o Espírito Santo)

O evangelista intervém e lança uma nova luz sobre a questão valendo-se de uma profecia do Antigo Testamento, segundo a qual uma virgem virá dar à luz o Salvador do povo judeu. Na versão do evangelho para as palavras de Isaías, diz a profecia: ‘Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho que se chamará Emanuel, que significa ‘Deus conosco’ (Isaías 7,14, em Mt 1,23)’. (…) Para aludir à mulher que virá conceber e dar à luz, um filho, Isaías 7:14 não se refere a uma virgem ou betulah em hebraico, mas a uma ‘almah, isto é, “uma jovem mulher” termo neutro que não indica necessariamente virgindade. (…) … é muito improvável que a ‘almah, mencionada em Isaías 7, a jovem que no futuro próximo há de conceber e dar à luz um filho, seja virgem. O CONTEXTO SUGERE QUE ELA JÁ É CASADA, E ESPOSA DO ENTÃO REI JUDEU, ACAZ, AO FIM DO SÉCULO VIII a.C. (destaque nosso). (G.Vermes, 2007).

Teríamos algumas outras passagens do livro de Isaías, como, por exemplo, o capítulo 53, e de outros profetas hebreus, confirmando que nenhuma delas se referia a Jesus, ou que Jesus seria o messias anunciado. Jesus em nada se parecia com um messias judeu. Mas deixaremos para aprofundar este assunto em outra ocasião.  

                  A PAIXÃO                                                                

Em seu livro intitulado “A Paixão – A verdadeira história do acontecimento que mudou os rumos da humanidade”, Geza Vermes faz uma completa análise destes últimos dias de vida de Jesus, através dos evangelhos, comparando, verificando as concordâncias e discrepâncias nos evangelhos sinóticos, e também no atribuído à João, citando cada momento, desde a última ceia até o sepultamento de Jesus. Usarei o Epílogo do livro, de forma resumida, para que se possa entender os possíveis interesses existentes à época, e principalmente os interesses dos que escreveram os evangelhos, após mais de 60 anos passados da morte de Jesus. O autor explica a posição dos quatro principais personagens envolvidos no drama da paixão: Os judeus, Caifás, Pilatos e Jesus.

Vamos lá:

                                  Os judeus

Jesus foi acolhido com aclamação cordial à sua entrada na cidade de Jerusalém. “Porém, afirma-se que, desde o momento de sua prisão, não só todos os líderes judaicos, mas também toda a multidão judaica, tanto no palácio de Pilatos como no Gólgota, demonstraram um profundo ódio por ele.” Porém Vermes discorda dessa visão, afirmando que: “Antes da sua prisão, os chefes dos sacerdotes hesitaram em tomar medidas imediatas contra Jesus por temerem uma reação popular maciça.”(…) O célebre fariseu Rabi Gamaliel invocou a imparcialidade para com os apóstolos diante da alta corte (At 5,34-9). (…) A única explicação racional consiste em atribuir a tendência hostil dos Evangelhos ao antijudaísmo, cada vez mais poderoso, da igreja cristã primitiva.” (VERMES, 2005).

                                    Caifás

Caifás, o sumo sacerdote, e os chefes dos sacerdotes são os vilões da história da Paixão.(…) Reflete este retrato a realidade histórica ou também é produto da especulação teológica e apologética dos evangelistas? O seu antagonismo radical contra os judeus parece sugerir que eles tenham perdido toda esperança de sucesso em quaisquer outras missões entre os judeus. (…) No final do século I d.C., os cristãos (gentios) viam os judeus como inimigos.(…) UMA VEZ QUE FOI VISTO COMO PERSEGUIDO PELOS JUDEUS, JESUS DEIXOU DE SER APREENDIDO COMO PERTENCENTE AO POVO JUDEU E FOI SIMPLESMENTE TRANSFORMADO EM CRISTÃO. (destaque nosso). E justificando a atitude de Caifás, encaminhando Jesus a Pilatos, Vermes lembra a posição difícil do sacerdote, de manter a ordem em Jerusalém, “medo este combinado contra possíveis excessos romanos.” (VERMES, 2005).

                          Pilatos

Inicia o autor, a análise deste personagem: “O retrato de Pilatos pelos evangelistas é aquele de um juiz sensível e indeciso”. A súplica quase infame de Pilatos e o medo de um tumulto são incoerentes. Bastaria uma ordem dele, e a legião de soldados romanos faria fugir aquela multidão de judeus. Pilatos estava longe de ser aquele governador bonzinho dos evangelhos. Na realidade cometia insultos, roubos, afrontas e injustiças atrozes, de crueldade, bem como inúmeras execuções sem julgamento como consta, na carta ao Imperador romano Calígula, enviada pelo rei judeu Herodes Agripa I. Essa defesa de Pilatos, nos evangelhos,“mais parece uma ficção  criada pelos evangelistas com vistas  a conquistar  a simpatia de Roma, em cujo império a nascente Igreja estava se desenvolvendo. Já que a cristandade era em geral impopular aos olhos romanos (…) era do interesse dos Evangelhos acalmar as autoridades”. E como já citamos no início deste artigo, “na época do registro das narrativas da Paixão nos Evangelhos sinóticos, a rebelião judaica já tinha sido reprimida por Vespasiano e por Tito. Portanto, de um ponto de vista político, era duplamente acertado culpar os judeus pelo assassinato de Cristo e absolver o romano Pôncio Pilatos”.

                                      JESUS


RELANÇAMENTO

Segundo Vermes, as narrativas da Paixão seriam impróprias para traçar um retrato verdadeiro de Jesus. Porém existem dois incidentes, citados pelo autor, que transmitem “uma percepção profunda do verdadeiro Jesus” Diz ele: “Mesmo durante a sua última refeição, ele é apresentado pelos Sinópticos, como esperançoso e ansioso para completar a sua missão. E faz um voto de não tocar mais o vinho até a chegada do reino de Deus. Se tivesse consciência da sua morte iminente, tal voto de abstinência seria desprovido de significado”.

E o segundo incidente revelando que ele não esperava esse fim, aparece em suas “…palavras em aramaico: “Eloi, Eloi, lamá sabachtháni?” que “têm toda a aparência de um grito genuíno. Representando a consternação de um homem de fé à sua compreensão súbita de que Deus não viria resgatá-lo, a exclamação é uma oração devotamente inspirada de descrença. Mas a expressão ‘Por que me abandonaste?’ é seguida em Marcos e em Mateus por outro clamor, cujas palavras, para aumentar o efeito dramático, permanecem impronunciadas. Repetiram elas a oração quintessencial de Jesus, ‘seja feita a tua vontade’?”

O Espiritismo e a moral de Jesus

Este site tem como objetivo o estudo do Espiritismo na sua essência, como revelado pelos Espíritos e coordenado pelo incansável pesquisador Allan Kardec, mas também busca a mesma essência no homem de Nazaré. Ambos, manipulados por interesses egoístas de dominadores das massas, tiveram suas mensagens modificadas, conseguindo sobreviver, talvez por trazer mensagens idênticas de amor incondicional, envolvendo fraternalmente toda a humanidade. Foi o ensinamento moral de Jesus, que Kardec mostrou interesse em apresentar, afirmando que “é o terreno onde todos os cultos podem se reencontrar, a bandeira sob a qual todos podem se abrigar, quaisquer que sejam suas crenças, porque jamais foi objeto de disputas religiosas.”(Introdução I, KARDEC, 1861).

Bibliografia: NATIVIDADE, de Geza Vermes.

                       PAIXÃO, de Geza Vermes.

                       O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIITISMO de Allan Kardec.

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