As reuniões e as Sociedades Espíritas: de Kardec ao Brasil.

Nelson Cardoso

Quando os Espíritos apresentaram ao mundo as bases do Espiritismo como uma filosofia moral, revelando evidências e provas da comunicação com os mortos, os unindo aos encarnados como uma só humanidade, abriu-se um largo campo de questões e pesquisas até então cobertas pelo véu da ignorância.

Mas as dificuldades enfrentadas foram grandes, pois se de um lado, a ciência contestava tais revelações, com sua base materialista, não conseguindo ver argumentos plausíveis nos fenômenos que estavam se proliferando, do outro lado a velha religião retrógrada combatia com as conhecidas ameaças de castigo para os novos hereges.

Entre esses dois opostos, o Espiritismo surgiu como luz à clarear as sombras dos homens, trazendo esclarecimentos para as seculares dúvidas dos descrentes, desiludidos e rejeitados.

Para a propagação desta doutrina confortadora, tendo toda uma bibliografia pronta para estudos, e o desenvolvimento dos fenômenos naturais de comunicações mediúnicas, teria que haver um local próprio para essas atividades: “As reuniões Espíritas podem, pois, ser feitas religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos de que se ocupa; pode-se mesmo, na ocasião, aí fazer preces que, em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que, por isso, sejam tomadas por assembleias religiosas” Nessas reuniões, Kardec nos lembra a principal motivação que deve estar presente: “Qual é pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual deve se deve confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos ou, em outras palavras: o amor ao próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos que os mortos fazem parte da humanidade” (KARDEC, 1868, pag. 491 e 492).

A importância da reunião está na seriedade de seus propósitos; retirando desta análise, as reuniões frívolas e experimentais, elas podem ser instrutivas, quando contam diretamente com a participação dos Espíritos e de estudo, que “são de uma imensa utilidade para os médiuns de manifestações inteligentes, sobretudo para aqueles que tem um desejo sério de se aperfeiçoar, e que a elas não vêm com uma tola presunção de infalibilidade”. (KARDEC, 1861 Q. 327 e 328).

                 SOBRE AS SOCIEDADES ESPÍRITAS

O primeiro destaque de Kardec, refere-se ao laço poderoso que existe entre aqueles que vêem o objetivo moral, o compreendem e o aplicam a si mesmos. “Uma sociedade onde tais sentimentos  reinassem sem divisão, onde seus membros se reunissem com o objetivo de virem se instruir com os ensinamentos dos Espíritos, e não na esperança de verem coisas mais ou menos interessantes.” (KARDEC, 1861 Q.334).

Destaca a condição melhor  de bons resultados quando os grupos são pequenos, pela facilidade de se conhecerem, o silencio e o recolhimento são mais fáceis e tudo se passa como em uma família, não exigem locais especiais e nem recursos financeiros para sustentar  um aparelho administrativo. Ainda sobre este ponto, adiciona o codificador, “Já vimos de qual importância é a uniformidade de sentimentos.(…) Essa uniformidade será tanto mais difícil de se obter, quanto o número for maior”. (KARDEC, 1861 Q. 334).

Quanto às reuniões que se ocupam de manifestações físicas de Espíritos – as chamadas reuniões mediúnicas – a necessidade do envolvimento fraternal é prioritário. “Há, pois, também para isso, influências contrárias, e essas influências não podem estar senão na divergência ou na hostilidade de sentimentos que paralisam os esforços dos Espíritos.”(…) “Se as manifestações físicas  são produzidas, em geral, por Espíritos menos avançados, não deixam de ter um objetivo providencial, e os bons Espíritos as favorecem todas as vezes que podem ter um resultado útil.” (KARDEC, 1861, Q. 342).

Por fim, temos nos grupos nascentes, por vezes, poucos ou nenhum médium. Como esclarece Kardec, “os médiuns, seguramente, são um dos elementos essenciais das reuniões espíritas. Mas não são o elemento indispensável, e haveria erro em crer que, com sua falta, nelas nada haveria a fazer”. (KARDEC, 1861, Q.347).

Diante dessas instruções, se comparadas à maioria das casas espíritas no Brasil, encontraremos um verdadeiro choque: Casas inchadas, uma infinidade de tarefas distribuídas por uma quantidade enorme de membros, onde muitos pouco se conhecem. A busca intensa pela quantidade, e não perla qualidade dos frequentadores.

O interesse pelo estudo, pela reflexão e pelo envolvimento fraterno é desestimulado por normas e regras, com muitos dirigentes divididos em vários departamentos, coordenações, etc…, onde a hierarquia predomina e os cargos são motivo da disputa de vaidades pessoais e de autoridade. Tarefeiros são convocados às tarefas por circulares, memorandos, sujeitos às punições. Uma verdadeira empresa com os seus empregados.

Não citamos neste artigo o aspecto religioso, dominante nas sociedades espiritas brasileiras, mas percebemos como essas casas, em mais um aspecto, estão distantes da Doutrina Espírita!

BIBLIOGRAFIA: O Livro dos Médiuns, Allan Kardec, 85ª edição – IDE.

Revista Espírita, Allan Kardec, dezembro de 1868, edição da FEB.

O símbolo do Espiritismo

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